A psicanálise e os impasses na civilização – Ato Freudiano – 2026

9 de março de 2026by Ato Freudiano0
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A psicanálise e os impasses na civilização – Ato Freudiano – 2026

A ordem mundial no século XXI aposta em abolir o Real que determina intimamente o humano. Assim, o mal-estar na civilização é redimensionado e agudizado em seus efeitos, permitindo o retorno triunfal da religião, das políticas segregatórias e das guerras.

Sobre o mal-estar…

O mal-estar foi agudizado, recentemente, em nosso cotidiano, em função dos efeitos das chuvas sobre nosso território. E é a partir dele que tomei assento para escrever esta abertura do Seminário Freudiano, que tem como texto de trabalho “O mal- estar na civilização”. Inicio, portanto, baseada em fatos do real.

Juiz de Fora: 23/02/2026, segunda-feira, desaba uma tempestade noturna e uma tragédia se abala sobre a cidade. Desmoronamentos de casas, de encostas, desabrigados, a morte de alguns moradores! Casas e ruas interditadas, o abismo visto em fotos e vídeos. O terror, o medo, o impensável desabou sobre nós.

27/02/2026, sexta-feira. O mal-estar de andar a pé pelas ruas da cidade, manchadas de lama, enquanto os funcionários da Demlurb tentam limpar as marcas da tempestade da quarta anterior, que alagou diversos bairros. Novos eventos, inúmeros outros desmoronamentos, e mais vidas se somam àquelas que se perderam na segunda-feira. Neste momento, em que início essa escrita, não se sabe ao certo quantas pessoas… quantas famílias perderam sua(s) pessoa(s).

A cidade silenciou, em luto!   Aqueles que sobreviveram, que viram e continuam vivendo este momento, estão transformando em verbo o substantivo. Imediatamente, se puseram a lutar. Primeiramente, a luta mais basal, a mais essencial, a luta pela vida! Salvar vidas! E quando não é possível, dar-lhes dignidade!

 Um grande número de profissionais de segurança, parentes, amigos, cidadãos comuns, por vezes sem relação direta com o fato, rapidamente se puseram a trabalhar e promover condições para aqueles que mais exigiam socorro e atenção. Atenção e ajuda que chega também para quem está no front desta luta: bombeiros, socorristas, policiais, agentes de saúde e assistenciais, além de pessoas da cidade que se voluntariaram. Uma corrente de solidariedade se formou.

No coletivo, um laço se re-fez. Uma força reuniu pessoas desconhecidas entre si, em prol da vida! Eros, nos termos freudianos, fazendo seu trabalho! Eros, para Freud, é pulsão de vida. Faz laço, reúne. Contudo, ele não pensa Eros sem Tânatos. Pulsão de vida e pulsão de morte se mesclam, podendo haver, em momentos específicos, a proeminência de algum deles. 

A pulsão é o que marca distintivamente o ser falante e, por consequência, marca distintivamente o coletivo do qual este participa. Com este embasamento, Freud passa da leitura de uma neurose individual à uma neurose cultural. É a presença da pulsão, suas exigências por satisfação, de um lado, e os refreios impostos pela cultura, de outro, que o faz escrever em 1908, “Moral sexual cultural e nervosismo moderno”, quando anuncia o gérmen do mal-estar.

Em ‘Totem e Tabu’, 1912/13, Freud traz a interdição do incesto como lei primordial à formação dos grupamentos e localiza o pai enquanto função fundamental de transmissão desta lei. No mito por Freud elaborado, o parricídio instaura entre os filhos um laço de irmandade. Se institui uma lei simbólica cuja consequência é que não se tente ocupar o lugar do pai, do pai da exceção, o que gozava de todas as mulheres. A culpa é um elemento fundamental, efeito do assassinato do pai, e tem desdobramentos sobre a própria coletividade, na medida em que retorna, na cultura, sob o mal-estar.

  Em 1920, em “O além do princípio do prazer”, é quando formaliza a pulsão de morte. Retoma a questão do trauma e da repetição, articulando-as a partir de uma necessidade lógica de circunscrever aquilo para o quê faltam palavras. O excesso precisa de tratamento. Como recurso central, o aparelho funciona visando bindung, fazer a ligação, a união entorno deste excedente. Este trabalho, entretanto, deixa um resto. Assim ao verificar a presença de um além do princípio do prazer, Freud revela um aparelho psíquico com uma regulação sofisticada, cuja economia opera pela perda.

Com estes recursos em mãos, em “Psicologia das massas e análise do eu”, 1921, ele evidencia os laços que unem os grupamentos humanos, indicando a questão do ideal e da identificação como central a este laço. Neste trabalho, retoma o outro, que lhe é também o semelhante, como estrangeiro e passível de violência, lembrando-nos, mais ainda, que o ódio é um laço comum capaz de muita mobilização. O líder, cuja presença pode ser basal à manutenção do grupamento, se sustenta numa posição análoga àquela do hipnotizador. Trata-se de algo como no enamoramento, com os efeitos da cegueira e da devoção apaixonada, que faz com que as fronteiras do eu se dissolvam, fazendo “um” com o objeto. A perda da autonomia, da responsabilização e mesmo uma perda intelectual são efeitos das formações de massa. 

Todos estes elementos e muitas outras reflexões que o atravessavam, sobre a religião por exemplo – extensamente considerada em “O futuro de uma ilusão”, 1926 – são o solo sobre o qual Freud escreve, em 1930, “O mal-estar na civilização”. Esta obra, e as formulações nela sustentadas, funciona como um farol para os problemas concernentes à religião, à política e ao social. A partir dela, a leitura e discussões acerca da civilização e dos eventos que nela se presentificam ganham nova perspectiva, quando o social passa a ser pensado não-sem o pulsional. É assim que, depois de atravessar pontos essenciais e paradoxais da obra, Freud traz em seu derradeiro parágrafo o texto seguinte: 

A meu ver, a questão decisiva para a espécie humana é saber se, em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões de agressão e autodestruição. Precisamente quanto a isso, a época de hoje merecerá talvez um interesse especial. Atualmente, os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade e seu medo. Cabe agora esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestiais’, o eterno Eros, empreenda um esforço (Imago: desdobre suas forças) para se afirmar na luta contra o adversário imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace? 

Com estes questionamentos, Freud nos lança ao ponto do impossível. Mas, curiosamente, ele parece querer deixar alguma pista a esta insolúvel previsão, ao reconhecer a imortalidade dos adversários em luta e o jogo de forças nela implicado. Enquanto há vida, haverá o a(d)verso. Freud nos vê consagrados a esta condição.    

É este o ponto a partir do qual ele pode fundamentar a presença e a insistência da agressividade que afeta o sujeito e o coletivo. A leitura dos fenômenos de massa, incluindo a guerra, a partir também das contribuições de seus contemporâneos e outras, ao passar pela lente de Freud, ganha como intrínseco o componente pulsional e os paradoxos por ele trazidos. Ao reconhecer a presença do pulsional, Freud pôde revelar aquilo que da estrutura comparece na cultura. 

  O século XXI volta a nos confrontar radicalmente com a expansão do fascismo e do totalitarismo. Numa via, avançamos em lutas e conquistas relativas aos direitos humanos e das minorias, e na sua contra-mão, assistimos a uma crescente da agressividade, da discriminação e da intolerância, indo a níveis impensáveis. 

Tal violência, em período recente, uma década talvez, mostra-se em crescimento exponencial. As Guerras, além daquelas que não aparecem nas mídias, irrompem sob comando de representantes totalitários: URSS X Ucrânia (há 4 anos), Israel x Palestina (há 2 anos e ‘em conclusão’), EUA/Israel x Irã x Oriente Médio (28/02/2026), e avançam sob o território mundial. 

As declarações para cada um dos conflitos iniciados são justificadas por supostos ideais, como liberdade e democracia, passando por argumentos de autodefesa, até os explícitos objetivos de tomada ou reintegração territorial. Sob as sombras dessas justificativas está o que, verdadeiramente, im-pulsiona a guerra: a guerra de mercados, guerra global a serviço do capital, que se traveste em uma luta por hegemonia.  

Segundo Gérard Wajckman, “a guerra pode parecer irracional, mas ela não é um acidente. A guerra é ineliminável do poder moderno. Enquanto houver política, haverá guerra”. Ele recorre à Marie Hélène Brousse, quando esta afirma que “a guerra não é contra nem a favor da civilização. A guerra é simplesmente a face obscura da civilização”. Para ela, “a guerra voltou sobre nós sua face sombria. A guerra nos olha, importa que a encaremos”. E, sem mais subterfúgios, Brousse escala, ao afirmar que “a guerra não é simplesmente uma face desastrosa da civilização que virá lançar sua sombra feroz, mas que a guerra é a civilização. Sua “barbárie” é a civilização mesma”. Frente a estas conclusões que nos tocam na direção do real por elas comportadas, Brousse provoca os analistas para darem andamento a uma reflexão sobre o real deste tempo, um real que desfigura e reconfigura a época.

Voltemos então a hoje, 3 de março de 2026, há oito dias do desastre que deixou marcas no coletivo, quando iniciamos nossas atividades no Ato Freudiano. Gostaria de iniciar trazendo este desastre à leitura, como proposta para um trabalho de perpassar o texto freudiano de 1930, considerando-o ponto de irrupção do traumático em nossa cidade, que por ser relativo à Pólis, enoda sujeito e coletivo. E neste sentido, portanto, abrir a escola ao recolhimento destes restos. O que já se anuncia na formulação de Felipe Barreto, à propósito do tema do ano de 2026, “A psicanálise e os impasses da civilização”:  

Não são quaisquer impasses civilizatórios.  A busca por ampliação de mercado encontra seus meios na guerra.

A negação dos restos de um processo de séculos de produção nos conduz à desastres que, de natural, não têm nada.

O discurso do capital, ao driblar a impossibilidade, faz com que o real retorne de modo cada vez mais mortal e devastador

Esse desastre, que de natural não tem nada, tira o acaso da esteira das coisas que poderiam fazer escorrer este mundo de terra e pedras, casas inteiras! Vidas! Faz voltarmo-nos, então, ao avesso da psicanálise e aos discursos que perpassam a cultura; à união selada entre discurso capitalista e os préstimos da ciência; à apropriação do saber pelos enunciados científicos; à destituição do lugar do sujeito; à sanha insaciável e destrutiva do capital; ao desmentido da lei, escancarada pela perversidade que veio a público recentemente, em uma rede envolvendo renomados políticos, empresários, artistas e cientistas do mundo. 

Cabe a nós, então, voltar o olhar para a fenda que se abriu em nossa topologia, a geográfica e a ‘psíquica’, e interrogar sobre esse evento como efeito do real, em que o natural, afetado globalmente por uma crise climática, perde sua dimensão mais própria, a de ser cíclica. Da natureza que tem perdido seu natural, retornam “eventos climáticos extremos”. São também outras regras e condições que definem as moradias, ao longo do território. As dimensões da tragédia são inversamente proporcionais ao nível sócio-econômico-cultural dos cidadãos por ela afetados. A desigualdade é fruto do capitalismo, que mantém raízes fortes o suficiente para fazê-la se reproduzir grandemente. O enlace entre poder e capital traz investimentos vultosos em tecnologias e avanços que podem, a depender de seu uso, tornar este próprio sistema um sistema autofágico.  Não é a isto que estamos assistindo, atônitos?! Atômicos?!

Neste contexto, submergindo dos restos deste desastre que atingiu a toda Juiz de Fora e tentando recompor a respiração, frente a escalada da guerra pelo mundo, esta experiência de leitura do “Mal-estar na cultura” será um convite a pensar-nos enquanto civilização, no tempo e espaço por nós habitado, sabendo que qualquer possível elaboração dependerá de um só-depois! 

        Wania de Almeida Barbosa 

                               27/02/2026 – 03/03/2026                                      


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