Abertura da Exposição de Guilherme Melich — Rabiscos — na Galeria Sigmundo

A Escola de Psicanálise e o Artista
Por que uma escola de psicanálise se dispõe a escutar um artista?
Ao longo de sua obra, Sigmund Freud dialogou com fazer artístico. Da tragédia grega, ele toma dimensão estruturante do sujeito, retoma Leonardo da Vinci e sua lembrança de infância. Faz inúmeras referências a Goethe, recorre a Shakespeare e a Dostoievsky, e realiza uma minuciosa leitura da estátua em mármore de Moisés, esculpida por Michelangelo.
Freud sabia ler e esperava, modestamente, que aqueles que seguissem seu ensino, também o fizessem.
Ao analista é solicitado a leitura e a passagem por certos textos e obras. O fazer artístico e seus produtos — as obras — interessam não para fazermos sua crítica, “não para reduzi-las, mas pelo que sua leitura pode nos ensinar, a nós psicanalistas”. (Jean Gui Godin)
Jacques Lacan redimensionou a perspectiva freudiana, ao dar lugar ao campo expandido do fazer artístico. Mergulhou de maneira única nos grandes movimentos artísticos do século XX, não deixando de dialogar com todo uma tradição clássica.
O surrealismo e seu surgimento foi acompanhado de dentro: Breton, Salvador Dali e Tristan Tzara constituíram a “vanguarda intratável” em conexão com uma nova psicanálise que surgia. A ruptura com as belas artes, a revolta contra a beleza faz eco ao real do inconsciente que insiste.
Salvador Dali esteve ao seu lado, como inspirador e amigo ao longo de toda sua vida. Lacan o escutava.
A obra de Marcel Duchamp, o pai da arte conceitual, reverberou em inúmeras articulações teóricas.
James Joyce e Marguerite Duras serviram como indicadores e, acima de tudo, como instrutores sobre o que é um dispositivo artístico, lembrando que: “A única vantagem que um psicanalista tem o direito de tirar de sua posição, sendo-lhe esta reconhecida como tal, é a de lembrar, com Freud, que em sua matéria o artista sempre o precede e, portanto, ele não tem que bancar o psicólogo quando o artista lhe desbravo caminho“. (J. Lacan, “Homenagem a M. Duras”)
Tudo para demarcar que é por concernir ao campo do desejo que o terreno da arte adquire seu efeito e seu relevo. O que deve interessar ao máximo os psicanalistas é da alçada do significante, o que se articula nas pinceladas da pintura, na caligrafia japonesa que tanto impressionou Lacan, e nos “Rabiscos”, retratos do nosso artista convidado, Guilherme Melich.
Para o psicanalista, o que interessa é o dizer do artista em sua obra, que é também a sua voz.
A Galeria Sigmundo é um projeto do Ato Freudiano — Escola de Psicanálise de Juiz de Fora — oferecido a nossa cidade.
“A cidade é, na cena do mundo, o lugar onde podemos avaliar a pregnância dos laços sociais. Fato de estrutura que o psicanalista não deve ignorar”.
Um laço social instituinte de um lugar de trabalho comprometido com a civilização, a Galeria Sigmundo é a moldura por onde um dizer pode ser circunscrito e transmitido a nossa comunidade. É um efeito do cartel que funciona há algum tempo com o tema “Arte e Psicanálise”.
“Em um certo sentido , poder-se-ia sustentar que há uma comunidade de empreendimento entre o que está em jogo em um tratamento psicanalítico e na arte, se é fato que tanto em um quanto em outro , o real deve ser encontrado”. (M.C. Boons)
O Ato Freudiano abre a partir de hoje, a partir deste novo espaço cultural, um diálogo com os artistas de nossa cidade.
Eliane Ribeiro Guerra e Orris Ricardo Canedo de Almeida

