A Dívida de Sangue

21 de setembro de 2026by Ato Freudiano0
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Intervenções do Seminário de Leitura do texto “Considerações sobre a guerra e a morte” de Sigmund Freud (1915).

A dívida de sangue 

Silvânia Marques Motta

A partir da participação no seminário de leitura do texto freudiano Considerações atuais sobre a guerra e a morte, surgiu a lembrança de duas histórias que suscitaram questões sobre a “dívida de sangue” apontada na obra de Freud.

Alguns anos atrás, um homem adentrou um estabelecimento comercial na cidade de Juiz de Fora (MG) e assassinou um funcionário — aquele que teria matado seu pai quando ele ainda era criança. Poderíamos pensar em tal acontecimento como uma via de gozo frente a algo que não pôde ser contornado no simbólico? 

A outra história é a da jovem Beatrice Cenci, decapitada na ponte de Sant’Angelo, no século XVI, após planejar e executar, junto à madrasta e aos irmãos, o assassinato do pai, Francesco Cenci. Cruel e abusador, ele foi morto num castelo da família, fora de Roma. 

Antes do crime, Beatrice fizera várias tentativas de denunciar as violências cometidas por ele contra os familiares, porém esses apelos foram ignorados pelas autoridades. Era matar ou morrer. Diante do indizível, só resta o ato. Seria uma saída do desejo?

Os envolvidos tentaram encobrir o crime como um suposto acidente. Francesco era um nobre influente e conhecido do papado. Assim, sua morte levantou suspeitas e foi investigada até que, apurada a verdade, os culpados foram condenados à pena de morte, sem clemência. 

Uma questão se impôs: como transformar o sangue derramado em vida?

Beatrice caminhou em silêncio para a decapitação. Na arte, encontrou-se o grito. O impacto dessa cena compareceu nas obras dos pintores italianos Caravaggio e Artemisia, onde o sangue jorra na tela. 

A metáfora substitui o que não pode ser nomeado, contornando a morte, a indescritibilidade do ponto sem palavras, ligado ao Real. 

Os pintores teriam assistido à execução pública na juventude. Nos seus quadros, inspirados em uma passagem bíblica de Judite e Holofernes, a heroína degola o general tirano, para livrar seu povo, no que teria sido uma justiça tardia feita a Beatrice.

O sangue e a dívida remetem à família, às vivências edípicas e à impagável herança simbólica, como escrito por Freud em Totem e Tabu. O mito trabalha o Édipo enquanto estruturante do sujeito na base da cultura. 

No texto A direção do tratamento e os princípios do seu poder, Lacan fala do “farrapo ensanguentado de Osíris embalsamado”, referindo-se ao deus egípcio que foi esquartejado pelo irmão por inveja. Osíris teve suas partes reunidas e foi mumificado, porém o falo nunca foi encontrado. 

Lacan também fala na “libra de carne empenhada pela vida”, relativa à castração simbólica como uma operação da análise, articulada por Eduardo Vidal e Carlos Ruiz no Seminário de 1991, lido no seminário de topologia e psicanálise. 

No final de análise, a ratificação da perda de ser, com a inscrição do falo simbólico, permite aceder ao efêmero – incidência da castração no gozo – e faz com que a falta passe a funcionar como motor do desejo. 

 

Blutschuld – Dívida de Sangue

Fernando Freitas

Essa contribuição ao seminário a respeito do texto de Freud “Considerações sobre a Guerra e a morte” refere-se à nota da página 235 do volume 12, das Obras Completas de Freud da Editora Companhia das Letras, que trata da expressão Blutschuld – dívida de sangue –  cujo tema também é  trabalhado na segunda dissertação da obra Genealogia da Moral de Friedrich Nietzsche.

Na etimologia da palavra alemã é induvidoso que Blut significa sangue – Das Blut.

A palavra Schuld, por sua vez,  significa tanto dívida material, quanto culpa moral.

O  sentimento de “culpa” nasceu da compreensão do devedor de se  “estar em dívida” com o outro” e que o não cumprimento da palavra lhe acarretaria um dano.

No paleolítico, na relação entre os clãs, o homem, para que pudesse viver no mundo natural hostil e primitivo, precisava fazer promessas e acordos que garantissem o seu futuro e de sua prole. Nesse sentido, segundo Nietzsche, uma das relações  mais antiga entre as pessoas talvez tenha sido de credor e devedor. Nessa conduta, uma pessoa se colocou e se mediu com outra com o fito de estabelecer um ganho moral ou material diante de um acordo entre as partes.

As trocas, os negócios, aquilo que se convencionou a ser o comércio está na gênese da organização social, assim como a religião também surge como forma de interpretação do mundo natural, unindo os grupos humanos e estabelecendo relações. Tal fato é observado em Gobekli Tepe, o mais antigo assentamento  temporário (não usado como morada) humano de caçadores e coletores com 11.500 anos (pleno mesolítico) de idade na atual Turquia. Fenômeno semelhante se apresentou por volta de 2600 a.C. em Caral no Peru.  

Nessas inteirações, com o passar do tempo,  o homem aprendeu a cobrar de outro homem o compromisso assumido e imputar as penas pelo descumprimento das promessas.

Mas para a efetivação desse modo de agir era preciso inventar uma memória que permitisse a cobrança de um ser naturalmente dotado de esquecimento.

Uma memória que possibilitasse que o cumprimento da palavra empenhada não fosse esquecida quanto da resolução dos impasses e pudesse ser cobrada a duras penas.

E é Justamente para criar essa possibilidade que haverá uma jazida de coisas  cruéis e desagradáveis a construir essa memória que irá amalgamar um estilo de vida rígido.

O filósofo indaga: como se grava algo na memória humana? Segundo o próprio Nietzsche, nada era mais efetivo do que a dor.

Daí surge a dívida de sangue (Blutschuld): a dor vivida na pele era a moeda de troca quando a promessa era descumprida, “podendo cortar a própria carne do devedor em tiras”.

“As coisas nunca se passavam sem sangue, tortura e sacrifício quando o homem julgava necessário construir uma memória; os mais medonhos sacrifícios e penhores, as mais repulsivas mutilações e castrações, as mais cruéis formas rituais de todos os cultos religiosos (e todas as religiões, em sua base mais profunda, são sistemas de crueldades) tudo isso tem origem no instinto que adivinhou na dor o mais poderoso auxiliar da memória”.

Quando um devedor pedia algo emprestado e não tinha bens para dar em garantia, ele empenhava o próprio corpo (ou sua liberdade, sua vida, sua mulher).

 Se o devedor não pagasse, o credor tinha o direito de infligir sofrimento físico. A compensação do credor era o prazer moral de exercer violência e ter poder sobre o outro.

Percebe-se que há um gozo na violação, uma volúpia “de faire le mal pour le plasir de le faire”, a compensação consiste, portanto, numa instituição da crueldade e num direito de praticá-la. Com efeito, era um prazer e uma festa ou ao menos uma satisfação e um “plus” além da indenização, um “mais de gozar”.

“Nunca há de se esquecer que as execuções eram festivas, os suplícios eram momentos de escárnio onde os instintos bestiais vinham à tona em forma de pândega na baixa canalha”.

Nos tempos hodiernos nos vemos perante a sofisticada punição da cobrança dos juros que arranca o couro e o sangue do freguês e leva a pessoa do devedor à miséria, ao desprezo, à humilhação, no entanto, é um “direito” institucionalizado pelos bancos, tribunais e exercido por agiotas credenciados. E não em raras ocasiões o devedor se sentia obrigado moralmente a pagar os juros mesmo sem ser cobrado, mas como algo já enraizado em sua conduta, uma penitência.

“A punição amansa o homem, mas não o torna melhor”.  O dano nos torna prudentes, porém nos faz ruins e frequentemente estúpidos.

Nesse ponto surge o que Nietzsche chama de “má consciência”, o profundo adoecimento ao qual o homem teve de sucumbir quando se institucionalizou “o mal-estar plúmbeo” na sociedade, pois os instintos tiveram que buscar satisfações sofisticadas e subterrâneas.

 Tudo que não foi descarregado para fora se voltou para dentro e contra o próprio homem, eterno torturado, o “homem de má consciência” é o resultado do aprisionamento dos instintos humanos: “Esse louco, esse prisioneiro sequioso e desesperado, tornou-se o inventor da má consciência”.

“Quando o homem foi forçado a viver em sociedade debaixo de leis e muros, seus instintos de agressividade e crueldade foram proibidos de se voltar para fora. Sem ter onde se descarregar, essa violência voltou-se para dentro: o indivíduo começou a torturar a si mesmo, criando a má consciência, a culpa interior e a moralização da dor”.

Nietzsche estabelece uma ligação direta e visceral entre a má consciência (schlechtes Gewissen) e a ideia de dívida (Schuld), cuja raiz mais arcaica está cimentada no sangue, na punição, no tributo aos ancestrais e vem a se tornar definitiva na dívida com Deus.

A má consciência é essa crueldade voltada para dentro. O “gênio” perverso da moralização — e que atinge seu auge no cristianismo — ocorre quando a má consciência se une à dívida de sangue impagável com Deus.

Nietzsche expande esse mecanismo para a fundação da sociedade e da religião, pois o indivíduo se sente em dívida com a tribo pelas vantagens e proteção que recebe. Quem quebra a lei é um devedor inadimplente e deve ser punido ou expulso. A tribo acredita que só existe graças aos sacrifícios dos seus antepassados. Por isso, deve pagar tributos a eles (sacrifícios, obedecer às regras dos mortos), quanto mais forte a tribo fica, maior parece a dívida com os ancestrais, até que eles viram “Deuses”.

No Cristianismo, essa dívida é levada ao extremo: inventa-se uma dívida impossível de pagar, a culpa infinita do pecado original.

Nesse momento a sociedade sofre o golpe de mestre metafísico do cristianismo, para resolver uma dívida impagável, Deus (o credor) sacrifica a si mesmo(Cristo na Cruz) pelo devedor. Qual é o resultado disso? O homem fica eternamente culpado e endividado com Deus, por um dos atos mais cultuados pela humanidade, cheio do sangue e da carne em tiras, sacramentado e cristalizado. 

O Homem foi eternamente endividado pelo sangue derramado do Deus-homem feito em carne. Ele está praticamente insolvente, tendo sua culpa moral exposta e sua dívida duplicada.

Essa solução aprisiona o homem para sempre: se o próprio Credor derramou seu sangue por amor ao devedor, a dívida torna-se eternamente impagável. A culpa e dívida (Schuld) e a má consciência tornam-se, assim, definitivas e insolúveis na genealogia nietzschiana.

O que então propõe Nietzche como uma visão para o futuro? 

Ao contrário de Freud, o filósofo mantém uma esperança quase ingênua num tempo mais forte onde surja um redentor, alguém dotado de grande amor e desprezo, um espírito criador, com humanidade nova, que consiga a redenção dessa realidade, um anticristo e antiniilista. O derrotador de Deus e do Nada. É no Zaratustra que Nietzsche busca  “o mais futuro, dotado de vontade de potência, o Ubermensch, aquele que poda sem dó a fim de favorecer a expansão plena e cuja dureza aparente é, no fundo, amor construtivo pelos homens”. 

Freud é profundamente realista e não nos dá essa esperança. Em comparação a Freud, o filósofo Nietzsche, famoso por ser considerado um homem inflexível, pode ser visto como um sonhador. 

Na visão de Freud, o homem deve se preparar para a finitude a inevitabilidade do fim, a vida seguirá em frente, “com o nosso inconsciente inacessível a ideia da própria morte”. A guerra não deixará de existir, “os espíritos dos inimigos abatidos não são outra coisa que a expressão de sua má consciência devido à “ dívida de sangue”, pois  aconteça o que acontecer  os pactos continuarão a ser cumpridos e “suportar a vida continua a ser o primeiro dever dos vivos”. 

Segunda parte

Um pouco Shakespeare é necessário. 

E é no  Mercador de Veneza que vemos um exemplo da arte que antecede o filósofo.

A figura de Shylock em O Mercador de Veneza é praticamente uma personificação avant la lettre da tese de Nietzsche sobre a gênese mercantil da pena e o sacrifício de sangue como compensação de dívida.

Quando Nietzsche escreveu na Genealogia da Moral que a forma arcaica de garantia contratual era o direito do credor de cortar do corpo do devedor uma porção de carne proporcional ao valor não pago, ele parecia estar descrevendo literalmente a famosa cláusula estipulada por Shylock contra Antônio: uma libra de carne humana extraída do próprio peito do devedor.

De onde vem essa ideia tão antiga, tão enraizada na humanidade, de que o sangue pode pagar uma dívida financeira?

Em Shakespeare, Shylock expressa exatamente essa transição brutal entre a economia contratual e o afeto da vingança e da crueldade. Ao ser questionado sobre o que faria com uma libra de carne caso Antônio não pagasse — já que carne humana não tem valor comercial no mercado de Rialto —, Shylock responde com a lógica mais crua do ressarcimento subjetivo:

“Servirá para iscar peixes; se não alimentar mais nada, alimentará minha vingança.”

A dor do devedor (o derramamento do sangue de Antônio) funciona exatamente como Nietzsche teorizou: uma compensação prazerosa oferecida ao credor pelo não pagamento da dívida. A crueldade ganha status de moeda de troca legítima respaldada pela lei jurídica da cidade afundada no seu mal estar.

Assim como no alemão Schuld reúne o contrato financeiro (dívida) e a condenação moral (culpa), em Veneza há um jogo perverso de papéis: de um lado, Antônio, o mercador cristão, encarna a nobreza moral superficial, mas trata Shylock com desprezo absoluto (chutando-o, cuspindo em sua vestimenta). Quando entra em dívida, ele assume a posição de devedor impotente.

De outro Shylock, excluído socialmente e empurrado para a usura (a única atividade financeira permitida aos judeus na época), recusa o dinheiro ao final e exige estritamente a lei. O sangue de Antônio é a única quitação aceitável para reparar a dívida monetária e, acima de tudo, as humilhações acumuladas.

A cena do julgamento no Ato IV expõe o conflito entre o Direito Arcaico (a lei estrita do credor que exige o sangue) e a Moral da Compaixão (o cristianismo representado por Pórcia):

Pórcia concede o direito à carne, mas exige que Shylock a retire sem derramar uma só gota de sangue (já que o contrato falava em “carne”, não em sangue).

Ao tentar cobrar a dívida de sangue, Shylock acaba enquadrado por tentar contra a vida de um cidadão de Veneza. Ele passa instantaneamente de credor legal a culpado perante a lei.

A pena imposta a Shylock é a perda dos bens e a obrigação de se converter ao cristianismo.

Neste desfecho, Shakespeare mostra o nascimento da má consciência no plano social: o instinto de revolta e a sede de justiça do credor punitivo são totalmente subjugados, achatados e interiorizados. Shylock sai do tribunal destruído e em silêncio, privado não só de seu capital e de sua fé, mas obrigado a carregar a culpa pelo resto da vida.


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