Sobre Esquecimentos

5 de outubro de 2026by Ato Freudiano0
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 Sobre Esquecimentos

[é preciso dar um jeito…]

Jornada de Encerramento – dezembro de 2024

(…) embora muito associada a Churchill, a ideia original pertence ao filósofo e poeta espanhol George Santayana. Em sua obra The Life of Reason (1905), escreveu: ‘Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo’.

Nesse ano trabalhamos nos Seminários Freudianos textos importantes que se articulam entre si de múltiplas formas. O Inconsciente, Compêndio de Psicanálise, Sobre a Transitoriedade. E ficou como indicação o texto A negação, bem como O Recalque, textos transversais, dentre outros que surgiam ao longo das leituras.

Alguns significantes restaram, e ficaram vagando, tecendo algo que ainda não tinha forma mas que de alguma maneira se relacionavam: memória, lembrança, esquecimento, ato falho, apagamento. Essa escrita ainda está no começo, tentando agulhar essas ideias que foram atravessando ano de trabalho, sabendo que existe algo aí, mas que precisa ser costurado. Talvez o que venha agora seja o princípio dessa tessitura, que só entregará nesse primeiro momento alguns retalhos alinhavados com a linha que foi possível usar, por hora, pois ainda existem alguns lutos em andamento por aqui. Estamos também costurando pelo tecido da transitoriedade.

Na ocasião da leitura do “O inconsciente”, eu lia concomitantemente “O livro do riso e do esquecimento”, de Milan Kundera. Um trecho da nota na orelha do livro nos ajuda a entrar no seu universo: “Em sete capítulos aparentemente autônomos o autor lança um olhar sobre o cotidiano da Tchecoslováquia após a invasão russa de 1968: as desilusões da juventude, a desorientação dos intelectuais, a prepotência dos líderes políticos, tudo converge para o esquecimento, imposto ou voluntário, individual ou coletivo. […] Diante do desaparecimento inevitável dos frágeis resquícios do passado, Kundera empreende uma particularíssima busca do tempo perdido. Mas, expulso de seu país após sucessivas perseguições, a única saída encontrada pelo escritor tcheco é o riso […] nos elementos mais banais do cotidiano, constatando que o cômico está indissociavelmente ligado ao trágico e mesmo à morte. […] O autor faz a articulação muitas vezes invisível, entre o destino individual dos personagens e o destino coletivo de um povo. Para não esquecer Praga e sua primavera […]”. Para não esquecer, Kundera escreve.

Talvez no momento daquelas leituras, tenha aparecido pela primeira vez algo dessa articulação que Kundera faz enquanto escritor, e do que encontramos dentro do texto psicanalítico, do que seria da ordem do esquecimento para o sujeito e como pensar isso no coletivo. E naturalmente da necessidade de fazer algumas distinções. Quando pensamos na ideia de esquecimento, é interessante considerar que estamos no terreno do tempo. Do inconsciente, sem dúvida, dos lapsos que Freud irá trabalhar enquanto atos falhos, mas também importa aqui trazer essa questão temporal, do espaço-tempo que comporta a ação do esquecimento. Algo de um conectar e desconectar um tempo passado de um presente. Usamos muitas palavras pra tratar dessas questões que aqui sondamos. Lembrança, por exemplo, que pode ser o oposto de esquecimento, é amplamente utilizada, e temos diferentes maneiras de ler isso. Pra neurologia, por exemplo, a memória faz parte da fisiologia do cérebro, diz da sua cognição, capacidade de reter e acessar informações e etc.

O que nos propomos a pensar aqui é sobre outra coisa. Se relaciona com o que fazemos em uma homenagem in memoriam. Quando dizemos “puxar pela memória”. Quando tentamos apreender no olhar do tempo, o que nos afeta ou melhor, como preenchemos esses gaps ou ainda o que fazemos com esses rastros, restos, lacunas e lembranças encobridoras. O poeta [a psicanálise sempre tem muito o que aprender com eles] Waly Salomão em seu poema “Carta aberta à John Asburry dizia: “A memória é uma ilha de edição”. Em outro verso do mesmo poema afirma: “Nulla dies sine linea. Ou seja, “nenhum dia sem um traço”. Versos que nos indicam o trabalho da memória ao longo do tempo. Levando em conta a ficção nossa de cada dia, de cada sujeito, importa muito mais à psicanálise trabalhar com o conceito de realidade psíquica do que com o registro factual concreto, científico, ou de hardware. Freud, no texto “O mecanismo psíquico do esquecimento” [1898] já dizia que “[…] a tarefa de recuperar essas lembranças perdidas enfrenta certa resistência, que tem de ser contrabalançada por trabalho proporcional à sua magnitude.” [p. 325 Imago]

Em “Recordar, repetir e elaborar”, [1914] Freud estende a noção de esquecimento à neurose obsessiva. Nesta “o esquecer restringe-se principalmente à dissolução das vinculações de pensamento” (Freud, 1914/1988, p.195), e vai dizer que “esquecer impressões, cenas ou experiências quase sempre se reduz a interceptá-las”. (Freud, 1914/1988, p. 194) Em “Uma criança é espancada”, [1919] Freud aponta que “o trabalho analítico só merece ser reconhecido como psicanálise quando consegue remover a amnésia que oculta do adulto o seu conhecimento da infância”. (Freud, 1919/1988, p. 230) Se as histéricas do começo o século passado sofriam pela impossibilidade de esquecer, sofriam das suas reminiscências, hoje mais do que nunca sofremos, para além dos nossos sintomas, coletivamente, com toda uma construção narrativa que é feita para o apagamento. Tendo na neurose cotidianamente o recalque, defesas e censuras operando, como fazer para que não esqueçamos todas as Pragas e suas primaveras  – coletivas – de maneira que não deixemos de nos posicionar frente ao apagamento? Apagamento forçado pelas contingências de um discurso perverso, da memória da história?  

No documentário que trabalhamos também este ano no Seminário de Biblioteca, “Muitos, muitos anos mais tarde”, Solal Rabinovitch fala sobre a Escola como um lugar necessário e sobre o trabalho que precisa ser feito a respeito da memória. Ela diz: “Como no Brasil [se referindo à ditadura] não houve esse trabalho da memória, isso explica o tsunami do Bolsonaro.” E destaca a diferença do que se deu na Argentina, com seus museus, obras e placas, que reafirmam a memória dos tempos de sua ditadura. Solal aponta então para a diferença do que é da ordem do desmentido e da foraclusão. Uma tomada pela denegação, outra pelo recalque.

O escritor Jorge Luis Borges disse que “a vida está um pouco suspensa entre as memórias e o esquecimento”. Era um tema caro a ele. No seu conto “Funes, o memorioso”, seu personagem se lembra de tudo com uma precisão avassaladora, e isso evidentemente torna-se uma maldição. Em alguma medida, o esquecimento importa, é salutar e desejável. E a psicanálise se ocupa da hiância, do furo, do hiato. Das lacunas do que não é dito e lembrado. No entanto, quando estamos lindando com uma memória que nos é vilipendiada, como proceder e o que pensar a respeito dos efeitos disso? Isso se deu com o holocausto judeu, armênio, e tantos outros. Atualmente, enquanto estamos aqui reunidos, diversos autores tem trabalhado numa produção que se chama Diários de Gaza. O primeiro volume tem o título de “A memória é uma casa indestrutível”. Os autores escrevem de lá, em meio ao massacre palestino. Eles provavelmente sabem muito bem o quão destrutível a memória pode ser. E por isso escrevem. Memória sufocada é um documentário de 2023 de Gabriel de Giacomo. Uma obra que trata justamente da tentativa de apagamento da memória do nosso país no período da ditadura, e de outros momentos negacionistas da nossa história recente. No documentário, o Coronel Alberto Brilhante Ustra, enaltecido pelo nosso ex-presidente inelegível e indiciado, aparece juntamente com seu livro “Verdades sufocadas”, onde ele nega todos os eventos de tortura do qual foi acusado de estar envolvido e se reporta à Comissão da Verdade dizendo que tudo o que é dito a respeito é mentira. Verdade ou consequência: Era nossa brincadeira de criança. Verdade & consequência, é o que buscamos para que o tal apagamento que nos forçam a vivenciar enquanto coletivo, encontre uma barra. Seguimos pagando um preço muito caro, enquanto o fora-da-lei permanece sem ter de se haver com a mesma.

Se recuperar as lembranças como nos dizia Freud nos primórdios da sua teoria, era um trabalho que encontrava resistências, desvelar a censura que um dia prevaleceu na nossa sociedade [e em tantas outras], fazer valer a castração em alguma medida, diante de tanto desmentido parece tarefa hercúlea, mas podemos eticamente nos furtar a ela? 

No documentário de Giacomo, nos deparamos com o significado de anistia, que é um termo derivado do grego amnestia, sendo traduzido por esquecimento. Nos lembramos sim, e é preciso dar um jeito. Assim como nos diz os versos de Erasmo na canção da trilha sonora de “Ainda estou aqui” de Walter Salles, filme que também se ocupa dessa memória de alguns sujeitos e de um coletivo, memória que precisa estar presente no futuro. Sem anistia!

Clara Jaeger


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