Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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14 de maio de 2020by Ato Freudiano0

COMUNICADO

A Escola de Psicanálise deve ser:

“Tomada no sentido que nos tempos antigos queria dizer certos lugares de refúgio e até bases de operação contra o que já podia chamar-se de mal-estar da civilização” (Jaques Lacan)

Em tempos de pandemia, não nos restou outra opção senão manter fechada nossa sede e suspender as atividades presenciais.

Entretanto, mantemo-nos abertos ao compromisso, à responsabilidade que o fazer escola exige.

Encontramo-nos em trabalho interno, visando uma produção que possibilite um contorno deste momento desnorteante e sustentando o laço social entre psicanalistas.


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10 de outubro de 2018by Ato Freudiano0

“Alguma coisa está fora da ordem”?  – sobre o mal-estar na cultura

                                        Wania de Almeida Barbosa –  2016

Atualmente os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade, seu medo. Cabe agora esperar que a outra das duas “potências celestiais”, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace? (Freud, O mal-estar na civilização)

A questão da felicidade orienta Freud em sua pergunta sobre o mal-estar na cultura e sua resposta refere-se à constituição do sujeito, à impossibilidade de satisfazer o princípio do prazer, tendo em vista a questão pulsional, que por um lado revela ser parcial a satisfação e, por  outro, aponta o mais-além aí implicado. Se se insiste na busca da felicidade, ela, enquanto ideal, torna-se muitas vezes campo de angústia, e pra que algo relativo a ela seja experimentado é necessário um saber-fazer com o impossível que lhe concerne. Assim, desde 1920, Freud convoca  cada um a descobrir sua maneira de se salvar e revela que os objetos e avanços tecnológicos operam como substitutos, como próteses frente às perdas que são efeitos do progresso promovido pela cultura.

Desde então muitas coisas mudaram, mas permanece o que é da estrutura. Levando isso em conta, o discurso capitalista associa-se à ciência e, atendendo a uma demanda estrutural, lança os produtos por ela produzidos como passíveis de obturar a falta constitutiva do falante. Mas, se o capitalismo reconhece essa falta como motor que o retroalimenta, desconhece que é impossível obturá-la, pois ela é relativa, em termos  individuais, à perda do objeto quando da fundação do sujeito; e, em termos coletivos, à renúncia pulsional exigida para manutenção do laço social. Assim, ao passo que  se acirra cada vez mais a oferta de felicidades adquiridas por vias as mais diversas, vemos um sujeito cada vez mais engolfado por uma pergunta que não se faz, uma pergunta sobre seu desejo…

A ciência, em seu surgimento, separa sujeito e objeto, separa sujeito e saber e, nesse ato, lança objeto e o saber como algo a ser recuperado. Algo em busca do que esse sujeito se envereda, mas buscando-o sempre fora, sempre no Outro. Ao não se reconhecer constítuido por eles – saber e objeto – mesmo que alhures, o sujeito não reconhece a divisão que o constitui, nem se implica nela. Se desresponsabiza sobre o que lhe diz respeito e sobre seu modo de estar no mundo. Segundo Brigitte Lemérer, a ciência produz um real que invade nossa vida cotidiana com uma inumerável e múltipla quantidade de objetos e regulações, e transforma os sujeitos em não mais que um simples número. Trata-se, entretanto, de um real que é estranho ao sujeito, que lhe suscita angústia, mas não lhe permite saber “o que ele é como vivo e como falante”. Assim, o mal-estar, que não é passível de ser contornado pela palavra, revigora-se de forma insidiosa.

Freud evidencia em seus textos (Malestar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Eu) que a vida em sociedade faz com que o homem troque um tanto de felicidade por um tanto de segurança, que ele abdique da liberdade individual em proveito da justiça. E, após o estabelecimento desses novos critérios, faz deles novas bandeiras de reivindicações. Constata-se isso, por exemplo, na luta que se trava, há séculos, por  igualdade e por justiça. E, se muitas conquistas se alcançaram quanto ao direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, entre outros, esses avanços convivem e, possivelmente, sempre conviverão, como um rechaço a eles. Parece não ser em vão que os movimentos se nomeiem “luta”, pois reconhecem a exigência de trabalho continuo para a manutenção do que pretendem garantir.

Igualdade e diferença são elementos fundamentais em torno dos quais se mobilizam os grupamentos humanos. Freud mostra-nos, em Psicologia das Massas, como o amor e ódio se colocam como o laço de sustentação dos grupos, seja interna ou externamente, nas relações de cooperação ou rivalidade que estabelecem entre si. Trata-se do que ele chama narcisismo das pequenas diferenças, como fato relativo àquilo que permite que os membros de um grupo se identifiquem entre si e reconheçam o diverso, o diferente como passível de exclusão, quando não, de eliminação. A partir dessa formulação, pode-se ler diversas querelas e até mesmo guerras de grandes proporções que ocorreram ao longo da história.

Se nos detivermos na questão dos grupamentos humanos, especialmente, a dos grupos liderados, a identificação é o eixo fundamental para a sua coesão e seu funcionamento. Trata-se, nessa formulação, de que o eu de cada membro introjete o ideal do eu do líder. Sendo assim, um traço comum e ideal é o que é constitutivo do grupo. Não podemos deixar de considerar que, nesse texto, Freud mostra-nos não só a psicologia das massas, mas a análise do eu, de sua fundação à sua constituição, a referência ao outro e o lugar da identificação, bem como os efeitos desta. Dessa forma, revela o lugar do ideal do eu para o sujeito e sua origem no supereu, como resto da operação do Édipo, ou seja,  como devedor da função paterna. O ideal do eu tem uma função essencial ao estar referida à questão do desejo, por um lado, e da lei, por outro, colocando-se para o sujeito, talvez, como vetor na sua relação com o desejo e o gozo.

Diante do lugar fundamental do ideal do eu para o sujeito, e consequentemente, na cultura, como pensá-lo em tempos em que a função da qual deriva, a função paterna, parece opaca, se não esmorecida? Lebrun, no livro Um mundo sem limites, destaca os efeitos da passagem de uma organização social marcada pela religião para uma organização social marcada pela ciência. Sua articulação evidencia, ao longo de todo o livro, o lugar que é dado ao pai nessa passagem e como a função paterna, a partir da entrada do discurso da ciência, é deslocada ou mesmo invalidada, o que tem efeitos sobre a questão simbólica.

É o pai ou que seria sua função que intervém, instaurando interditos necessários à constituição do campo do desejo, fazendo contraponto ao gozo presente na relação complementar e imaginária entre mãe e filho.  Lebrun reafirma a importância do pai para introdução e validação do simbólico, na medida em que este introduz a dimensão de uma alteridade radical, quando de sua entrada no Édipo. A intervenção paterna, portanto, faz prevalecer a ordem simbólica, cujas premissas já estavam colocadas, mas vêm estabelecer-se definitivamente.

Revela-se, assim, a importância de situar o pai e seu lugar para se pensar as questões que nos circundam e a dimensão social em que estamos imersos, pois a efetividade ou não de sua função permitirá uma leitura da consideração que se tem pela lei, sua validade e as formas de aboli-la. Lembrando que a lei do incesto traz em si uma interdição a um gozo mortífero e, ao introduzir, a dimensão da castração, lança o sujeito ao campo do desejo, talvez se tenha chance de avaliar o que excede de gozo no campo social, inclusive na política, a cada vez que a dimensão do desejo é sempre mais desconsiderada.

E, diante do que se nos apresenta hoje – Trump, Al-Qaeda, Brexit, Mariana, 22 mil neonazistas declarados na Alemanha, Paris, Bolsonaro – da letra de Caetano, faz-se pergunta: “alguma coisa está fora da ordem”?, “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”? Retrocesso? Um movimento cíclico no qual aos avancos e conquistas sobrevêm ameaças e conservadorismo? Parece que está tudo dentro da nova ordem mundial! A ordem definida e mantida pelo discurso capitalista, de mãos dadas com sua parceira, a ciência, e cujo casamento tem formado uma geração da qual Black Mirror é mesmo um espelho, no qual não se reflete nada além de angústia e mal-estar.

Mas, quando se pensa em avanços e retrocessos, quando se pensa em movimento cíclico faz-se necessário retomar, a partir da perspectiva da psicanálise, a questão dos ideais, afinal é em torno deles que a sociedade se organiza e encaminha suas demandas. Freud afirma no texto O Recalque, revelando um elemento estrutural, que “os objetos favoritos dos homens, seus ideais, provém das mesma percepções e vivências que os mais execrados por eles, e que originalmente eles se diferenciem uns dos outros apenas por mudanças míninas”. O que nas palavras de Eduardo Vidal e Paulo Becker pode-se ler assim: “cada ideal que se oferece para a alienação corresponde a seu avesso obsceno”. Retomando a questão do parrícidio, como fundador da cultura, esses autores consideram que “por trás do ideal, continua vigente o canibalismo do crime primordial”.

Portanto, diante disso que é do sujeito e do que é, também, matéria que permeia a cultura, o texto  O ideal, o ao-bjeto e o real traz elementos necessários pra se pensar o que resta  da constituição do sujeito e da cultura, e que, ao retornar, pode trazer espanto e horror. Segundo Vidal e Becker, os sacrifícios mortificantes sempre exigidos para a integração à sociedade, deixa

o sadomasoquismo como marca indelével da inscrição na cultura, é sua base pulsional constitutiva, está na raiz do que é propriamente humano. E é no ponto de falha inerente à lei simbólica, no ponto de ruptura eventual da lei simbólica que surge como aparição o “ao-bejto”.

O ao-bjeto deriva da incorporação de um traço do pai, a partir do parricídio. Nesse sentido, comporta o objeto introjetado, o pai, mas, também, o ato abjeto que lhe originou. Da citação dos autores acima, poderíamos dizer que quando a função simbólica, introduzida pelo pai, falha, é a dimensão do gozo que mostra sua face de horror, trazendo a campo o ao-bjeto? Ou de outra forma: se há uma falha na função paterna, com efeitos sobre a inscrição ou validação do simbólico, não se abre o campo para um retorno pregnante do abjeto? Banalização da vida, terrorismo, corrupção, misoginia, refugiados – são alguns dos nomes do horror que nos acerca, atualmente.

Poderíamos ler, também, na política essa dimensão do ao-bejto? No caso brasileiro, um fato que chama a atenção na atitude dos políticos é desconsideração pela lei, pela coisa pública, e por aqueles que representam. Se se retoma o ato originário, parecem querer colocar-se no lugar do pai morto, daquele que goza de todos. Parecem não reconhecer a lei que se estabelece a partir dessa morte, e que, no máximo, os permitiria estar como representantes, mas não no lugar dele. Retomando a questão do ao-bjeto, dois elementos devem ser destacados quando se pensa nos descaminhos da política no Brasil: o primeiro é relativo ao traço; o segundo, referido à própria constituição do sistema político. Por um lado tem-se como traço do povo brasileiro algo relativo a um crime, por ter sido constituído, em suas origens, por degredados de Portugal. Por outro, verifica-se, mediante as coligações partidárias exigidas para ascender ao poder, um embotamento ou mesmo uma perda dos ideias, sejam eles quais forem. Quando esses dois elementos se conjugam, o que resta senão apenas o abjeto?!

Para se pensar outras questões relativas à política, um elemento importante a ser considerado é a problemática do serviço dos bens, tal como Lacan propõe. Nesse sentido, considera-se que “o âmbito do bem é o nascimento do poder”, pois é em torno de um bem, um bem coletivo que se estabelecem as ideologias partidárias ou políticas como um todo. Lacan, a partir do Seminário 7 e do texto Kant com Sade, articulando a questão do bem, contrapõe moral e ética. A questão da moral, geralmente sustentada pela ideia de assegurar um bem, se opõem enquanto impeditiva ao campo da ética, na medida em que “a dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo” (sem 7, p. 280). Segundo Lacan:

        uma parte do mundo orientou-se resolutamente no servico dos bens, rejeitando tudo o que concerne a relação do homem com o desejo – continuemos trabalhando e, quanto ao desejo, vocês podem ficar esperando sentados […| ao formular as coisas desse modo, só fazem perpetuar a tradição eterna do poder. ….(pode-se supor que) o campo dos bens, no serviço dos quais temos que nos colocar, possa num certo momento englobar todo o universo. (Sem, 7, p. 381)

Confirmando a previsão de Lacan, a lógica dos bens, compartilhada e desejada por todos, assumiu uma proporção tão globalizante e desmedida que tem dado ao capital, enquanto tal, a função de governar. É o que afirma Boaventura de Souza Santos: “neste momento, estamos em uma fase do neoliberalismo, que o neoliberalismo não confia mais nos políticos de direita. Ela quer empresários, quer os seus a governar”.  E esse pode ser um dos elementos que justifica alguns resultados recentes, como a eleição de Dória, para prefeito de São Paulo, e de Trump para presidente dos EUA, que confirmando o lugar do capital, convocou alguns bilionários para compor seu governo.

Nesse contexto, deve-se, ainda, considerar as diversas propostas políticas que surgem ou ressurgem nesse momento no mundo, quando avançam as possibilidades de governos de extrema direita. Parecem pretender restaurar um estado anterior, mas nem por isso deixam de se orientar pela lógica do serviço dos bens. É isso, por exemplo, o que ecoa no Brasil com a pretensão de reinstaurar “ordem e progresso”. O cunho saneador, conservador e, na maioria das vezes, moralista dessas propostas revela o ressurgimento de ideais muitas vezes assustadores que, no caso brasileiro, se exprimem, em seu extremo, num pedido de retorno dos militares ao poder. E isso tudo a mote de uma retomada do crescimento econômico e de uma luta contra a corrupção!

A relação da política com a perversão parece poder ser antevista quando se situa o perverso como aquele que quer fazer crer a existência do Outro, aquele cuja relação com a lei é de desmenti-la. Isso fica escancarando no atual momento político pelo qual passamos no Brasil, quando os mais diversos representantes do povo chegam mesmo a perverter aquilo é relativo ao serviço dos bens. Os políticos brasileiros, em sua maioria, governam em causa própria, visando não “um bem” mas seu bem, ou mais explicitamente, seus bens. Congresso e Senado brasileiros, de forma ardilosa, sustentam suas falcatruas e se protegem um ao outro, projetando seus membros para fora das possibilidades da lei. Estamos num campo onde a lei é desmentida e chegamos, talvez, a um ponto que revela um outro posicionamento frente a lei, no qual ela é recusada. Essa recusa dá-se a ver, por exemplo, no caso do projeto anti-corrupção, que corre o risco de ser escrito parcialmente, ou nem ser escrito…. E, como já alertou Lacan, os efeitos do que não se inscreve no simbólico, retorna desde o real!

Diante do cenário esboçado aqui, sob um certa perspectiva, concluo com a abordagem que Brigitte Lémerer traz em seu texto, L’encobriment du real. A partir do que Lacan propõe no Seminário 8, ela faz referência ao que retorna à sociedade, a cada tempo, como sua père-version, a versão do pai. De certa forma, refere-se à maneira como a neurose é acolhida, a cada tempo da cultura, e é trabalhada a partir do laço social, no sentido de uma possível sublimação. Teríamos como efeito dessa sublimação o amor cortês, na sociedade medieval, e a homossexualidade, em Atenas. Cabe, aqui, uma pergunta: diante do lugar do pai na sociedade atual, ou do que parece comparecer como uma falha em sua função, o que poderia se propor como père-version em nossa sociedade? Se nessa formulação de Lacan algo de uma sublimação é produzida a partir do laço social, qual a chance de que algo dessa ordem se produza na tentativa de um contorno ao mal-estar contemporâneo, numa sociedade na qual o discurso que prevalece não faz laço?

E se a poesia tem como possibilidade contornar algo do real, termino com Caetano, que mesmo quando diz que algo esta fora do ordem, não deixa escapar a dimensão do feminino e traz do impossível o efeito que interessa:

Eu não espero pelo dia

Em que todos

Os homens concordem

Apenas sei de diversas

Harmonias bonitas

Possíveis sem juízo final…


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6 de setembro de 2018by Ato Freudiano0

          Um certo júbilo

                                                                                                        Clara Jaeger

 

Chegamos hoje, no percurso do Ato Freudiano, aos 25 anos de história. A primeira coisa que me veio à mente foi que estávamos vivendo o Jubileu da Escola, e então fui me debruçar sobre como seria essa espécie de contagem da passagem do tempo.  A respeito do Jubileu:

O jubileu é uma solenidade da Igreja Católica, hoje realizada a cada 25 anos. Por motivos especiais o papa pode comemorar jubileus extraordinários.

A origem do jubileu é bíblica, como é possível verificar em Levítico 25:1-17. O ano do júbilo se abre com o toque da trombeta, chamada em hebraico “jobel”, daí o nome jubileu.  Previa a prática da libertação do escravo e a devolução das propriedades. O ano do júbilo, onde não semearão. Será um ano sagrado e que comerão o que o campo produzir.”

Ainda:

“O tempo de Jubileu, seria um tempo de paz e reconciliação, um tempo de festa e perdão. Um tempo de Graça Divina. Um ano santo.”

“Jubileu é o quinquagésimo aniversário de casamento, do exercício de uma função (jubileu sacerdotal, jubileu de magistério etc.) de uma instituição, de um estabelecimento comercial ou industrial.”

“Jubileu é um aniversário solene, é também um grande espaço de tempo. Os jubileus mais comemorados são o jubileu de prata, referente aos 25 anos e o jubileu de ouro referente aos 50 anos.”

A partir do conceito de Jubileu, e para além dele, depreende-se então “júbilo”:

Alegria excessiva; grande sensação de felicidade: a igreja está em júbilo. Em que há grande satisfação ou contentamento; jubilação: estado de júbilo.”

Talvez algo desse substantivo possa se aplicar ao momento comemorativo que atravessamos este ano. Por isso um certo júbilo, tendo em vista que a satisfação está presente, porém desbastada pelo trabalho que enxuga o excesso, promove uma perda gozo e nos relança ao fazer Escola constantemente. Junto dos 25 anos do Ato Freudiano, estamos ainda no que seria o ano jubilar também da Proposição de 9 de Outubro, que fez 50 anos. Esta dupla comemoração se baseia na importância do que nos inspira enquanto baliza para o avanço e manutenção da psicanálise no mundo.

Um outro ponto que surge das correspondências de Jubileu é a ideia de colheita. Podemos pensar que de fato existe algo que se recolhe em uma data onde fazemos um intervalo para pensar no quanto pudemos caminhar até aqui. O próprio conceito de intervalo e a contagem do tempo nos é muito caro. Roberto Pompeu de Toledo  brinca em seu poema sobra a contabilização do ano, que

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.” 

Parece que esse corte em fatias nos proporciona um contorno possível do tempo. De fato a ideia de uma temporalidade  nos faz nos deter em recortes de história para que possamos revisitar e relançar questões pertinentes ao nosso trabalho. Aos 25 anos de trajetória, verificamos a importância deste espaço de Escola, cada vez mais, como espaço vivo de formação. Um lugar que permite que se sustente algo subversivo diante do que temos estruturalmente no mundo como as paixões do ser, possibilitando que algo de um frescor possa se colocar junto ao trabalho com os pares, a partir do laço social. Sem que se caia no acomodamento de “uma casa de repouso para aposentados”, como nos alerta Lacan, mas através do exercício de abertura e desalojamento permanentes. Que leva em consideração os tropeços e os embaraços, e insiste. Nesse sentido, temos muito o que comemorar, na ratificação de um desejo que persevera, que põe a trabalhar e que faz prevalecer a ética da psicanálise. Nesse ano no seminário a Política da Psicanálise, [que junto com as Práticas da Letra, e ainda, a Oficina de Cinema, nos parece ir na direção de um afinamento necessário ao avanço do nosso percurso] pudemos trabalhar recentemente a gênese do que veio a ser num outro tempo, a Escola. Quando Freud propõe de alguma maneira um coletivo de analistas que se arrisque a falar em nome próprio, apesar da aversão de sustentar a palavra no coletivo, ele inaugura a possibilidade desse espaço de formação. Poder estar aqui hoje, é algo que só foi possível por isso. Poder contar com um lugar que acolhe sem colo, sem cola, tem um calor que pinica, pois convoca a avançar. Avanço que é marcado por alguns passos. Como aponta Wânia Barbosa, “a marca do passo dado, pressupõe os anteriores e indica, possivelmente, os próximos”. Que possamos seguir então com menos ingenuidade, mais atentos ao funcionamento já que não há garantias com relação aos possíveis desvios, porém com um certo júbilo e algum entusiasmo. De acordo com Maria do Carmo Motta Salles, “desejo e entusiasmo não são, portanto, naturais, mas efeitos  de um reviramento na estrutura, que impõe um despertar e um recomeço a cada nova experiência clínica que, ao convocar o desejo do analita, rompe com a força do hábito. Assim, é possível algo rebrilhar enquanto causa, e fazer com que uma nova escrita do Real possa se constituir a partir da subversão do tempo empreendida pela experiência analítica, que força a estrutura a se localizar entre uma anterioridade que se apaga e um ‘ainda não’ que se coloca.”

Nos 25 anos então dessa Escola, que possamos dizer com coragem, e com  um certo júbilo, vivo o Ato Freudiano!


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

A práxis psicanalítica*

Silvânia Marques Motta**

RESUMO: A obra de Arte remete ao trabalho da verdade, ao contorno dado pelo artista àquilo a que se reduz o sujeito suposto saber. Já o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato – objeto a – onde o meio de produção da verdade é o discurso analítico e o semblant é o faz-de-conta que implica o saber-se dejeto. A renovação constante do desejo do analista viabiliza a permanência da psicanálise na cultura, que tem a ver com a sustentação do seu discurso no mundo.

 

PALAVRAS-CHAVE: ARTE; VERDADE; PRODUÇÃO; PSICANÁLISE.

Lacan, no seminário Mais, ainda (1973), diz que há saber no Outro, a ser tomado. O ICS é-feito de linguagem: é o que chega ao Sujeito do campo do Outro como determinação, relação de dependência. É nos efeitos de linguagem que a verdade se semidiz. Diante da castração, fato de estrutura, o saber-fazer aí exige um atravessamento.

O saber produz objeto a. Na psicanálise, a produção do saber como saber é um meio de produção da verdade, em que o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato: “é o próprio psicanalista que encarna, que encarna essa produção”.  Tem a ver com o agir do analista, dimensão do ato. Assim, o semblant é o faz-de-conta implicado no saber-se dejeto. E o meio de produção da verdade é o discurso analítico. O analista se vale do engano estrutural, que é o sujeito suposto saber, joga com o que devolve ao paciente, a falta. O que pensar quanto à sua presença real e a suspensão de sentido na análise?

A práxis de um analista tem um alcance muito além de uma prática clínica. Implica intensão, extensão e se funda sobre uma ética. Sua política é ligada à ética do desejo, não assimilável a qualquer barganha, emprego comum da política.  A prudência do analista requer um certo disfarce, ser discreto, ficar em silêncio.

Em contraposição à práxis, a poiesis – criação poética – se refere a um meio de trabalho da verdade, à capacidade de produzir na qual, segundo Aristóteles, algo é produzido por alguém.  Em que medida o produto é, então, distinto do produtor? Evoca uma questão a respeito do dentro-fora.

Lacan referiu-se à sublimação como “…própria daquele que sabe contornar aquilo a que se reduz o sujeito suposto saber”. Fazer borda remete ao trabalho da pulsão, a pulsão contorna a. Contorna remete a turn, volta, borda em torno da qual se dá a volta, e a trick, volta de uma escamoteação, um truque.

A sublimação, um dos seus destinos, envolve uma relação com a pulsão de afinação à causa de desejo, na medida em que o artista se guia pelo não-saber.  A elevação do objeto à dignidade de Coisa suscita a causa, mas essa sempre relançada, adiada, contudo, enquanto operação radical de subtração, de ratificação da perda.

Poderíamos pensar a psicanálise como a experiência que implica em uma solução, no viés de um circuito pulsional mais “curto”, enxuto pelo desprendimento do gozo paralisante, uma ação menos submetida ao Outro, visto a liberação de pontos de fixação, a partir de um saber sobre o Édipo.

O que temos diante de nós, em análise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu tipo próprio de satisfação. Se nós nos metemos com isto, é na medida em que pensamos que há outras vias, mais curtas por exemplo…se nos referimos à pulsão, é na medida em que é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser retificado.

Lacan disse que “toda criação artística situa-se nessa demarcação do que resta de irredutível no saber, como distinto do gozo”. A obra de arte viabiliza a suspensão de sentido, a partir da demarcação da falha no saber, onde vem se alojar a invenção. Segundo o artista plástico Cildo Meireles, o ápice da obra é atingido no limite entre ficção e realidade. Assim, antes que seja feito qualquer juízo, algo do Real pode ser tocado, a partir da subversão de espaço e tempo.

O documentário Cildo (2009) ressalta a obra de Cildo Meireles e, nas falas do artista, elementos precisos do que a arte pode ensinar, a nós analistas.

Marcado por duas experiências, a passagem de um andarilho pela cidade, na infância, e a chegada do homem à lua, Cildo toma como referências o astronauta Michael Collins e o andarilho. Esse último, deixara entre os restos do acampamento de uma noite, um artesanato confeccionado na madrugada. O astronauta fora o único ser humano orbitando entre terra e lua, nem lá nem cá, no momento em que as atenções da humanidade se voltavam para os astronautas que pisavam a lua. Cildo identifica-se com o astronauta como o terceiro, solitário. E talvez com a posição daquele garantido apenas no próprio desejo, sem busca de reconhecimento, e que destina um legado ao Outro.

Cildo fala da pretensão do seu trabalho como um seqüestro que retira o espectador daquele lugar e momento, “mesmo que por um átimo de segundo”. Fala das artes plásticas como uma linguagem não limitada em sua estruturação, de fronteira vaga, que não se sabe onde ela começa ou termina, o que justifica que não dependa do tempo para estabelecer uma relação com um objeto. Ela existe de forma que o espectador se depara, tem uma “relação física” e, “a partir daí o trabalho tem que capturar esse incerto”.

A memória é, para ele, o melhor lugar para uma obra de arte, por lidar com a possibilidade material da prova temporal. Ela é catalisadora, tem a função de deflagração, papel proeminente na obra de Cildo, que vem da memória oblíqua da infância. Parece implicar um trabalho de escrita do artista da própria trajetória.

O trabalho da verdade não visa a produção de um saber como verdade. O artista faz da obra sua destinação significante ao campo do Outro, vinculada ao fazer-se reconhecer como desejante.

Outro ponto de relevo é quando evoca o significante lejos, demarcando o limiar de sua obra a partir da introdução dessa “coisa exterior ao seu mundo, seu real”. A exterioridade nos remete à questão da ex-sistência.

Os seminários borromeanos de Lacan colocam o Imaginário na mesma gradação, junto a Real e Simbólico. O mínimo de três é o fato de consistência entre os registros, necessário à sua nodulação, em torno do buraco. A partir disso, não se pode pensar em tratar o Real apenas pelo Simbólico e o Imaginário como o que faria obstáculo na cura. O Real indica a ex-sistência no nó, ponto de exclusão no sentidoum fora que não é um não-dentro. O nó borromeano é a escritura do que opera numa cura, suas consistências de buraco onde o corte faz nó, visando a redução do sentido. A suspensão de sentido, a partir da análise, é algo como escreveu F. Samson: “a interpretação deve ter o gozo como alvo e, portanto, se situar na fronteira do real e do simbólico, aí onde a letra fixa o referido gozo”. Nessa via, temos a proposição: a interpretação é o seu efeito. Ela isola, no sujeito, um coração de non-sense. A partir da escuta da enunciação.

“A interpretação é uma significação que não é não importa qual…ela “reverte a relação que faz com que o significante tenha por efeito, na linguagem, o significado. Ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível…” que para o advento do sujeito o “essencial é que ele veja, para além dessa significação, a qual significante – não-senso, irredutível, traumático –ele está, como sujeito, assujeitado” .

O corte da psicanálise em relação à psicologia do ego diz da identificação ao objeto a separador, veiculado pelo discurso analítico. O objeto a causa o fechamento inconsciente, que comporta a transferência. A função desejo do analista é o suporte da práxis e implica manejar a transferência, para sustentar a abertura ao saber inconsciente.  O suporte da transferência é o sujeito suposto saber. Ao mesmo tempo que em alguns momentos um fechamento é necessário, tornando a análise suportável para o Sujeito, a transferência é atualização desejante, na qual o desejo do paciente se enlaça ao desejo do analista.

“Sustento que é o nível da análise… que se deve revelar o que é desse ponto nodal pelo qual a pulsação do inconsciente está ligada à realidade sexual. Este ponto nodal se chama desejo…A função do desejo é resíduo último do efeito do significante no sujeito”

Qual a especificidade da psicanálise face às práticas da letra? Sustentar o discurso analítico.

Sendo assim, um não-analista pode ter feito um passe? Não, se no sentido conceitual, em psicanálise, no passe é escutado algo da passagem ao desejo do analista. Quem terminou sua análise ou fez uma obra pode ter feito sim uma passagem pelo discurso do analista, e na vida daquele Sujeito o Real vai estar incluído naquilo que ele produz, e até transmite, mas sem que para isso tenha escolhido sustentá-lo. Fazer-se representante desse discurso no mundo, isso inclui ocupar o lugar de analista.

A Escola só garante a relação do analista com a formação. Submeter-se à experiência da psicanálise, em intensão e extensão, não garante o tornar-se analista. Isso supõe uma decisão, escolha radical, necessária a um atravessamento.

O sujeito que escolheu não dar esse passo, pode dar sua contribuição à psicanálise, ou ter uma afinação discursiva, mas ele não vai além de um certo limite. Não se coloca nesse ponto de Real. A.E são letras, indicam a escritura a partir da qual é possível produzir teoricamente sobre o passe, que é o que interessa à psicanálise, visto que a renovação constante do desejo do analista viabiliza sua permanência na cultura, que tem a ver com a sustentação do discurso da psicanálise no mundo.

O Sujeito escolheu não ir além desse limite do horror ao saber. O que implica considerar a posição de cada um, pois o contrário seria supor que o desejo do analista produz-se como mágica, ideia falsa, ligada aos significantes aparecimento e surgimento.

 

BIBLIOGRAFIA

LACAN, Jacques. (1964). O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008.

______. (1968-69). O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2008.

______. (1973). O Seminário: Livro 20: mais, ainda. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MEIRELES, Cildo. Série Retratos contemporâneos da arte. Direção: Gustavo Rosa de Moura. Roteiro: Gustavo Moura e Sergio Mekler. Fotografia: Alberto Bellezia. Produção: Ana Murgel e Mariana Ferraz. Brasil: MATIZAR Filmes, 2009. Documentário. 1 DVD (78 min.).

SAMSON, Françoise. A Interpretação. Texto de orientação ao Colóquio 2013: O quê é uma psicanálise? Tradução de Silvia Myssior para o Aleph Escola de Psicanálise. Circulação Interna.

* Trabalho apresentado durante a X Jornada de Cartéis do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora, 2012

**Psicanalista, membro do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora

LACAN. O Seminário: Livro 20: mais, ainda

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 337

Idem, p. 341

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 164

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 341

Cildo Meireles, In: Documentário: Cildo, de Gustavo Rosa de Moura

SAMSON. A  interpretação. p. 4.

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 242.

Idem, p.243.

Idem, p. 152.