Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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10 de junho de 2019by Ato Freudiano0

Não-todos, não tão tolos, nem tão poucos 

Felipe Barreto Nery Coutinho

O que funciona é o mundo. O real é o que não funciona

Conviveremos, sempre, com a ameaça totalitária. Essa é a máxima que a experiência analítica e os escritos, de Freud à Lacan, nos oferecem. Do mito de Narciso, ao Welfare State, isso está pelos quatro cantos, mas também no meio, como a história do movimento psicanalítico deflagra sobre o empuxo a standardilização que se fez entrar em determinadas sociedades psicanalíticas e permeia, sobretudo, o discurso da ciência de mãos dadas com o do capital. Mas vislumbrar a unidade não resta sem efeito, sem angústia, pela simples razão de não haver uma “fórmula do que não funciona”, ou seja, ao contrário do que o otimismo governamental professa, a saúde mental não existe. O sintoma do falasser não é passível de qualquer generalização, ele insiste segundo a singularidade que o caracteriza. “Se há noção de real, ela é extremamente complexa, e, a esse título, é não apreensível de uma forma que faria um todo. Seria uma noção incrivelmente antecipatória pensar que haja um todo real”.

Se, como nos lembra Lacan,“a psicanálise não surgiu num momento histórico qualquer” e, sim, “(…) correlativamente a um passo capital, a um certo avanço do discurso da ciência”, esse avanço está condicionado ao fato de que “nenhuma experiência de analista” possa “pretender se apoiar sobre gente suficiente para generalizar”. Mas, existe aí uma exceção. Há, na natureza do ser falante, exatamente por não se tratar aí do natural, um pressuposto universal: todos doentes.

“É justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saudável. A questão é antes saber por que um homem dito normal não percebe que a fala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a fala é a forma de câncer pela qual o ser humano é afligido.”

A fala que parasita imputa ao falante o sintoma e o gozo. É o fim da harmonia do natural. Como eventualmente lembrado por Orris na condução do seminário de leitura sobre o Sinthome, e que encontramos nas palavras de Lacan logo no início de seu seminário XXII, R.S.I., “há algo que faz com que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental”. Em que medida essa debilidade se apresenta nas diversas roupagens que pretendem o tamponamento de três furos específicos que se apresentam ao falasser? Como delinear diante de tal movimento a posição e o fazer do analista, a leitura do sintoma e a formação em Escola?

Está na posição de Freud, ao resolver escutar as mulheres “demonizadas” de sua época, supor seu não-todo saber e se fazer ouvido diante do sofrimento psíquico que no corpo feminino se fazia sintoma. Com isso, simultaneamente, ele recusa, além da sugestão hipnótica de Charcot, a posição fálica, a Suficiência, perversa, com a qual o campo médico avançava no final do século XIX. É, assim, desde o seu início, condição para a existência da psicanálise e, então, para a formação dos analistas, que estes se percebam um tanto furados, não-todos.

A partir de 1971, Lacan parece adentrar cada vez mais ao pensamento lógico de forma a expor ainda mais o impasse sexual quando do encontro com o outro sexo. Ele faz da função fálica aquilo que lhe permitirá, mais adiante, diferenciar dois gozos, o masculino e o feminino. Com isso, ele formaliza a diferença entre os sexos longe de tomá-la enquanto dado puramente natural.

O que significa manter no discurso analítico esse mito residual chamado mito do Édipo, Deus sabe por que, que é, na verdade, o de Totem e tabu, onde se inscreve o mito, inteiramente inventado por Freud, do pai primevo, como aquele que goza de todas as mulheres? É isso que devemos interrogar a partir de um pouco mais longe, da lógica, do escrito.

O que se lê através do mito de todas as mulheres, é que “todas as mulheres” não existe, não há aí um universal. A função fálica torna insustentável a bipolaridade entre os sexos. No que se refere ao falo, não se trata da falta do significante, mas de um obstáculo feito a uma relação. Não é demais lembrar que na matemática e na lógica o termo função designa a relação entre elementos que pertences a duas séries disjuntas. Assim, me parece que Lacan liga e diferencia dois elementos segundo a função fálica, que não são propriamente os dois sexos e, sim, o falasser e o gozo.

A tentativa de Lacan em fazer uma escrita da não-relação sexual alcança em 1973, no seu seminário 20, “Mais, ainda” as fórmulas da sexuação. Além de encontrarmos ali o impossível da relação sexual, temos também articulado que a relação ao sexo imputa fazer operar a castração. Do lado esquerdo, na lógica masculina, temos o universal e a exceção, isto é, não existe um x que não tenha que se haver com a função fálica, inclusive com o que esta implica de ser castrado, ao passo que se preserva o mito do pai totêmico, onde ao menos um não se submeteria a tal função. Do lado direito, o da lógica feminina do gozo, temos o não-universal e o não-todo, ou seja, não é o caso de que, para todo x, x é fálico e não existe um x que não seja fálico.

Sublinho, assim, que diante do feminino o falasser que aí está é sempre não-todo e a soma dos não-todos não nos permite estabelecer um conjunto unitário. Interrogo: essa lógica não é a mesma que faz Lacan, a partir da cisão de 1956, repensar a função da escola enquanto formação e estabelecer, como através do Ato de fundação de 64, da Proposição de 9 de outubro de 67, bem como do Discurso na Escola Freudiana de Paris, limites para que, minimamente, se assegure certa blindagem contra esse empuxo ao todo? Lacan não haveria constatado que a psicanálise dependeria desses dispositivos para a sua continuidade? Afirmaríamos, assim, que como o feminino, os analisantes, participantes, membros e analistas, não-todos, estariam entre pares em uma não-toda instituição, escola, segundo Lacan?

Lacan, com a cisão de 1956, atentou para uma espécie de produção de objetos-analistas mediante a um standard, uma padronização segundo a qual a Associação Internacional de Psicanálise operava fazendo entrar uma lógica totalitária, de poder. Um psicanalista, segundo ele, “(…) deve habituar-se à ideia de que é em seu próprio ser, em sua personalidade total, como se expressam alguns comicamente, que ele é efetivamente apanhado como um todo, só que maneira de um peão, no jogo do significante (…)”.

Em que medida não poderíamos ainda tentar situar tal problemática do universal, que impera no mundo sob diferentes roupagens e discursos, a partir do que Lacan nos oferece com o nó borromeano? Aí, o falasser nunca foi tão esburacado. “A ex-sistência como tal, define-se, suporta-se disso que em cada um dos termos R.S.I., faz buraco.”

Quanto ao imaginário, esse furo diz respeito ao eu, ao narcisismo e a imagem especular que não se completa, não faz um todo-corpo. O falo, enquanto significante, é impossível de ser negativizado. Tal constatação já antecipada por Freud, o guia a pensar os fenômenos de grupos pela via da identificação e do rebaixamento do Eu. Lacan nos lembra, portanto: “Ao contrário do que se imagina, é por uma linha individual, na identificação coletiva, que os sujeitos são informados; essa informação só é comum por ser idêntica em sua fonte. Freud enfatizou o fato de que essa é a identidade que a idealização narcísica traz em si, e assim nos permite completar com um traço de esquematismo a imagem que desempenha nisso a função de objeto”. É, assim, “numa busca de saber, uma certa recusa que se mede no ser, para-além do objeto, é o sentimento que agrega mais fortemente a tropa”.

Essa dinâmica de funcionamento permeou, totalitariamente, as organizações governamentais fascistas em meados do século passado e estiveram dentro da Associação Internacional de Psicanálise e da, então, Sociedade Psicanalítica de Paris, na mesma época. Ainda que se trate de discursos que engendravam diferentes objetos, eles mantêm sempre a mesma demanda pelo poder.

Assim, tem-se uma dupla empreitada, fazendo intervir os dois gozos estabelecidos por Lacan. De um lado, articula-se um discurso de mestria, quanto mais poderoso, mais demandoso, por carecer do outro enquanto objeto para a sua satisfação e que encontramos sob a nomeação do gozo fálico. De uma outra forma, é preciso fazer existir um Outro, supostamente consistente, que garanta o lugar de uma verdade forjada, para que a massa sucumba ao lugar de objeto. Há, dessa maneira, uma vertente simbólica que veicula uma imagem capaz de fazer advir um sentido. Através de um meio um tanto perverso de satisfação, a do gozo fálico, opera-se dissimuladamente no Outro, o dando certa consistência, promovendo cola e angariando adeptos, o que não é sem a conveniência do sintoma de cada um, naquilo que o fantasma denota de fazer-se aprisionado.

Essa investida discursiva parece incidir naquilo em que se constitui o buraco no simbólico. Se esse buraco se evidencia pela morte, é ainda “enquanto alguma coisa é Urverdrangt no simbólico que há algo a que não damos jamais sentido, mesmo que sejamos, é quase uma repetição banal enunciá-lo, capazes logicamente de dizer que ‘todos os homens são mortais’; e enquanto ‘todos os homens são mortais’ não tiver, pelo fato mesmo desse ‘todos’, nenhum sentido (…)”. Entretanto, isso não faz com que esses discursos parem de incidir e de se propagarem, ao contrário, eles emergem a partir desse buraco, ou seja, respondem à demanda incessante do falasse pela busca do sentido.

São inúmeros os exemplos ao longo da história. O discurso científico, pós-iluminismo, não tardou até encontrar o capital e constituir uma série de áreas de domínios de saber no mínimo duvidosas. Recorto uma, a medicina. Freud precisou lidar com o endereçamento da medicina à psicanálise no entre guerras. A finalidade velada no discurso médico, para além do reconhecimento da importância da psicanálise, delineava-se na tentativa de fazer desta objeto da medicina, a ser por ela incorporada aos seus ideais. Freud escreve “A questão da análise leiga” em 1926, o que me parece ter sido um legítimo manifesto, que se ergueu, a princípio, em defesa de Theodor Reink, vítima de um processo por prática da psicanálise sem a qualificação médica.

Anos se passaram até o Brasil experimentar uma investida próxima em 2003, com o projeto de lei que ficou conhecido como Ato Médico. Tal projeto mantinha enquanto fim, dentre muitos engendramentos, subordinar ao controle dos médicos procedimentos de saúde, inclusive de psicanalistas, movimento de uma evidente apropriação do saber com finalidade de poder. Não ao acaso, hoje trabalhado pela Maria do Carmo, as “Três conferências sobre as formações do psicanalista” de Annie Tardits se encontra na revista da Letra Freudiana, também de 2003, cujo estabelecimento textual se deu em resposta ao Ato Médico, através da junção pontual de escolas diferentes, reunidas uma a uma. Tal empreitada não prosperou, encontrou aí limites.

Ainda mais perverso, tanto quanto mais contemporâneo, é a empreitada através da qual o discurso médico se renova e prolifera quanto a produção incessante de doenças, todas catalogadas nos manuais devidamente atualizados, segundo sintomas supostamente universais. Trata-se aqui da ciência a serviço da “Big Pharma”. Como negócio é negócio, é preciso grande simplicidade. “O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo.” Tal feito é exemplificado pelos transtornos, que mais valem a medida que se multiplicam. “Entre os mais recentes, o transtorno bipolar se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: o sujeito se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. (…) O diagnóstico de bipolaridade se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses.”

Tal recorte parece ilustrar bem o que está em jogo no encontro entre o discurso da ciência e o do capital, o que torna evidente a crescente oferta de objetos meio de gozo, cuja satisfação aprisiona o falasser na tentativa de excluir o que da castração se faz desejo. Para os que se colam excessivamente aí, como aqueles que são pegos por tal empreitada da “Big Pharma”, trata-se de uma de certa prisão celibatária, de um enclausuramento do sujeito com o seu objeto mais-de-gozar, com o qual nutre uma relação (a)sexuada. Lacan enfatiza: “O que distingue o discurso do capitalismo é isso – a Verwerfung, a rejeição para fora do campo do simbólico, com as consequências que eu já disse. Rejeição do que? Da castração. Toda ordem, todo discurso que se aparenta com o do capitalismo deixa de lado o que nós chamaremos simplesmente de as coisas do amor (…).”

A questão é saber no que isso dará, ou seja, até que ponto um sujeito dividido, angustiado, na posição de agente do discurso, consegue sustentar a recusa de saber sobre o seu sintoma? Porque “o que é recusado no simbólico, (…) reaparece no real”

O quão tolo não é a posição do sujeito que se faz colar aí, sob certa conveniência, recusando o que do seu sintoma poderia lhe proporcionar algum saber? E o que dizer daqueles que parecem ser a encarnação dos “peões” desse discurso médico-farmacológico, “joguetes” da “Big Pharma”, que hoje os conhecemos sob as infinitas nomeações da psicoterapia? Instiga-me pensar se esses psicoterapeutas não sentem uma ponta de vergonha com aquilo que fazem e propagam. Eles realmente se creem? Porque um relance de vergonha ou dúvida com seus métodos indicaria uma ponta de angústia.

O que a psicanálise introduz enquanto saber ultrapassa a conformidade que esses discursos universais propagam. A werferfung lembrada por Lacan, essa rejeição, encontra seu limite naquilo que retorna do real, no sintoma. Será que não está na condição de não-todo a possibilidade que do sintoma se faça uma questão? Não é ao se questionar quanto “ao que não funciona”  que o falasser pode se fazer um pouco menos “débil”? Seria aí que os não-todos se fazem também não tão tolos, pelo saber que lhes podem advir ao se interrogarem sobre seus sintomas, ainda que os não-tolos também errem.

O movimento contemporâneo da civilização é, por mais paradoxal que pareça, também arcaico, por se constituir enquanto repetição. A realidade brasileira com o resultado das últimas eleições deflagra o sucesso de um discurso que se sustenta através das duas instituições modelo de totalitarismo para Freud, a Igreja e o Exército. A orientação de Lacan em 1967 parece bastante válida: ”Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação”. Não sei se seria possível pensar numa proporção entre essa recusa de saber e o sintoma, mas se esse for o caso, quanto maior a recusa, mais devastador seria o que retorna do real. Isso faz Lacan nomear o que foram os campos de concentração nascistas enquanto algo ”real, sumamente real, tão real que o real é mais hipócrita ao promovê-la do que a língua”.

Mas enquanto há sintoma que se manifeste, há um fazer analítico. E com respeito ao sintoma, há sempre um preço a ser pago pela verwerfung, porque essa rejeição encontra um limite no real, o real ex-siste. A clínica dos nós inaugurada por Lacan nos permite enlaçar conceitos fundamentais. Aqui então se encontra o terceiro furo, o verdadeiro, segundo Lacan, “esse buraco no real, a se designar como vida.” Vida, que aparece em contraposição ao que do gozo se faz morte. O que Lacan delineia com esse buraco se articula com o trauma causado pela incidência de lalangue. É a partir do troumatisme da incidência da linguagem que algo se faz gozo no falasser. O simbólico é insuficiente diante de uma toda significação, ou seja, o impossível de significar ultrapassa o simbólico e se manifesta no real enquanto sintoma. O sintoma é, assim, correlato de não haver uma fórmula universal programada para fazer existir a relação sexual entre dois falasseres.

Não obstante, a orientação clínica a partir do real indicada por Lacan é muito próxima da que foi instituída por ele na constituição de uma escola, porque “existe um real em jogo na própria formação do psicanalista. Afirmamos que as sociedades existentes fundam-se nesse real” . A proposição lacaniana para o funcionamento de uma escola faz garantir a singularidade segundo a qual se torna possível uma formação que não inclua essa lógica do universal e do poder. Isso é um rigor com relação mesmo a uma análise, pois análise e formação se enlaçam aí. Segundo o que há de singular no sintoma do falasser que se pretende analista, este recorre, portanto, a uma escola, que através de dispositivos opera em respeito à diferença e ao desejo de cada um, constituindo um espaço de formação entre pares.

São diversos os elementos pensados por Lacan para a estrutura e o funcionamento de uma escola. O princípio da rotatividade, a diferença entre hierarquia, que pressupõe gozo de poder, e o gradus, cujo reconhecimento se dá por uma forma de trabalho específica sustentada, a ruptura com os Standards da prática didática, a adesão mediante inscrição de uma linha de trabalho suportada pelo desejo, as diferentes modalidades de endereçamento (participantes, AME e AE) e, sobretudo, o cartel e o passe, esboçam instrumentos que se referem, como Lacan lembra o intuito de Freud, à escola enquanto “lugar de refúgio, ou bases de operação contra o que já então se podia chamar de mal-estar na civilização”. Um lugar de refúgio, mas talvez um pouco mais, uma lógica. Uma lógica de formação, que como Annie Tardits sublinha, trata-se de “uma armadura inteligível mais ou menos explicitada”.

Pergunto-me se essa espécie de blindagem contra esses discursos, sempre um tanto totalitários, não é uma maneira de assegurar a existência da psicanálise no mundo, não deixando entrar o funcionamento em que se articula formulação de saber com fins de poder. Porque se isso ocorre, fazer entrar essa demanda de poder pela via do saber, seria o fim da psicanálise. A história nos mostra que o que levou os troianos à derrota foi estarem iludidos pelo poder. Tomaram enquanto presente, o que representaria supostamente a subordinação dos gregos à troia, e fizeram entrar o cavalo. Não só permitiram, fizeram entrar.

Não será, portanto, essa lógica proposta por Lacan o que permite uma escola completar vinte e cinco anos de existência? Não está aí o que leva, inclusive, diferentes escolas, sob diferentes nomeações (o que não é um detalhe), se enlaçarem segundo uma via de trabalho pontual? Quanto aos psicanalistas, eles certamente não formam uma multidão, não são extremamente numerosos, mas nem tão poucos.

Se o passe implica sempre um ato, pela razão de ser impossível tudo nomear, imputando àquele que pretende ser analista um savoir-y-faire, ou seja, um saber fazer aí com o embaraço em causa no seu sintoma, isso não é qualquer generalização. Não é um formato padrão, mas uma singularidade, que considera que de um ato forma-se um analista. Essa armadura contra o que normalmente cola por aí no mundo foi pensada por Lacan numa orientação segundo a qual o real ex-siste, e que assim fez a psicanálise desde o tempo de Freud se descolar da ciência. Ser conduzida pelo rigor de tais dispositivos não é o que se espera de uma forma-ação d’ex-cola?

Referências Bibliográficas

Freud, S., “A questão da análise leiga”, 1926, obras completas, volume XX, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

________”Psicologia de grupo e a análise do eu” obras completas, volume XVIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, J. “Escritos”, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998;

_______  “Outros Escritos” Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2003;

_______ “O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise”, 1969-1970, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1992;

_______ “O seminário, livro 20: mais, ainda”, 1972-1973, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2008;

_______ Seminário de 1974-1975: R.S.I;

_______ “O seminário, livro 23: o sinthome”, 1975-1976, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007;

______”Je parle aux murs”,1971-1972, Éditions de Seuil, août 2011;

______ Entrevista coletiva realizada em Roma em 29 de outubro de 1974;

Revista da Escola Letra Freudiana: “A análise é leiga: da formação do psicanalista, ano XXII, n. 32, Rio de Janeiro, 2003.

Gérard Pommier, “A medicalização da experiência humana”, Le Monde Diplomatique Brasil, Março de 2018, São Paulo.


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10 de outubro de 2018by Ato Freudiano0

“Alguma coisa está fora da ordem”?  – sobre o mal-estar na cultura

                                        Wania de Almeida Barbosa –  2016

Atualmente os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade, seu medo. Cabe agora esperar que a outra das duas “potências celestiais”, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace? (Freud, O mal-estar na civilização)

A questão da felicidade orienta Freud em sua pergunta sobre o mal-estar na cultura e sua resposta refere-se à constituição do sujeito, à impossibilidade de satisfazer o princípio do prazer, tendo em vista a questão pulsional, que por um lado revela ser parcial a satisfação e, por  outro, aponta o mais-além aí implicado. Se se insiste na busca da felicidade, ela, enquanto ideal, torna-se muitas vezes campo de angústia, e pra que algo relativo a ela seja experimentado é necessário um saber-fazer com o impossível que lhe concerne. Assim, desde 1920, Freud convoca  cada um a descobrir sua maneira de se salvar e revela que os objetos e avanços tecnológicos operam como substitutos, como próteses frente às perdas que são efeitos do progresso promovido pela cultura.

Desde então muitas coisas mudaram, mas permanece o que é da estrutura. Levando isso em conta, o discurso capitalista associa-se à ciência e, atendendo a uma demanda estrutural, lança os produtos por ela produzidos como passíveis de obturar a falta constitutiva do falante. Mas, se o capitalismo reconhece essa falta como motor que o retroalimenta, desconhece que é impossível obturá-la, pois ela é relativa, em termos  individuais, à perda do objeto quando da fundação do sujeito; e, em termos coletivos, à renúncia pulsional exigida para manutenção do laço social. Assim, ao passo que  se acirra cada vez mais a oferta de felicidades adquiridas por vias as mais diversas, vemos um sujeito cada vez mais engolfado por uma pergunta que não se faz, uma pergunta sobre seu desejo…

A ciência, em seu surgimento, separa sujeito e objeto, separa sujeito e saber e, nesse ato, lança objeto e o saber como algo a ser recuperado. Algo em busca do que esse sujeito se envereda, mas buscando-o sempre fora, sempre no Outro. Ao não se reconhecer constítuido por eles – saber e objeto – mesmo que alhures, o sujeito não reconhece a divisão que o constitui, nem se implica nela. Se desresponsabiza sobre o que lhe diz respeito e sobre seu modo de estar no mundo. Segundo Brigitte Lemérer, a ciência produz um real que invade nossa vida cotidiana com uma inumerável e múltipla quantidade de objetos e regulações, e transforma os sujeitos em não mais que um simples número. Trata-se, entretanto, de um real que é estranho ao sujeito, que lhe suscita angústia, mas não lhe permite saber “o que ele é como vivo e como falante”. Assim, o mal-estar, que não é passível de ser contornado pela palavra, revigora-se de forma insidiosa.

Freud evidencia em seus textos (Malestar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Eu) que a vida em sociedade faz com que o homem troque um tanto de felicidade por um tanto de segurança, que ele abdique da liberdade individual em proveito da justiça. E, após o estabelecimento desses novos critérios, faz deles novas bandeiras de reivindicações. Constata-se isso, por exemplo, na luta que se trava, há séculos, por  igualdade e por justiça. E, se muitas conquistas se alcançaram quanto ao direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, entre outros, esses avanços convivem e, possivelmente, sempre conviverão, como um rechaço a eles. Parece não ser em vão que os movimentos se nomeiem “luta”, pois reconhecem a exigência de trabalho continuo para a manutenção do que pretendem garantir.

Igualdade e diferença são elementos fundamentais em torno dos quais se mobilizam os grupamentos humanos. Freud mostra-nos, em Psicologia das Massas, como o amor e ódio se colocam como o laço de sustentação dos grupos, seja interna ou externamente, nas relações de cooperação ou rivalidade que estabelecem entre si. Trata-se do que ele chama narcisismo das pequenas diferenças, como fato relativo àquilo que permite que os membros de um grupo se identifiquem entre si e reconheçam o diverso, o diferente como passível de exclusão, quando não, de eliminação. A partir dessa formulação, pode-se ler diversas querelas e até mesmo guerras de grandes proporções que ocorreram ao longo da história.

Se nos detivermos na questão dos grupamentos humanos, especialmente, a dos grupos liderados, a identificação é o eixo fundamental para a sua coesão e seu funcionamento. Trata-se, nessa formulação, de que o eu de cada membro introjete o ideal do eu do líder. Sendo assim, um traço comum e ideal é o que é constitutivo do grupo. Não podemos deixar de considerar que, nesse texto, Freud mostra-nos não só a psicologia das massas, mas a análise do eu, de sua fundação à sua constituição, a referência ao outro e o lugar da identificação, bem como os efeitos desta. Dessa forma, revela o lugar do ideal do eu para o sujeito e sua origem no supereu, como resto da operação do Édipo, ou seja,  como devedor da função paterna. O ideal do eu tem uma função essencial ao estar referida à questão do desejo, por um lado, e da lei, por outro, colocando-se para o sujeito, talvez, como vetor na sua relação com o desejo e o gozo.

Diante do lugar fundamental do ideal do eu para o sujeito, e consequentemente, na cultura, como pensá-lo em tempos em que a função da qual deriva, a função paterna, parece opaca, se não esmorecida? Lebrun, no livro Um mundo sem limites, destaca os efeitos da passagem de uma organização social marcada pela religião para uma organização social marcada pela ciência. Sua articulação evidencia, ao longo de todo o livro, o lugar que é dado ao pai nessa passagem e como a função paterna, a partir da entrada do discurso da ciência, é deslocada ou mesmo invalidada, o que tem efeitos sobre a questão simbólica.

É o pai ou que seria sua função que intervém, instaurando interditos necessários à constituição do campo do desejo, fazendo contraponto ao gozo presente na relação complementar e imaginária entre mãe e filho.  Lebrun reafirma a importância do pai para introdução e validação do simbólico, na medida em que este introduz a dimensão de uma alteridade radical, quando de sua entrada no Édipo. A intervenção paterna, portanto, faz prevalecer a ordem simbólica, cujas premissas já estavam colocadas, mas vêm estabelecer-se definitivamente.

Revela-se, assim, a importância de situar o pai e seu lugar para se pensar as questões que nos circundam e a dimensão social em que estamos imersos, pois a efetividade ou não de sua função permitirá uma leitura da consideração que se tem pela lei, sua validade e as formas de aboli-la. Lembrando que a lei do incesto traz em si uma interdição a um gozo mortífero e, ao introduzir, a dimensão da castração, lança o sujeito ao campo do desejo, talvez se tenha chance de avaliar o que excede de gozo no campo social, inclusive na política, a cada vez que a dimensão do desejo é sempre mais desconsiderada.

E, diante do que se nos apresenta hoje – Trump, Al-Qaeda, Brexit, Mariana, 22 mil neonazistas declarados na Alemanha, Paris, Bolsonaro – da letra de Caetano, faz-se pergunta: “alguma coisa está fora da ordem”?, “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”? Retrocesso? Um movimento cíclico no qual aos avancos e conquistas sobrevêm ameaças e conservadorismo? Parece que está tudo dentro da nova ordem mundial! A ordem definida e mantida pelo discurso capitalista, de mãos dadas com sua parceira, a ciência, e cujo casamento tem formado uma geração da qual Black Mirror é mesmo um espelho, no qual não se reflete nada além de angústia e mal-estar.

Mas, quando se pensa em avanços e retrocessos, quando se pensa em movimento cíclico faz-se necessário retomar, a partir da perspectiva da psicanálise, a questão dos ideais, afinal é em torno deles que a sociedade se organiza e encaminha suas demandas. Freud afirma no texto O Recalque, revelando um elemento estrutural, que “os objetos favoritos dos homens, seus ideais, provém das mesma percepções e vivências que os mais execrados por eles, e que originalmente eles se diferenciem uns dos outros apenas por mudanças míninas”. O que nas palavras de Eduardo Vidal e Paulo Becker pode-se ler assim: “cada ideal que se oferece para a alienação corresponde a seu avesso obsceno”. Retomando a questão do parrícidio, como fundador da cultura, esses autores consideram que “por trás do ideal, continua vigente o canibalismo do crime primordial”.

Portanto, diante disso que é do sujeito e do que é, também, matéria que permeia a cultura, o texto  O ideal, o ao-bjeto e o real traz elementos necessários pra se pensar o que resta  da constituição do sujeito e da cultura, e que, ao retornar, pode trazer espanto e horror. Segundo Vidal e Becker, os sacrifícios mortificantes sempre exigidos para a integração à sociedade, deixa

o sadomasoquismo como marca indelével da inscrição na cultura, é sua base pulsional constitutiva, está na raiz do que é propriamente humano. E é no ponto de falha inerente à lei simbólica, no ponto de ruptura eventual da lei simbólica que surge como aparição o “ao-bejto”.

O ao-bjeto deriva da incorporação de um traço do pai, a partir do parricídio. Nesse sentido, comporta o objeto introjetado, o pai, mas, também, o ato abjeto que lhe originou. Da citação dos autores acima, poderíamos dizer que quando a função simbólica, introduzida pelo pai, falha, é a dimensão do gozo que mostra sua face de horror, trazendo a campo o ao-bjeto? Ou de outra forma: se há uma falha na função paterna, com efeitos sobre a inscrição ou validação do simbólico, não se abre o campo para um retorno pregnante do abjeto? Banalização da vida, terrorismo, corrupção, misoginia, refugiados – são alguns dos nomes do horror que nos acerca, atualmente.

Poderíamos ler, também, na política essa dimensão do ao-bejto? No caso brasileiro, um fato que chama a atenção na atitude dos políticos é desconsideração pela lei, pela coisa pública, e por aqueles que representam. Se se retoma o ato originário, parecem querer colocar-se no lugar do pai morto, daquele que goza de todos. Parecem não reconhecer a lei que se estabelece a partir dessa morte, e que, no máximo, os permitiria estar como representantes, mas não no lugar dele. Retomando a questão do ao-bjeto, dois elementos devem ser destacados quando se pensa nos descaminhos da política no Brasil: o primeiro é relativo ao traço; o segundo, referido à própria constituição do sistema político. Por um lado tem-se como traço do povo brasileiro algo relativo a um crime, por ter sido constituído, em suas origens, por degredados de Portugal. Por outro, verifica-se, mediante as coligações partidárias exigidas para ascender ao poder, um embotamento ou mesmo uma perda dos ideias, sejam eles quais forem. Quando esses dois elementos se conjugam, o que resta senão apenas o abjeto?!

Para se pensar outras questões relativas à política, um elemento importante a ser considerado é a problemática do serviço dos bens, tal como Lacan propõe. Nesse sentido, considera-se que “o âmbito do bem é o nascimento do poder”, pois é em torno de um bem, um bem coletivo que se estabelecem as ideologias partidárias ou políticas como um todo. Lacan, a partir do Seminário 7 e do texto Kant com Sade, articulando a questão do bem, contrapõe moral e ética. A questão da moral, geralmente sustentada pela ideia de assegurar um bem, se opõem enquanto impeditiva ao campo da ética, na medida em que “a dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo” (sem 7, p. 280). Segundo Lacan:

        uma parte do mundo orientou-se resolutamente no servico dos bens, rejeitando tudo o que concerne a relação do homem com o desejo – continuemos trabalhando e, quanto ao desejo, vocês podem ficar esperando sentados […| ao formular as coisas desse modo, só fazem perpetuar a tradição eterna do poder. ….(pode-se supor que) o campo dos bens, no serviço dos quais temos que nos colocar, possa num certo momento englobar todo o universo. (Sem, 7, p. 381)

Confirmando a previsão de Lacan, a lógica dos bens, compartilhada e desejada por todos, assumiu uma proporção tão globalizante e desmedida que tem dado ao capital, enquanto tal, a função de governar. É o que afirma Boaventura de Souza Santos: “neste momento, estamos em uma fase do neoliberalismo, que o neoliberalismo não confia mais nos políticos de direita. Ela quer empresários, quer os seus a governar”.  E esse pode ser um dos elementos que justifica alguns resultados recentes, como a eleição de Dória, para prefeito de São Paulo, e de Trump para presidente dos EUA, que confirmando o lugar do capital, convocou alguns bilionários para compor seu governo.

Nesse contexto, deve-se, ainda, considerar as diversas propostas políticas que surgem ou ressurgem nesse momento no mundo, quando avançam as possibilidades de governos de extrema direita. Parecem pretender restaurar um estado anterior, mas nem por isso deixam de se orientar pela lógica do serviço dos bens. É isso, por exemplo, o que ecoa no Brasil com a pretensão de reinstaurar “ordem e progresso”. O cunho saneador, conservador e, na maioria das vezes, moralista dessas propostas revela o ressurgimento de ideais muitas vezes assustadores que, no caso brasileiro, se exprimem, em seu extremo, num pedido de retorno dos militares ao poder. E isso tudo a mote de uma retomada do crescimento econômico e de uma luta contra a corrupção!

A relação da política com a perversão parece poder ser antevista quando se situa o perverso como aquele que quer fazer crer a existência do Outro, aquele cuja relação com a lei é de desmenti-la. Isso fica escancarando no atual momento político pelo qual passamos no Brasil, quando os mais diversos representantes do povo chegam mesmo a perverter aquilo é relativo ao serviço dos bens. Os políticos brasileiros, em sua maioria, governam em causa própria, visando não “um bem” mas seu bem, ou mais explicitamente, seus bens. Congresso e Senado brasileiros, de forma ardilosa, sustentam suas falcatruas e se protegem um ao outro, projetando seus membros para fora das possibilidades da lei. Estamos num campo onde a lei é desmentida e chegamos, talvez, a um ponto que revela um outro posicionamento frente a lei, no qual ela é recusada. Essa recusa dá-se a ver, por exemplo, no caso do projeto anti-corrupção, que corre o risco de ser escrito parcialmente, ou nem ser escrito…. E, como já alertou Lacan, os efeitos do que não se inscreve no simbólico, retorna desde o real!

Diante do cenário esboçado aqui, sob um certa perspectiva, concluo com a abordagem que Brigitte Lémerer traz em seu texto, L’encobriment du real. A partir do que Lacan propõe no Seminário 8, ela faz referência ao que retorna à sociedade, a cada tempo, como sua père-version, a versão do pai. De certa forma, refere-se à maneira como a neurose é acolhida, a cada tempo da cultura, e é trabalhada a partir do laço social, no sentido de uma possível sublimação. Teríamos como efeito dessa sublimação o amor cortês, na sociedade medieval, e a homossexualidade, em Atenas. Cabe, aqui, uma pergunta: diante do lugar do pai na sociedade atual, ou do que parece comparecer como uma falha em sua função, o que poderia se propor como père-version em nossa sociedade? Se nessa formulação de Lacan algo de uma sublimação é produzida a partir do laço social, qual a chance de que algo dessa ordem se produza na tentativa de um contorno ao mal-estar contemporâneo, numa sociedade na qual o discurso que prevalece não faz laço?

E se a poesia tem como possibilidade contornar algo do real, termino com Caetano, que mesmo quando diz que algo esta fora do ordem, não deixa escapar a dimensão do feminino e traz do impossível o efeito que interessa:

Eu não espero pelo dia

Em que todos

Os homens concordem

Apenas sei de diversas

Harmonias bonitas

Possíveis sem juízo final…


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

Uma Escola fora do comum

Silvânia Marques Motta

O presente trabalho é efeito da leitura dos seguintes textos institucionais, a Ata de Fundação da Escola Freudiana de Paris e a Proposição de outubro de 1967, bem como da leitura da Terceira, coordenada pelo Orris, e dos textos do seminário “O inconsciente é a política”, coordenado pela Zú, que acontecem na quinta à noite.

Inicio com uma citação da Proposição de outubro de 67: “…Escola, ela não o é apenas no sentido de distribuir um ensinamento, mas de instaurar entre seus membros uma comunidade de experiência, cujo cerne é dado pela experiência dos praticantes” (1ª versão; p. 7).

O título deste trabalho traz o significante “fora”, pensado em referência ao lugar da Escola de psicanálise em relação ao mal-estar na civilização e também à especificidade do saber aí produzido.

O discurso analítico é o único que permite sustentar uma pergunta frente a esse mal-estar, ao fazer um contraponto aos discursos capitalista e da ciência. Tal refúgio é propiciado pela possibilidade de questionamento, de manter aberto o lugar da hiância, em resistência às tentativas de tentar recobri-la com os objetos comuns – leia-se imaginários e condensadores de gozo – oferecidos pelo mercado e viabilizados pela ciência, na contemporaneidade. Contudo, refúgio não implica em um abrigo, como numa “casa de repouso para veteranos”, mas no que Lacan indicou ser uma “base de operação contra o mal-estar”, num diferente estilo de vida, a partir de uma modalidade inédita de funcionamento.

(Por “objeto comum” entenda-se aquele não próprio do desejo. E se é de gozo, pode ser qualquer um, e tomado em substituição infinita. A felicidade não é permanente, é preciso perder o gozo para aceder a ele de um outro jeito, no seu valor de uso, posto que efêmero.)

O saber psicanalítico é um saber que se faz com o próprio inconsciente, que está na outra via que não a da acumulação de conhecimento. O significante “fora” remete ao Real como pano de fundo nessa produção. A Escola fundada por Laca se distingue das Sociedades da época como uma comunidade de experiência que leva em conta o Real na formação.

Segundo Moustapha Safouan, Lacan tem razão quando dá a entender nos seus Escritos que “um ensino que responde à demanda de aprender, no sentido de aprender conhecimentos comuns, é um ensino que engana a ignorância, em vez de dela se servir” (Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas; p. 43).

O ensino que a Escola visa é aquele que advenha na junção da psicanálise com os saberes afins e que possa passar alguns significantes cuja escuta cause efeitos de trabalho, fundando, assim, a possibilidade de transmissão.

A entrada na Escola constitui um endereçamento à psicanálise, é dirigir-se a um laço de trabalho comum, seja enquanto responsável pelo avanço da Escola, seja pela posição que nela se ocupa (o que se refere às categorias de nominação de membro e de participante da Escola, conforme a Ata de 2010, do Ato Freudiano).

Estar na Escola não significa estar em formação. Na Proposição, há também uma passagem importante, na qual fica estabelecido que a Escola garante a relação do analista com a formação, e não que a formação mesma esteja garantida.

Ao basear sua formação no Cartel, dispositivo de transmissão sustentado na transferência de trabalho, e ao eleger o gradus como princípio de funcionamento, a Escola considera que o que está em questão na formação é o desejo do analista. (O gradus é à medida dos passos dados pelo analista, que deu suas provas na extensão. Subverte o desejo de reconhecimento em reconhecimento de desejo).

Que cada um tomará a Escola na medida do seu desejo, é o que atesta a formulação de que não há relação sexual. Desejo esse que será posto à prova, para que o Real não conduza ao seu próprio desconhecimento, mas possa haver uma chance à articulação da falha no saber, desde a causa do desejo – objeto ª

Na Terceira, Lacan diz que “…é somente pela psicanálise, é nisso que esse objeto constitui o cerne elaborável do gozo, mas ele só se sustenta da existência do nó” (p.8).

A exposição e crítica do trabalho e a função mais-um no Cartel constituem provas ao desejo na extensão. Referem-se ao corte, que permite a exclusão no sentido e coloca em campo a ex-sistência, condição de nodulação e seus efeitos de enxugamento. As provas ao desejo promovem um descompletamento imaginário e colocam em perspectiva o Sujeito diante do engano, e a ele só resta simbolizar algo diante da falta. Não nos esqueçamos de algo que Lacan formulou na fundação da Escola, sobre o ponto em que o problema do desejo não pode ser escamoteado, que é quando se trata do próprio psicanalista (Preâmbulo da Ata de Fundação da E.F.P).


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

50 anos dos Escritos

                    XXI jornada do Ato Freudiano – Escola de psicanálise de JF,  10/12/2016

“Os Escritos, uma obra de umas novecentas páginas, estavam para serem lançados. Lacan, se encontrando com Derrida, manifesta sua inquietação. Evocando a encadernação do volume, declarava: Você verá, isso não vai resistir.”

(Vous verrez, ça ne vas pas venir)

 

O que dizer dos 50 anos dos Escritos ou Escritos – 50 anos depois? É uma pergunta que abre para muitas possibilidades de leitura.

           Em primeiro lugar, é importante destacar que a publicação dos Escritos em 15 de novembro de 1966 é um marco na história da psicanálise. Além de ter ocorrido em um cenário de extrema efervescência cultural, se deve também à decisão e autorização do próprio Lacan diante do seu lugar na psicanálise e na cultura que não o deixava outra alternativa. A Escola Freudiana de Paris tinha sido fundada em 1964 como efeito de um percurso longo de trabalho implacável de retorno a uma leitura textual de Freud. Assim, os Escritos são o resto da elaboração de sua experiência clínica e produto de seu ensino oral que ressoavam naquele momento singular de Paris nos anos 60.  Momento de ideais  utópicos, ingênuos e libertários, tendo como um de seus slogans: É proibido proibir! Mas, o obscurantismo das falsas evidências já se anunciava, e a clínica já prenunciava outras perspectivas, sinalizando para uma simples margem de liberdade a partir de um irrepresentável que diz da dimensão do real.

           Os Escritos nos apresenta um conjunto de textos e conferências dispersos durante a sua trajetória até aquele momento, sendo tarefa impossível demarcar o estatuto de cada artigo, na medida que cada um deles nos traz contribuições fundamentais para uma leitura apurada da subversão radical empreendida por Freud. É uma escrita também que abre para a formulação dos matemas, que se dará um tempo depois. Então, a inquietação de Lacan na época da publicação dos Escritos: “ Isso não vai resistir” não se confirmou. Para surpresa do próprio Lacan, os Escritos foram um êxito de venda. Fato surpreendente tratando-se da obra de um autor que tinha fama de ilegível.  Mas, “isso resiste, insiste”, e confirma a inscrição na cultura do imperativo freudiano – “Onde isso era, devo advir – Wo Es war, soll ich werden.”

           É interessante também ressaltar a insistência do editor dos Escritos – François Wahl- que foi seu analisando e o instigou a essa publicação. Isso nos diz de um fora/dentro, que implica em uma posição que tem uma estreita relação com a prática clínica que nos coloca diante de uma experiência de leitura que consiste em experimentar uma certa ilegibilidade, um esvaziamento do sentido do imaginário e de um tempo para compreender.

           E, em se tratando dos Escritos, é sempre bom retomar as palavras do próprio Lacan:  “O escrito distingue-se, com efeito, por uma prevalência do texto, no sentido que veremos ser assumido aqui por esse fator do discurso –  o que permite a concisão que, a meu ver, não deve deixar ao leitor outra saída senão a entrada nele, que prefiro difícil. Este, pois, não será um escrito, como o entendo. … Pois a urgência de que agora extraio como pretexto para deixar de lado esse propósito só faz encobrir a dificuldade de que, ao sustentá-lo na escala em que devo aqui apresentar meu ensino, ele não se distancie demais da fala, cujas medidas diferentes são essenciais para o efeito de formação que procuro.”

( Lacan, A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud – Escritos, p.496)

           Se o estilo, a clínica e o ensino oral de Lacan já o colocavam em um certo lugar, a publicação dos Escritos o inscreve definitivamente em um lugar certo – em um lugar que não deixa ao leitor outra saída senão sua entrada na lógica do significante e da letra, ou seja, no próprio lugar do saber inconsciente. É um texto vivo que ao tensionar o leitor com suas equivocidades potentes, nos apresenta uma massa textual significante que faz surgir para quem o lê a pergunta insistente: é ilegível Lacan? O próprio Lacan chegou a dizer que sua escrita mantinha um significante em reserva, o que não deixa de ter certa relação com um objeto que em sua radical ausência vetoriza a direção da experiência analítica.  Certos textos, e a clínica nos diz isso no nosso dia a dia, só podem ser lidos uma vez que se assume sua ilegibilidade. Nesse sentido, os Escritos adquiriram o status de um clássico, cuja obra nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer.

           Retorno a pergunta que abre este trabalho: o que dizer dos Escritos – 50 anos depois? Qual a sua atualidade? Além de nos remeter a um ponto de solidão extrema, nos convoca a uma leitura apurada dos pontos obscuros das falsas evidências que perpassam a contemporaneidade. É uma experiência de leitura que chama pelo desejo do leitor e que o desaloja da paixão pela ignorância e do imediatismo de qualquer resposta pronta. Conseguir fazer um certo atravessamento em algum dos escritos não é sem consequências.

         É uma escrita que põe o leitor na terceira margem do rio: “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.”   (Guimarães Rosa – A terceira margem do rio/ Primeiras Estórias p. 33)

        Recorro também a um poema de uma paciente, que de um outro lugar, procura se localizar diante da imparidade, estranhamento e estarrecimento da palavra experimentada em uma análise: de um real ilegível e irrepresentável.

À margem de um leito… ímpar de amor

À margem das palavras  e… idas e vindas desse leito,

a busca de um dizer que seja leito,

em uma procura ímpar de amor.

Estar à margem

Acreditar na margem…

É buscar o fio tênue da própria convicção.

        Guimarães Rosa e a paciente sintetizam de uma maneira exemplar o que os Escritos nos ensina. Então, 50 anos depois, dado os rumos da civilização, mais do nunca se torna imperativo colocar em ato esse ensinamento porque é um escrito que põe em questão a atualidade. Estamos em um momento da história também ímpar, em uma conjuntura clínica e política que exige uma leitura que não se reduza ao campo dos enunciados que em seu fechamento, mantém uma via repetitiva e uma leitura ancorada em corrimões já desgastados pelo tempo.  Sabemos que todo texto tem uma dimensão sintomática e pede um deciframento. Se estamos vivendo em um tempo de estranhamento, de polarizações desmedidas, segregação e exclusão, ancorados por um ideal do tudo saber da ciência e de um empalidecimento da dimensão política, talvez possamos nos apoiar na formulação de Lacan: “O inconsciente é a política.”  Porque a psicanálise é o único discurso que estabeleceu um confronto de modo irredutível com o real. O que se inscreveu desde Freud fez corte e trouxe efeitos no mundo. Essa formulação de Lacan: “O inconsciente é a política” produz o enodamento necessário de um laço inédito que questiona radicalmente as ditas relações entre os seres falantes. O inconsciente exige que se rejeite qualquer benefício que provenha da ‘realidade’ para um sujeito ou uma comunidade e que se indague o laço de satisfação com o real… O Inconsciente implica, então, a articulação lógica da posição do sujeito para que se saiba o que ele procura.” ( E.V.  O inconsciente é a política – in Política e psicanálise/ RLF n. 44 p.17)

        Assim como os Escritos nos deixa em um certo compasso de espera e também em uma certa zona de silêncio que pode ser assim formulado: Eu sei que é impossível de ler, mas mesmo assim… e isso nos traz uma sensação de desamparo, mas também uma certa satisfação e até momentos de uma alegria fugaz, a civilização atual nos deixa esse legado: Eu sei que está impossível de ler, mas mesmo assim…

          

      


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

O efêmero: esse Outro lugar…

Maria do Carmo Motta Salles

Resumo: A psicanálise desvela o valor lógico do efêmero como condição de verdade. É apenas isso que a faz perdurar – dar um lugar ao efêmero que pode ou não ter um efeito de raridade no tempo – ou seja, o efêmero não é esse Outro lugar com reticências, é o que por excelência, possibilita instantes decisivos de corte à astúcia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Palavras-chave: efêmero, real, impossível, obra, ato analítico.

“O espelho é o também de você nunca”

(Millôr Fernandes)

  

O encontro inesperado com essa frase de Millôr Fernandes me impulsionou a escrever este texto. De um título já pensado antecipadamente, que se enlaçava ao tema do Colóquio, mas ainda como um indício de uma convicção tênue, à decisão de escrever algo nessa direção. Porém, não sabia por onde ir. Um indício velado é, portanto, suficiente para indicar um caminho, mas muitas vezes se perde numa zona de sombra espessa. No entanto, ao me deparar com a frase, efêmera, vinda desse Outro lugar, de fora, da intrusão do real, uma certa possibilidade se abriu para a escrita deste texto. Um alhures se fez causa, presentificando o que não se sabe e ecoando o insabido do desejo do Outro.

A frase de Millôr nos apresenta, de uma forma extremamente condensada, o que Lacan abordou no estádio do espelho, apontando-nos uma operação de soma (também) e subtração (nunca), ou seja, afirmação e expulsão, em um golpe só, que indica o lugar vazio de onde o sujeito emerge. Porque a imagem só se mantém momentaneamente e, em um piscar de olhos, já se terá transformado. A imagem é como uma coisa continuamente flutuante. Então, a idéia de totalidade de um corpo é efêmera e instantânea e se perde no instante seguinte.  É de um lugar vazio que o sujeito é lançado e se lança à procura de um sentido, e só no limite do nonsense se impõe uma invenção diante da impossibilidade do real. Mas, em sua constituição e em seu caminhar pela vida, o sujeito tenta desesperadamente se agarrar a uma totalidade e, nas suas idas e vindas pelo simbólico, engessa o imaginário e busca empalidecer o que do real comparece, fazendo sintoma. A psicanálise, ao ler esse movimento da estrutura do ser falante, se sustenta em uma aposta: o essencial é que, tocando o ponto limite entre o real e o simbólico,  isso se diga, continue a se dizer, porque há certamente o inexprimível que se mostra.  A esse respeito, Lacan (1973) nos diz:

Esta função do impossível não deve ser abordada sem prudência, como toda função que se apresenta em forma negativa. Eu quereria simplesmente sugerir-lhes que a melhor maneira de abordar essas noções não é tomá-las pela negação. Este método nos levaria aqui à questão sobre o possível, e o impossível não é forçosamente o contrário do possível, ou bem ainda, porque o oposto do possível é seguramente o real. (LACAN, 1973, p. 159)

Wajcman (2012, p. 62) afirma que “o artista, o escritor, o poeta e o psicanalista possibilitam mostrar e dizer o que não pode ser visto, nem dito – visam o impossível enquanto impossível”. Ao se situarem, portanto, na mesma curva que é aquela da estrutura, encontram sua razão na própria obra e no próprio ato analítico. E, em decorrência disso, produzem ondas em cada sujeito para que algo novo possa emergir. O que virá a partir dessas ondas incide sobre o coletivo e poderá provocar um efeito discursivo inovador.

O real se distingue porque, em sua economia e imposição, exige algo novo, que é justamente o impossível. Há uma imposta facticidade do real e, também, uma imposta facticidade do efêmero, que é um dizer sobre o real – que se presentifica insistentemente, forçando-nos a cavar alguma saída não prevista no ponto de partida. O efêmero é um dos nomes do não todo: é um espanto benvindo que se impõe impedindo a pura dispersão do real, possibilitando o caminhar da civilização. É, portanto, esse Outro lugar que, ao circunscrever o real, reenvia o vai e vem da pulsão, envolvendo as zonas de superfície do corpo e as aberturas erógenas. O real força as aberturas como pontos de evanescência onde o interno encontra o externo. O efêmero é o nome do sujeito pontual e evanescente, como efeito da abertura e do fechamento do inconsciente.

Se considerarmos que “o inconsciente é a soma dos efeitos da fala sobre um sujeito” e que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante, não se pode admitir o corpo falante a partir de qualquer espécie de substância. O sujeito é evanescente e aparece no momento em que a dúvida se reconhece como certeza, e não a partir de um logos que se encarnaria em alguma parte. A abordagem freudiana afirma, no entanto, que “as bases desse sujeito se revelam bem mais largas, mas ao mesmo tempo bem mais servas quanto à certeza que ele rateia. É isto que é o inconsciente” (LACAN, 1973, p. 122). O inconsciente está fora – nesse Outro lugar – como aquilo que insiste e revela um impossível sobre o qual se funda uma certeza. Mas o inconsciente não se encontra em todo lugar: ex-siste e se instaura em ato a partir do desejo do analista.

Quero ressaltar bases bem mais largas e ao mesmo tempo bem mais servas porque nos indicam justamente a estrutura escandida do batimento da fenda em que o sujeito se afirma e onde o desejo pode emergir. Como nos diz Lacan: “Ora, se o desejo não faz mais do que veicular para um futuro sempre curto e limitado o que ele sustenta de uma imagem do passado, Freud o diz, no entanto, indestrutível” (LACAN, 1973, p. 35).  Então, podemos dizer que o desejo se apresenta de uma forma efêmera e pontual, mas traz algo novo e alarga o que anteriormente era apenas uma imagem – o também e nunca – de um passado. Abre para que as bases do sujeito possam se relançar diante da certeza efêmera que é veiculada para um futuro sempre curto e limitado.

Considero importante pensarmos sobre o significado do termo ratear: 1) distribuir ou dividir segundo a proporção que, por justiça, toca a cada um, ou seja, divisão proporcional de bens; 2) não funcionar, falhar, perder a força, tornar-se debilitado. É, portanto, através da falha que uma nova proporção pode se colocar. Mas, ao mesmo tempo, é através da mesma falha que o desejo pode se debilitar. O que Lacan nos aponta é que a função do ratear está no centro da repetição analítica, indicando-nos que a posição de cada um vai se revelando à medida que o trabalho de uma análise vai seguindo seu curso. E o que Freud nos diz é justamente que existem duas posições distintas em relação ao efêmero: uma revolta diante da facticidade do efêmero ou o reconhecimento de um valor de raridade no tempo.  A psicanálise desvela, portanto, o valor lógico do efêmero como condição de verdade.  E é exatamente esse Outro lugar, obscuro, opaco e pontual que move o artista ao ser reconhecido como valor e pode se tornar um valor de corte, abertura e novidade no campo da cultura, mantendo a pulsação necessária à sua sustentação. É também esse Outro lugar indizível e efêmero que, ao ser nomeado por Lacan como objeto a, se inscreve definitivamente no discurso do século XX, possibilitando uma certa apreensão de elementos estruturais que revelam, de uma maneira inexorável, a condição efêmera e despossuída de todo paraíso perdurável que sintetiza o homem contemporâneo.

Diante do exposto, considero importante pensarmos o lugar do passe na escola como a aposta de Lacan em um instante revelador da estrutura do ser falante.  O discurso analítico pode chegar a um resto que afirme a radicalidade do efêmero como um dizer que apreendeu algo do real – “onde o real alcance o real”.

Como nos diz Françoise Samson, “O passe é um instrumento que serve para manter aberta uma questão: como e com quê um ser falante é fabricado?” (SAMSON, 2010, p. 27).  O passe, tal como o segundo tempo do trauma, pode capturar algum elemento estrutural e ser transmitido à comunidade de analistas. Diante da impossibilidade do real, pode-se enunciar algo novo – um saber inédito.

E se o sujeito, em um primeiro tempo, se depara, no final de sua análise, com o real que comparece em toda a sua potência, pode, em um segundo tempo, formular um dizer sobre isso. É apenas isso que faz a psicanálise perdurar – dar um lugar ao efêmero, que pode ou não ter um valor de raridade no tempo. O efêmero não é esse Outro lugar com reticências. É o que, por excelência, possibilita instantes decisivos de um certo contraponto à astúcia, trama e tramóia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Então, nesse momento da história em que estamos, há a necessidade de analistas. Essa necessidade está ligada a alguma coisa que se tornou impossível na vida cotidiana dos seres falantes. Alguma coisa tornou-se impossível como efeito de uma certa invasão do real. O real, para a ciência, pôs-se a pulular: ele se tornou uma presença, de uma insistência que não tinha até então. Essa presença, que nos estorva, nos faz considerar que a psicanálise, assim como as artes, ao darem um lugar lógico ao efêmero, são os únicos respiradouros que podem nos permitir sobreviver ao real.

 

Referências bibliográficas:

FREUD, S. Efêmero. Tradução de Eduardo Vidal. In: Da Experiência Psicanalítica, Publicação – Escola Letra Freudiana, nº. 41, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2009.

LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

SAMSON, F. Conferência: Analista da Escola (A.E.). O a posteriori. Tradução de Ana Lucia Teixeira Ribeiro. In: Documentos para uma Escola V, Publicação – Escola Letra Freudiana, ano 29, nº. 0’’’’, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2010.

WAJCMAN, G. A arte, a psicanálise, o século. In: AUBERT, J. Lacan: O escrito, a imagem. Tradução de Yolanda Vilela. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

Carta Aberta

Na edição especial do mês de agosto de 2016 da revista Cult, um dossiê veio a público. Contém trabalhos minuciosos sobre questões relativas aos descaminhos da psicanálise na contemporaneidade, que podem fazer obstáculo a virulência do saber fundado por Freud. Verificamos, com inquietação, os riscos de uma certa padronização, insistência na repetição de jargões e engessamento do discurso lacaniano agravados pela zoeira sem limites da internet, que não só redimensiona a noção de tempo e espaço como amplia o mal-estar do sujeito contemporâneo.

O dossiê inicia com a seguinte afirmação: “Porque hoje o discurso dos analistas lacanianos já está instituído. De certo modo, ele nem mais precisa de uma sociedade de psicanalistas, já anda sozinho. Melhor seria dizer que fala sozinho, nem precisa mais de mim, nem de você: tornou-se um discurso anônimo.” Em seguida, abre a série de artigos com a seguinte pergunta: “qual a melhor posição dos psicanalistas para estarmos, como diz o outro, à altura das questões do nosso tempo?” A psicanálise é um dos grandes acontecimentos da nossa época, como diz seu fundador, a terceira ferida narcísica.

Questão extremamente pertinente que nos faz retomar uma indicação muito precisa de Alain Badiou: o acontecimento é uma categoria não articulável que instaura uma verdade e deixa um resto, embora possa ausentar-se da memória explícita. Por isso é preciso uma intervenção, uma interpretação para dar consistência a essa singularidade. As dificuldades de ser fiel a esse acontecimento expressas na história da psicanálise exigiram uma intervenção e foi preciso que Lacan, num determinado momento, empreendesse um retorno a Freud.

Nesse sentido, o inédito da descoberta introduzida por Freud exige um percurso próprio na formação do analista baseado em dispositivos específicos. Assim, Lacan ao fundar a Escola em 1964 cria um dispositivo de trabalho – o cartel – como a forma privilegiada de produção de um saber ao sustentar o não todo em seu funcionamento. Não há um todo saber que responda ao mal-estar do ser falante – é isso que funda o saber psicanalítico a partir do que a clínica do nosso dia a dia nos ensina. Em 1967, Lacan lança a Proposição de 09 de outubro e acrescenta o passe como a possibilidade de verificação da passagem de analisante a analista. Abre assim para a comunidade de analistas uma possibilidade de trabalho ao convocá-la a uma verificação que deve estar bem distante de uma deontologia.

A Escola é, portanto, um coletivo de trabalho que deve estar atenta ao vivo da descoberta freudiana e aos riscos constantes de uma certa obscenidade que invade a sua institucionalização. Os conceitos psicanalíticos já se incorporaram ao acervo simbólico do nosso tempo às custas de uma imensa banalização. E é por isso imprescindível que os analistas retornem, com afinco, aos seus fundamentos para dar consistência a essa singularidade, porque os impasses e descaminhos assentados em um ideal são elementos estruturais que insistentemente se repetirão buscando abafar o inédito desse acontecimento. Se ater com entusiasmo a novidade que a nossa clínica cotidiana nos apresenta nos leva necessariamente a um espanto benvindo  que sempre comparece quando se lê e relê Freud e Lacan.

O conceito de contemporâneo de Agamben é também uma indicação que se articula com o que nos interessa nesses tempos sombrios: “A contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este, e ao mesmo tempo, dele toma distância … e ainda, contemporâneo é o que mantém fixo o olhar no seu tempo para nele perceber não as luzes, mas o escuro … é também aquele que recebe em pleno rosto o facho das trevas que provém de seu tempo.” A partir do que Agamben nos traz, é bom retomar também a maneira como Lacan encerra o seu Escrito A psicanálise, razão de um fracasso:

“Quando a psicanálise houver deposto as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização ( mal-estar que Freud pressentia) é que serão retomadas – por quem? – as indicações de meus Escritos.”

 

Maria do Carmo Motta Salles

Membro do Ato Freudiano Escola de Psicanálise de Juiz de Fora


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2 de junho de 2017by Ato Freudiano0

Vamos correr por que o lobo está vindo?¹

Lilian Freire²

Esta comunicação alinhava um trabalho realizado ao longo de 2004, ano em que muito se falou sobre a formação de analistas e a necessidade de um posicionamento ético de todos aqueles que são afetados pelo saber inconsciente e acolhem seus efeitos. A intenção é deixar em aberto essas questões para novas e futuras indagações.

Fazer com que a hiância permaneça aberta foi o trabalho de Freud, que asseverou serem inconciliáveis o saber inconsciente e o modelo acadêmico. Esta questão está nos primórdios do movimento psicanalítico, momento inaugural em que a prática médica encontrou seu limite. Freud propôs algo distinto e radical: falar, construir um saber singular, romper com as regulamentações que normatizavam o desejo. Em 1900, o cenário era esse, mas parece não ter mudado: a ordem médica ainda se orienta a partir de um saber fechado e mecânico sobre o corpo. Em outro extremo – visando reintroduzir em seu campo a dimensão de sujeito que a ciência faz calar – está a psicanálise, situada em um cenário de burocratização das instituições, regressão à ordem biologizante, conformismo à normatização da práxis psicanalítica, estabelecimento de um comércio próprio.

Os cenários que constituem os séculos XIX e XX são, então, os mesmos? A expansão do capitalismo comanda as relações humanas e favorece o mercado de fármacos; o desenvolvimento tecnológico seduz e fala de uma organização planetária que vende a ilusão de totalidade e unidade, o que leva o sujeito a renunciar a si mesmo. Ficamos aí reduzidos à mídia, que precisa de um mercado consumidor em expansão e propõe políticas de universalização, sujeitos que se igualem em suas reivindicações. A ciência, com seu prestígio ampliado por sua aplicabilidade técnica, critica e explica os fundamentos da vida social. Questionando as tradições, a ciência tornou-se a religião do século XX, mas não colocou nada no lugar daquilo que destituiu e que tinha seu sustentáculo na história, na cultura, na religião e nos mitos.

Na prática analítica encontram-se a proliferação do acting-out e o consumo do corpo e de gadgets variados que satisfaçam a pulsão escópica. Com tantas ofertas, o sujeito se perde continuamente, o que é um paradoxo, já que visa justamente se localizar. Acting-out e consumo (de seja o que for) são respostas a essa declinação da função do Nome do Pai como intervenção que faz corte no gozo do Outro materno. Mas são respostas falaciosas, pois, como efeito desta declinação, escutamos o chamado: “vamos brincar na floresta enquanto o Sr. Lobo não vem”. Viva o gozo! Assim, o mundo repete monotonamente seus espaços, propondo ao sujeito que qualquer lugar pode ser seu mundo. O problema é que o sujeito não consegue se encontrar em lugar nenhum.

Certamente não foi este o propósito de Freud, que propôs uma abertura ao inconsciente, restaurando o lugar do sujeito: ele tem o que dizer. Para a psicanálise, que faz um contraponto e caminha na contra-mão deste chamado, ainda vale a ética cética que se encontra na proposta freudiana: uma ética que não dá certeza sobre os resultados, não promete a cura ou a salvação, uma ética que não garante a garantia. É a ética centrada no ato e que dá a liberdade para intervenções diferentes que o paciente reclama. Em suma: é a ética da invenção. Mas invenção de quê?

O que está no cerne da invenção é o ato de seu autor que aposta no ineditismo para romper com a reprodução automática. É à invenção que Freud e Lacan recorrem quando avistam os impasses que comprometeram a psicanálise. Mas cada impasse é um novo impasse e é preciso que se faça uma subversão do sujeito, desalojando-o de sua posição sintomática frente ao discurso do mestre, proferido na universidade e pela ciência. O novo é um desconcerto que fura o instituído, o habitual. Talvez a proposta feita pela psicanálise seja uma explicação possível para a mais recente evocação que parte do poder público e que atinge a todas as dimensões produtivas: regulamentar.

Ao verificar uma confusão entre os termos regulação e regulamentação, me propus fazer uma distinção. A regulação faz parte da lei simbólica desde sua constituição e é necessária. Ser regulado é estrutural do sujeito, assujeitado às leis do inconsciente, o que não implica que a invenção seja inibida. Já a regulamentação é de outra ordem, visa criar a ilusão de avanço pela via de um controle; é regra, um resumo de um conhecimento explicativo que diz como inventar. A invenção, como produto singular e inédito de seu autor, não viceja nas regras e normatizações. A regulamentação é a tentativa de calar o inconsciente, de velar o que suas formações revelam; é a penúltima cartada da cultura para conseguir esse efeito de obturar a fenda que o desejo abre e que se abre para o desejo. Depois disso, só há, como último recurso, a “caça às bruxas”.

Todas as tentativas de responder ao desconhecido e estranho, falharam. E ainda assim persiste nas ruas a duradoura oferta de uma rápida certeza.

Diplomada pela União Umbandista dos Cultos Afro-Brasileiros, Orientadora Espiritual, convida para uma consulta. Com a certeza de resolver seu problema.

SIGILO ABSOLUTO

Seus trabalhos são rápidos e garantidos, com os búzios ou as cartas você terá a resposta para suas dúvidas no Amor, no Trabalho, na Saúde e nas Finanças, Problemas Espirituais e Familiares.

Dê uma oportunidade a sua felicidade e faça hoje mesmo uma consulta…”

O acesso a esse preciosismo é indiscriminado, as filipetas são distribuídas nas ruas, revelando, pela enorme variedade de nomes de videntes e pela quantidade de propaganda acessível, o que o povo anseia. A prática do Oráculo é mais ancestral que o logos, pois os homens sempre buscaram respostas e garantias de vida, de riqueza, de fartura, de vitórias, de bem-estar. Mas, se no século VII a. C., o dom divino da Pitonisa exigia o trabalho de elaboração e interpretação daquele que buscava conhecer (a verdade, o futuro, a ascendência), hoje o oráculo tem outra função: não diz mais a verdade do sujeito, já que ninguém a quer. O oráculo de hoje, como a ciência, vende a ilusão de que há uma garantia de sucesso, pois há necessidade de resposta, da certeza de que a felicidade não é um conceito idealizado e de que poderemos driblar o desconforto e a morte.

A astrologia, a religião, a ciência, a tecnologia, o mercado, a pedagogia da felicidade, tentam oferecer o conforto físico e espiritual. Conforto que a psicanálise, ao apostar na hipótese do inconsciente, sabe ser impossível em sua totalidade e, para que ela não denuncie essa impostura, é necessário que silencie. Por isso também ela é posta em todo lugar, falada e aplicada aos mais diversos psicologismos e práticas de higiene mental. Mas, no tempo do “time is money” sua práxis é por demais lenta e, por isso, inaceitável. É preciso adaptá-la à brevidade das psicoterapias.

Se o “Freud explica” retornou como chiste, devido ao amplo acesso a Freud e à psicanálise, veiculado pela TV e na literatura de jornal, o que vemos retornar a partir de Lacan? Desconhecido pelo grande público, Lacan não é matéria para chistes. Circunscrito a uma comunidade bastante restrita de psicanalistas e intelectuais, o texto de Lacan pode favorecer o exercício de vaidade: permite que os jargões circulem depressa e banalmente, sem nenhum esforço de produção. Todas as expressões que custam muito trabalho para serem situadas no discurso analítico são esvaziadas.

No mito de Narciso, Eco, ninfa do bosque, se apaixona por sua beleza. Durante uma caçada, o jovem herói se perde de seus companheiros e chama por eles. Ao entrar em uma caverna é seguido por Eco que responde ao chamado de Narciso com uma proposta de amor. Mas não é Narciso quem responde e sim as palavras de Eco que se desdobram nas paredes de pedra. Para ela, no entanto, o som de sua voz lhe soa como se fossem palavras proferidas por Narciso, que, na verdade a rejeita. Eco fixa-se em suas próprias palavras, fascinada pela possibilidade de que fossem as respostas queridas vindas do outro amado. Abandonada, Eco definha e torna-se pura voz, desaparecendo no ar. Subsiste como a última palavra de um dito seu, sem embaraços, pois não há efeitos, visto que não há uma cadeia de significantes que os sustente.

As palavras portam um quê de sedução e podem nos lançar na armadilha da maldição de Eco. Ao ouvirmos apenas as palavras, ficamos presos numa teia de aparências, onde tais expressões são encontradas, castigadas e presas fáceis para o equívoco e para o desvio. É em função de equívocos e desvios inevitáveis, que a psicanálise deve escutar-se, verificando incansavelmente se os nomes de Freud e Lacan estão, ou não, atendendo à demanda por um messias, deste reformador do corpo social que tem por função preencher os hiatos. Se nos propomos a tal mitificação, nos propomos também a nos desviar da causa psicanalítica e nos entregamos à regulamentação do dia que nos permite brincar no bosque enquanto o Sr. Lobo não vem.

É mais fácil nos submetermos aos ditos dos líderes? É mais garantido quando a clínica segue os mesmos feitos de Freud ou os de Lacan? É mais confortável quando não temos que inventar nossa ação? É mais seguro quando nos atemos a uma “tecnocracia da cura”? Produz menos sofrimento quando o saber de manual consegue suplantar o saber inconsciente? Se as respostas a todas essas perguntas é sim, também será para o título deste trabalho: realmente, vamos correr, afinal, o Sr. Lobo está vindo! Um lobo que designa muitas coisas: desejo, angústia, falta, castração, causa, invenção, singularidade, mal-estar… E, para aqueles que responderem positivamente, ainda resta a ciência, a religião, a universidade, o mercado, a astrologia e o sintoma como companheiros de percurso. Mas é somente o que resta.

Retomo as palavras de Freud em seu pós-escrito ao texto A Questão da Análise Leiga. É preciso antes pontuar que este pequeno adendo é uma reconquista do que Jones e Eitington fizeram perder na tentativa de conciliarem as posições de Americanos e Europeus quanto a esta questão. Se a promessa que Eitington faz a Freud foi de suprimir apenas linhas, notamos sua conformidade implícita na supressão de duas páginas e meia. Ambos – Jones e Eitington – correram do lobo, com certeza. Mas Freud não o fez, recusando-se “à evidente tendência norte-americana de transformar a psicanálise numa simples empregada da psiquiatria”³. E não só da medicina, mas também do mercado, da mídia, da religião, do academicismo e do sucesso.

“(…) Certo, time (is) money, mas não se compreende porque deve converter-se em dinheiro com tanta pressa. Também conservaria seu valor de dinheiro se andasse mais devagar (…). Nas nossas regiões dos Alpes, diz-se habitualmente quando dois conhecidos se encontram ou se despedem: deixa o tempo. Nós já fizemos muita gozação sobre esta fórmula, mas frente à precipitação americana, aprendemos a discernir quanta sabedoria de vida se encontra nela”⁴.

 


 

¹ Trabalho inédito apresentado na Jornada de Encerramento do Ato Freudiano, em 11 de dezembro 2004. O título, e sua referência ao lobo, remete à história dos três porquinhos.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano.

³ Este fragmento da carta de Freud a Schmier de 5 de julho de 1938, foi destacado do texto “A análise leiga, uma questão crucial para a psicanálise”, In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32.

⁴ Pós escrito a “A questão da psicanálise leiga”. In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32, pp. 15.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000

FREUD, Sigmund. Psicanálise e Medicina (Análise Profana). Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 141-221

VEGH, Isidoro. Por que ainda a psicanálise no tempo do DSM IV e as Psicoterapias e Terapias Alternartivas. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VEGH, Isidoro. A psicanálise e seus interrogantes para o final do século. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VIDAL, Eduardo. Pós-escrito a “A questão da análise leiga”. Rio de Janeiro, Publicação da Escola Letra Freudiana, Ano XXII, nº 32, 2003, p. 12-17


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2 de junho de 2017by Ato Freudiano0

Pontuação de “Motivos do crime paranóico: o crime das Irmãs Papin”¹

Lilian Freire²

Em 1933, os jornais noticiaram o Crime das Irmãs Papin como “O Massacre de Mans”. Christine (28 anos) e Léa (21 anos) Papin trabalhavam há vários anos na casa de uma família burguesa. Eram consideradas criadas-modelo e também criadas-mistério devido à indiferença que demonstravam. O que chamou a atenção da opinião pública foi a falta de motivos para o crime e isso provocou comoção e inquietação.

 

O Crime

Na noite do dia 2 de fevereiro, as irmãs, inábeis, provocaram um curto-circuito elétrico, o que resultou em uma provável cena de mau humor e censura das patroas – mãe e filha – que retornavam de um passeio. Por coisas menos importantes, elas já se mostravam indispostas em relação às irmãs. As declarações de Christine sobre a reação das patroas variavam. O ataque das irmãs foi súbito, simultâneo, levado ao paroxismo do furor: cada uma delas subjugou uma das patroas; arrancou-lhe os olhos das órbitas e as espancou. Com as patroas ainda vivas, esmagaram suas faces com qualquer instrumento que tinham à mão. Deixando à mostra o sexo delas, cortaram as coxas e nádegas de uma para ensanguentar as da outra. Em seguida, lavaram os instrumentos, a si mesmas e deitaram-se na mesma cama, com a conclusão “Agora tudo está limpo!”³, fórmula que parecia ter o tom da desilusão, sem qualquer emoção após a “orgia sangrenta”.

 

O Inquérito

No julgamento, não fizeram queixa, não declararam ódio ou motivo para o crime. A única preocupação era a de partilhar a responsabilidade pelo crime. Três médicos peritos não apontaram sinal de delírio, demência ou de distúrbio atual psíquico ou físico. Nenhum dado preciso deu alguma indicação, ouvia-se apenas impressões: uma tentativa atrapalhada de emancipar Léa, junto ao Prefeito; a opinião do secretário-geral, que as achou “meio piradas”; o testemunho de um delegado que as considerava “perseguidas”; eram unidas por uma afeição singular; eram imunes a qualquer outro interesse; passavam os dias de folga juntas e dentro do quarto; tinham um pai alcoólatra e brutal que, segundo diziam, violentou uma das filhas, negligenciando a educação delas. Nenhum destes dados foi levado em consideração.

Na prisão, Christine e Léa foram separadas e após cinco meses, Christine teve uma crise de agitação violenta, com alucinações aterradoras. Numa segunda crise, tentou arrancar os próprios olhos, ficou apenas com algumas lesões e foi preciso contê-la com camisa-de-força. Ela fazia exibições eróticas e surgiram sintomas melancólicos: depressão, inapetência, auto-acusação com atos expiatórios repugnantes e frases delirantes. Christine declarou que simulara estes estados, mas Lacan adverte: esta declaração não pode ser considerada a chave real de sua natureza, pois o sentimento de jogo que o sujeito sente não explica nem exclui seu comportamento mórbido.

Em 30 de setembro, o júri condenou as irmãs Papin e ao compreender que seria decapitada na praça de Mans, Christine recebeu a notícia de joelhos. Mas as características do crime, bem como os problemas de Christine na prisão, a estranha vida que as irmãs levavam, convenceram os psiquiatras que eram irresponsáveis por seus atos. Dr. Logre ao ver a recusa de que um contralaudo fosse feito, assumiu uma posição de defesa e construiu hipóteses sobre a presumível anomalia mental das irmãs: ideias de perseguição, perversão sexual, epilepsia ou histero-epilepsia.

 

A Discussão teórica de Lacan

Para Lacan, a indiferença que marcava as irmãs não era uma resposta à perda de simpatia dos patrões. Havia entre patrões e empregadas um silêncio que não podia ser vazio, mesmo que fosse obscuro para os dois lados. Lacan explora a paranoia como entidade mórbida que, apesar da revisão feita pela psiquiatria, apresenta três traços clássicos:

  1. Delírio intelectual que varia de ideias de grandeza às ideias de perseguição;
  2. Reações agressivas, com frequência, homicidas;
  3. Evolução crônica.

 

No que concerne à estrutura desta psicose, há duas concepções que se opõem:

  1. Considera a paranoia como o desenvolvimento de uma “constituição” mórbida, de um vício congênito do caráter;
  2. Considera seus fenômenos elementares como distúrbios momentâneos da percepção qualificados de interpretativos devido à sua analogia aparente com a interpretação normal: o delírio seria um esforço racional do sujeito para explicar essas experiências; o ato criminoso seria uma reação passional motivada pela convicção delirante.

 

Para Lacan, essas duas concepções são insuficientes. Em sua leitura destaca a importância vital das relações sociais que incidem sobre cada uma das três ordens de fenômenos. A noção dinâmica de tensões sociais é, para ele, um fator que explica os fatos da psicose, na medida em que o estado de equilíbrio ou ruptura destas tensões define a personalidade no indivíduo. Lacan eleva a pulsão agressiva que se resolve no assassinato a fator fundamental por aparecer como afecção que serve de base à psicose. A pulsão é inconsciente e seu conteúdo intencional só pode se manifestar mediante compromisso com as exigências sociais integradas pelo sujeito, exigências que se traduzem como camuflagem dos motivos, que é precisamente todo o delírio. Em si mesma, esta pulsão é marcada pela relatividade social e tem sempre a intenção de um crime, seja por vingança ou por punição, procedendo dos ideais sociais e se identificando, muitas vezes, com ato de moralidade com o alcance de expiação (autopunição). Eleição da vítima, sua eficiência mortal, os modos de desencadeamento e de execução são as características objetivas do crime que variam com os graus de significação humana da pulsão fundamental. São esses graus que comandam a reação da sociedade em relação ao crime paranoico: é uma reação ambivalente que leva ao contágio emocional do crime e às exigências punitivas da opinião pública.

O horror que despertou deu, ao crime, o valor de imagem atroz, mas simbólica nos seus mais hediondos detalhes, incluindo nas metáforas do ódio mais usadas, como “eu lhe arrancarei os olhos”. Tais metáforas recebem sua execução literal. Ao aplicar o máximo da pena, a consciência popular revela o sentido que dá a este ódio e talvez se engane quanto ao sentido real da aplicação da pena máxima. O provérbio “compreender é perdoar” se submete aos limites de cada comunidade humana. Fora deles, compreender, ou acreditar compreender, é condenar.

O conteúdo intelectual do delírio se apresenta como superestrutura que, ao mesmo tempo, justifica e nega a pulsão criminosa. Para Lacan, ele se submetido às variações desta pulsão, à queda que resulta de sua satisfação. No Caso Aimée, o delírio se desvanece assim que o ato foi cometido. As insuficiências das descrições e explicações clássicas afirmaram a estabilidade dos delírios paranoicos, quando há, apenas, constância da estrutura, e levaram ao desconhecimento da existência destas variações. Com isso, os peritos se equivocam em suas conclusões, o que explica o embaraço diante dos crimes paranoicos, produzindo mais incertezas.

O delegado foi o único que deu uma pista de formulação de ideias delirantes antes do crime. A imprecisão de seu depoimento, no entanto, não poderia ser motivo de sua rejeição no tribunal, visto que qualquer psiquiatra sabe que a indefinida esteriotipia das afirmações dos paranoicos, antes que se explicitem em fórmulas delirantes, produzem um estranhamento que não pode ser desconsiderado. Além disso, as funções de triagem dos centros da polícia forneciam o hábito desta experiência.

Na prisão, Christine manifestou vários temas delirantes, a partir dos quais Lacan qualifica os sintomas típicos do delírio: desconhecimento sistemático da realidade, com a crença de que as patroas haviam voltado em outro corpo e as crenças ambíguas expressas em frases como “Creio mesmo que numa outra vida eu devia ser o marido de minha irmã”. Lacan aponta que há uma certa ambivalência constante nas crenças delirantes, desde as formas afirmativas dos delírios fantásticos (nas quais o sujeito reconhece uma “dupla realidade”) até as formas interrogativas dos delírios de suposição (nas quais a afirmação da realidade lhe parece suspeita).

A análise dos conteúdos e das formas, permitiu a Lacan retirar as duas irmãs da classificação geral limitada de paranoia, e ele considera que as formas da psicose nas duas irmãs são, senão idênticas, pelo menos correlativas. No decorrer das investigações, considerou-se impossível que a mesma loucura fosse compartilhada por duas pessoas, ou que a revelassem simultaneamente. Lacan aponta que tal afirmação é falsa. Os delírios a dois estão entre as formas das psicoses reconhecidas e se produzem eletivamente entre parentes próximos (pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs). Seu mecanismo dependeria, em certos casos, da sugestão exercida por um sujeito delirante ativo sobre um sujeito débil passivo

Lacan oferece outra concepção da paranoia que explica mais satisfatoriamente o paralelismo criminal das irmãs. A pulsão assassina que ele entende ser a base da paranoia seria apenas uma abstração insatisfatória, se não estivesse controlada por uma série de anomalias correlativas dos instintos socializados e se não se pudesse considerar essas anomalias pulsionais como contemporâneas em sua gênese. Homossexualidade, perversão sado-masoquista, são os distúrbios instintivos que somente a psicanálise soube desvelar. A partir de suas experiências com a escuta de paranoicos, Lacan hesitou diante da afirmação da existência de relações sexuais entre as irmãs, e aponta a precisão do Dr. Logre ao usar o termo sutil “casal psicológico”. Os psicanalistas, quando derivam a paranoia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de “larvar”: “Essa tendência homossexual só se expressaria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor”⁴.

Lacan retoma Freud, no artigo “Sobre alguns mecanismos neuróticos no crime, na paranoia e na homossexualidade”, em que ele não fornece a chave do paradoxo, mas os elementos para encontra-la: nos primeiros estádios da sexualidade infantil, há uma redução forçada da hostilidade primitiva entre os irmãos. Freud aponta que uma inversão anormal (de hostilidade em desejo) pode se produzir. Esse mecanismo gera um tipo especial de homossexuais entre os quais predominam os instintos e as atividades sociais. Lacan reconhece esse mecanismo como constante. A fixação amorosa é a condição primordial da primeira integração nas tendências instintivas do que se chama as tensões sociais. É uma integração dolorosa, na medida em que a civilização exige o sacrifício pulsional de seus membros: este é o vínculo com a intencionalidade pessoal do sofrimento infligido que constitui o sadismo. Esta integração se faz segundo a lei da menor resistência por uma fixação afetiva narcísica ainda muito próxima do eu solipsista⁵, em que o objeto escolhido é o mais semelhante ao sujeito: esta é a razão de seu caráter homossexual. Esta fixação deve ser ultrapassada para chegar a uma moralidade socialmente eficaz.

Nos paranoicos, esta evolução não vai além do primeiro estádio e sabe-se que sua ação estava presente na vida das irmãs. A observação dos casos múltiplos de paranoia associada à sondagem social levou Lacan a considerar a estrutura das paranoias e dos delírios vizinhos como tributários deste tipo de complexo fraterno. O mesmo ele observou no caso Aimée, em que a ambivalência afetiva para com a irmã mais velha dirigiu o comportamento autopunitivo da paciente. No curso de seu delírio, Aimée incorporou em outras personagens as acusações de seu ódio amoroso, num esforço de se libertar de sua fixação primeira. Mas cada uma das perseguidoras era apenas uma nova imagem, prisioneira do narcisismo de Aimée, da irmã da qual ela fez seu ideal. Por serem apenas imagens, Aimée amou todas as perseguidoras.

O “mal de ser dois” de que sofrem os paranoicos, não os liberta do narcisismo. Aimée atinge aquela que ela odeia justamente por representar o ideal que ela tem de si mesma. A necessidade de autopunição, o sentimento de culpa, também estão presentes nas Irmãs Papin, nem que seja no ato final de Christine em ajoelhar-se. Mas parece que, entre elas, não podiam instaurar a distância necessária para se matar, pois, siamesas, formavam um mundo fechado. Dr. Logre, aos ler seus depoimentos após o crime, comenta: “tem-se a impressão de estar lendo duplo”. Com os únicos meios de seu isolamento, elas devem resolver seu enigma: o enigma humano do sexo. Os paranoicos podem arquitetar loucuras sobre o enigma do falo e da castração feminina. É, portanto, possível reconhecer, nas confissões tímidas do sujeito dito normal, as crenças que ele cala e que acredita calar porque as considera pueris, quando, de fato, ele se cala porque sem o saber ainda adere a elas.

Na tarde do crime, que gerou a ansiedade de uma punição iminente, as irmãs associaram à imagem das patroas, a miragem de seu mal. O que elas detestavam nas vítimas, era a própria aflição. Elas arrancaram os olhos como num ato de castração e a curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as mais antigas eras, foi o que as animou quando desejaram suas vítimas, quando elas perseguiram, em suas feridas o que Christine, mais tarde, chamou de “o mistério da vida”.

 


 

¹ Este texto é a pontuação do capítulo “Motivos do crime paranoico: o crime das Irmãs Papin”, da tese de Jacques Lacan (1932), Da psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade, como contribuição à atividade Núcleo de Investigação de Psicoses, do Ato Freudiano.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano.

³ LACAN, p. 382.

⁴ LACAN, p. 388

⁵ SOLIPSISMO: doutrina que defende que a única realidade no mundo é o eu.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, Jacques. Motivos do crime paranoico: o Crime das Irmãs Papin. In: ____. Da Psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987, p. 381-390.


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1 de junho de 2017by Ato Freudiano0

A biblioteca e seus ritmos: produção ou estagnação¹

Lilian Freire²

Uma biblioteca pode responder por dois efeitos: produção quando é lugar de oferta e procura, gerando movimento. Estagnação quando se burocratiza, fechando-se para o leitor.

Em A questão da Análise Leiga, Freud explica ao “locutor imparcial” que não basta o estudo teórico, é preciso análise pessoal. Ler é importante³: são poucos os objetos que encontram no sonho uma representação, embora suas relações simbólicas sejam vastas⁴. A linguagem usual⁵ fornece pequena parte delas; o mesmo simbolismo é matéria de mitos, contos, provérbios, canções populares, da linguagem corrente, da imaginação poética, e dos sonhos. Freud e Lacan exigem que o analista seja letrado: ele não pode se recusar a esta imersão na cultura⁶. O adjetivo “culto” é apenas consequência do trabalho e a Escola é, neste contexto, fundamental.

Letrado e Iletrado não devem ser usados como qualificativos, mas apontam para a posição do leitor diante do texto. C.S. Lewis dá ênfase ao “como” se lê e não ao “o que” se lê. Não faz uma teoria comportamentalista, pois é o desejo que está na base da leitura. Lewis não fala com os leitores, fala para a crítica literária⁷.

Letrado é a posição do leitor que insiste, aberto para o que pode receber do livro e, para isso, se abstém de pensamentos, juízo prévio e objetivos pré-programados, pondo-se fora do caminho ao entregar-se à invenção do autor. O letrado é aquele que fecha o livro, sem se fechar para os seus efeitos. Mas estar limpo diante de um texto é uma condição ideal, pois a própria experiência da leitura contamina o leitor que tem expectativas de encontrar algo, seja da ordem de uma resposta, de um prazer, de uma fuga, de uma comoção qualquer.

Iletrado é a posição do leitor que repete, descartando o livro assim que é lido: fecha-se ao que o livro pode fazer por ele,transformando o texto em diretriz de vida, matéria de repetição pela via da citação, eximindo-se de fazer a leitura própria. Lewis conclui: todos são iletrados em determinado momento da vida, quando crianças. A aposta é que se possa crescer e abdicar do narcisismo, a marca do infantil. Como Letrado e Iletrado são posições, pode-se passar de uma a outra, o que não implica em um julgamento de valor, seja da obra ou do leitor⁸.

Lewis faz do mito a fronteira que delimita estas duas posições: o iletrado pergunta: “O herói vai escapar?”. O letrado sente: “Nunca escaparei disto. Isto nunca escapará de mim.” Os textos de Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues geram resistência e embaraço para atores, críticos e leitores: estes efeitos derivam do fato de que tais textos têm a estrutura do mito, sem se prestar a identificações imaginárias? Não colocariam o leitor diante da posição que ocupa, ao desalojar o sentido e a compreensão? Também diante da poesia, não há letrado que se garanta: pura letra, a invenção é dada pela palavra e pelo ritmo que circula, arrastando o leitor para o campo da fala. Ler em voz alta, seja a poesia em verso ou em prosa, leva o leitor a experimentar o que é da ordem significante.

Mas Lacan adverte: “ler” não é o mesmo que “ler a letra”, revelando que não há relação entre literatura e psicanálise. Apenas um ponto, em uma zona de intercessão, permite este encontro, onde “algo” tem a face de “umbigo”, por ser insondável: um texto escapa; a letra lida, esta que é o suporte do sonho, não se pode dizê-la. O irrepresentável que persegue o autor é o mesmo irrepresentável que persegue o sonhador, e não porque possa se forçar uma equivalência entre ambos, mas porque esta é a lógica do inconsciente. Talvez, ao garimpar⁹ livros, o leitor busque a representação deste irrepresentável, para se aproximar disso que o determina e que ele não sabe dizer.

Lacan, em entrevista a Granzotto, define a psicanálise como uma prática em que um fala e outro escuta. O analista dá “somente as respostas que incita seu desejo”. Esta fórmula lacaniana inspira à reflexão: “Como pegar o vivo do texto? O que um texto nos ensina?” Seja analista ou não, o leitor deve estar aberto para sofrer os efeitos decorrentes da leitura e um deles pode ser o silêncio. Lacan produziu um saber sobre o “como ler” e o “ensino que vem deste campo” ao ler e construir um saber próprio, a partir daquilo em que foi tocado.

Jean-Guy Godin enfatiza o “analista letrado”, para perguntar: “Como produzir um saber que também toca no campo da psicanálise?” No encontro com a literatura, o analista é efeito daquilo que o causa. A psicanálise pode responder à literatura ao produzir um saber novo, é a resposta de Godin, que aponta para o fazer de Lacan em sua leitura de “Hamlet”: Hamlet é um personagem, mas não de caso clínico, não interessa se é histérico ou obsessivo. A peça discorre sobre o lugar do desejo. Se a leitura produz gozo e o analista, diante da literatura deve-se deixar afetar, como produzir um saber novo? Será que não se trata, justamente, de ser enlaçado a este campo pela via da insistência e não da repetição sintomática? Insistência que levaria a uma passagem do dito ao dizer: o “Ser ou não ser…” deixa de ser a citação erudita; torna-se o espaço onde se pode ler sobre a covardia que leva o sujeito a abrir mão de seu desejo, até que só reste a morte como escapatória. O que isso nos ensina?

Se a idéia de um analista leitor é arrogante, a idéia de um analista autor é indispensável. A produção do saber novo exige o público, um esmerar-se com a palavra, a passagem do signo ao significante. O escrito é o produto que instaura a interlocução quando o saber textual está em campo. Assim se acede interminavelmente à posição de letrado, onde se pode suprimir os clichês, os bordões esvaziados e os jargões.

A proibição do acesso aos livros é o recurso elementar do autoritarismo. “Farenheit 451” descreve um cenário em que o sujeito perde a condição de escolher, onde individualismo, drogas legítimas, sexo e conforto dão conta do mal estar. Um grupo faz resistência com bibliotecas clandestinas, que, ao serem descobertas, são destinadas ao fogo: este grupo, em fuga, cria uma sociedade composta de “pessoas-livro”, recurso utilizado para manterem vivas a história e a literatura.Também ali, o destino dos livros, após serem memorizados, é a fogueira. O mesmo Farenheit? Então, quando a pessoa-A República estiver próxima da morte, deverá passar para outro, o que decorou. As pessoas-livro padecem do mesmo congelamento? Esta herança pode ser recusada? Segundo Borges,

Os antigos não professavam nosso culto ao livro – algo que me surpreende – pois nele viam apenas um substituto da palavra oral. Aquela frase sempre citada – scriptamanent, verba volant¹⁰ – não significa que a palavra oral seja efêmera, mas, sim, que a palavra escrita é algo duradouro e morto. Por outro lado, a palavra oral tem alguma coisa de fugaz, de inconstante. Fugaz e sagrado, como disse Platão. Todos os grandes mestres da humanidade foram, curiosamente, grandes mestres da oratória.

… deliberadamente, Pitágoras nada escreveu. Não escreveu porque não quis tornar-se prisioneiro da palavra escrita. Sentiu, sem dúvida, que a letra mata e o espírito vivifica – o que, mais tarde, viria a ser citado na Bíblia.

De que ditadura se trata: daquela instaurada por nossa realidade psíquica ou da ditadura da lei? Bradbury¹¹ declarou que quis apenas mostrar o quanto amava os livros, denunciando que a TV usurpa o lugar da literatura e leva as pessoas a um conformismo acrítico. No engajamento a uma obra, pode-se apreender algo que tocaria no ponto preciso em que o leitor está ancorado à sua própria questão fantasmática? Esta leitura pode ser feita ou seria torcer o texto para caber na teoria? Godin indica que uma leitura a mais pode ser feita, mas o que realmente interessa à psicanálise é que se faça uma leitura que instaure um saber novo.

Farenheit ilustra a covardia, o desejo, a coragem e também a biblioteca viva: espaço onde o saber textual e o saber referencial se contêm, em movimento. A biblioteca, particular ou pública, tem que ser viva: possibilita o acesso ao saber próprio. Para um analista a biblioteca é inevitável, por ser lugar de trabalho, e representa mais do que o fazer burocrático por vetorizar o ensino e/ou a transmissão como suporte e baliza de um percurso de formação. Novamente é Borges a fonte:

 

Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

… a memória da humanidade. Isso é o livro. …

Microscópio e telescópio apontam para a pulsão escópica. O engajamento à leitura responderia à pulsão, visto que olhar e voz são objetos pulsionais (por isso ler em voz alta é um trabalho de valor ao analista)? Ler é ato, na medida em que deixa, como lastro, um resto. Mas para que tal projeto seja viável, é necessário que este instrumento, portátil e possível, o livro, esteja disponível. O olhar que a biblioteca exige é, portanto, democrático, na medida (e somente nesta perspectiva) em que possibilita o acesso, por qualquer um, a este instrumento. Exige uma posição ética e decidida: decidida porque requer esforço além da tarefa; ética porque revela, no manejo da regra, o ato de manter o significante em circulação. Não é escolha da vontade, é convocação do desejo.

 


 

¹ Trabalho inédito apresentado na Jornada de encerramento do ato Freudiano, em 2013

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano, Escola de Psicanálise de Juiz de Fora.

³ Freud põe em relevo a mitologia: “Também aqui o ajudará a Mitologia a acreditar na psicanálise. O mesmo Cronos, que devora seus filhos, castrou antes a seu pai Urano e foi, por sua vez, castrado por seu filho Zeus, a quem a astúcia da mãe salvou de morrer com seus irmãos” (pag. 174)

⁴ Conferência X, O Simbolismo no Sonho.

⁵Em “História do Movimento Psicanalítico”, Freud afirma que a Associação Livre é pobre no que diz respeito ao simbolismo.

⁶ O ensino psicanalítico compreenderia também matérias estranhas ao médico e a que não recorre na sua atividade profissional: História da Civilização, Mitologia, Psicologia das Religiões e Literatura. Sem uma boa orientação nesses campos não pode chegar o analista a uma perfeita compreensão de grande parte de seu material. (pag 216).

⁷ (…) Para pessoas assim, ler torna-se, com frequência, mero trabalho. (…) Lembro-me bem da reprimenda de que fui alvo da parte de um homem para quem, quando nós saímos de uma sessão de exames, tive a falta de tato de mencionar um grande poeta sobre o qual muitos candidatos haviam escrito. Sua atitude (esqueci as palavras exatas) poderia ser expressa da seguinte maneira: “Bom Deus, você ainda quer continuar com isso depois do expediente? Você não ouviu o sinal tocar?” Só consigo sentir pena por aqueles que são reduzidos a essa condição por necessidade econômica e excesso de trabalho. Infelizmente, ambição e tendência ao antagonismo também produzem o mesmo resultado. LEWIS, C.S. Um experimento na crítica literária. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 12-13.

⁸ Para um, uma obra pode capitalizar além do que texto ensina ou transmite, e não pode ser qualificada como uma boa obra, no universal. Se para outro, a mesma obra não produz tais efeitos, não é da ordem da verdade paranoica que ela seja ruim.

⁹ “O artista, como o garimpeiro, vive de procurar aquilo que não perdeu”. Cildo Meireles.

¹⁰ NOTA DO AUTOR: Tradução “textos permanecem, as palavras voam”.

¹¹ Ray Bradbury é autor do livro Farenheit 451, adaptado para o cinema, e que foi dirigido por François Truffaut, em 1966.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luís. O livro. IN: BORGES, Jorge Luis. Cinco visões pessoais. Brasília, UnB, 1996, p. 5-11.

FREUD, Sigmund. Psicanálise e Medicina (Análise Profana). Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 141-221

FREUD, Sigmund. História do Movimento Psicanalítico. Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 5-72

FREUD, Sigmund. Conferência X: O Simbolismo no Sonho. Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume, p. 165-189

GODIN, Jean-Guy. Notas acerca da leitura de um texto literário no discurso analítico. Rio de Janeiro. Publicação da Escola Letra Freudiana, Ano XVII, nº 26, 2000. p. 93-100. Tradução: Olga Maria Carlos de Souza.

LACAN, Jacques. Entrevista a Granzotto Não pode haver crise da psicanálise. Juiz de Fora, Revista do Ato Freudiano, ano 1, nº 0, p. 39-50. Tradução: Orris Ricardo Canedo de Almeida

LEWIS, C. S. Um experimento na crítica literária. São Paulo, Editora UNESP, 2009.

SCOVINO, Felipe. Cildo Meirelles. Coleção Encontros. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009