Lançamento da Revista Escritos no Tempo (2026)

2 de setembro de 2026by Ato Freudiano0
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A escrita do analista e a escola de psicanálise: a experiência no Ato Freudiano

A escrita do sujeito na análise concerne ao que se formula na fala. Assim, não há uma equivalência entre escrita e escrito, embora nos importe delimitar a função do escrito e seu interesse à psicanálise. 

Lacan disse que o analista deve ser ao menos dois: aquele que obtém efeitos e aquele que teoriza sobre eles. Por certo, a gaveta não é o lugar para repousarem esses textos, que advêm do seu percurso e também o sustentam. 

A importância da comissão editorial vai além de recolher tais restos; visa sustentar a escrita em operação na escola, a circulação dos textos, sua retomada pelos autores e todo o caminho que vai da apresentação oral até que eles venham a público de forma permanente. 

É uma tarefa crucial, que lida com uma certa resistência dos analistas em retomar esses escritos, pois esse retorno recupera o mal-estar experimentado ao escrevê-los. No entanto, esse segundo tempo remarca a condição de dejeto da linguagem e permite caminhar nas articulações significantes, vetorizando a formação. 

Trazer um trabalho a público, na apresentação das jornadas, é de suma importância. Na mesma medida, um texto publicado abre uma nova perspectiva. A escuta exige tempo e se faz necessária para a leitura dos significantes, que pode ser favorecida pelo ler, reler e ler de novo esses escritos — o que movimenta o desejo e pode provocar novas elaborações.

Colocar a escrita em operação é fazer revirar a gaveta. Assim, os efeitos disso podem se desdobrar em uma revista que, no tempo lógico que respeita a atemporalidade do inconsciente, inscreve momentos ímpares na história e os passos de uma formação; ou podem levar um membro da escola a resgatar poemas esquecidos — e publicá-los. 

Embora distinta do escrito psicanalítico em que se reinventa a psicanálise, a produção de analistas enquanto escritores ou poetas traz os significantes do seu desejo em uma vertente criadora, definitivamente atravessada pelo estilo de vida. 

O psicanalista não tem uma obra artística. No entanto, se pensarmos em obra como os restos daquilo que se constrói ao longo da vida, os escritos de um analista assumem, na formação, valor e função de obra. Pois constituem registros de seus deslocamentos na práxis, intervindo ainda no coletivo da escola ao causar o desejo de alguns outros e mantendo a incidência do discurso da psicanálise no mundo. 

A ideia desta Revista surgiu em 2023, e ela foi gestada de 2024 a 2025. Foi nesse último ano que o Conselho Editorial se reuniu, quando outros membros se juntaram à comissão existente, para se deter nos textos que haviam sido endereçados à escola e burilá-los junto aos autores. 

Com isso concluído, passamos ao acompanhamento das revisões técnica e linguística, além da diagramação e da arte da capa, na qual o conceito pensado foi justamente trazer uma imagem que ressaltasse o emprego da letra se traduzindo em escrita. 

Passo a palavra aos colegas e em seguida prosseguiremos à leitura da Apresentação da Revista. 

Silvânia Marques Motta

Agosto/2026

Nota para o lançamento da revista do Ato Freudiano “Escritos no Tempo”

Um escrito não é um arranjo qualquer de palavras; sua ausência também não se reduz unicamente a um nada. O extraordinário letramento de Freud o permitiu ler, nas entrelinhas do sofrimento psíquico, a manifestação de uma escrita cifrada, singular e incessantemente experimentada, correlata de uma fratura sexual irrepresentável, impossível de se escrever para todo e qualquer falasser. A apreensão entre significantes cadenciados exige do neurótico a leitura própria de seu assujeitamento doloroso impresso na cicatriz do sintoma que lhe compete, para que as portas de uma autoria lhe sejam abertas.  

Há um saber que não se sabe, cujo acesso está condicionado ao trabalho significante, em intensão ou em extensão, seja pela fala ou pela escrita, resguardadas as diferenças que lhe são inerentes e o alcance do que aí se pode ouvir ou ler. Se por um lado certas manifestações inconscientes são mais propícias ao ato da fala, por outro, a escrita verifica uma condensação cujo processo de formulação acessa, por desvelamento e construção, um saber. Nas palavras de Lacan: “é quando escrevo que descubro certas coisas. (…) O que não quer dizer que, se não escrevesse, não descobriria nada. Mas, enfim, talvez não percebesse”.

Um texto, por definição, implica o tecer, o entrelaçar. Tal fazer com o real próprio demanda tempo. Esse tempo, por sua vez, circunscreve o trabalho de amarração a uma cronicidade específica. Torna-se evidente o que está bem enodado, mas exige a continuidade do ofício a partir das pontas que ainda restam soltas. Da tecitura característica do real do um a um, ao entrelaçamento desses uns amarrados pela causa da psicanálise, o fazer escola alcança uma produção e a promove enquanto testemunho escrito de seus membros através de um objeto de circulação: uma revista.  

Felipe Barreto 

Agosto/2026


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