Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

Práticas da Letra e psicanálise 03/03/2018

David Lynch – A vida de um artista – Arte e vida 

 

Bom, em 2011 inauguramos este espaço de trabalho: Práticas da letra e psicanálise. Desde então, temos buscado garimpar na fala de artistas, poetas e escritores o ponto de tensão que se impõe a eles e os empurra a uma posição decidida, sem concessões. Passamos por vários autores e hoje estamos aqui com o sobre filme David Lynch, em que vida e arte se confundem… se entrelaçam, ou seja, estão no mesmo lugar.

Começo meu comentário com uma frase do próprio David Lynch: “eu decidi ser pintor naquele instante”. Um instante que adivinho do real, não apenas como negação, como aquilo que resiste à simbolização, mas que opera como passagem, como atravessamento… o leva a um modo de estar no mundo.

Portanto, é de uma contingência singular que retorna ao artista, como um não-sentido enigmático, como um saber desde o real, que um traçado vai se fazendo estilo. Algo lhe é imposto de fora e exige um trabalho árduo e paciente do irrepresentável que o acossa.

Clarice Lispector vai nos dizer: “escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva”. (Lispector, C – em A descoberta do mundo)

E, Marguerite Duras, também afirma: “escrever é encontrar-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escritura a salvará”.

“É isso a escritura. É o trem do escrito que passa pelo seu corpo, o atravessa. É daí que se parte para falar dessas emoções difíceis de dizer tão estranhas e que no entanto, repentinamente, se apossam de nós”. (Duras, M – em Escrever)

Essas palavras também afirmam que há uma decisão de se deixar levar por esse inominável que se impõe. Por isso, uma decisão que não permite recuos.

Cito agora outras afirmações de David Lynch: “Eu só estava interessado em meu mundo”. “Vivia com medo, mas tudo o que eu queria era pintar”.

E acrescento o que Kandinsky nos ensina: “Através da mão do artista, uma força exterior se precipita sobre o ponto fixo no plano, arranca-o e empurra-o numa direção qualquer, sua tensão concêntrica é destruída, o ponto desaparece e se torna um ser novo, com vida autônoma e submetido a outras leis, eis a linha”.

A obra se destaca, ganha vida própria… o sujeito se apaga em prol de uma economia pulsional. É um caminho, que na contramão do lugar comum, transmite algo desse estranhamento, desse indizível que o move. E, o medo, como nos diz Lynch, (o medo é um dos nomes da angústia) não o impede de ir em frente porque se submete ao desejo – “tudo o que eu queria era pintar” e o impulsiona a se endereçar ao campo do Outro, fazendo laço social.

David Lynch nos diz ainda: “Eu precisava me divertir, encontrar o meu estilo”.

Então, se há uma maldição, nas palavras de Clarice Lispector, há também um certo divertimento em ser empurrado em uma direção qualquer, sem saber o que virá.

Esse desejo decidido se aproxima do desejo de Freud, que em uma carta a Fliess (07/07/1898) quando redigia a interpretação dos sonhos, e preocupado em escrever uma obra científica, escreve:

“Eis aqui alguns resíduos de minha última investida. Eu só consigo compor os detalhes no processo de escrever. Esse processo segue completamente os ditames do inconsciente, seguindo o bem conhecido princípio de Itzig, o cavalheiro de domingo. “Itzig, aonde você vai? “E, eu sei? Pergunte ao cavalo”. Eu nunca comecei um único parágrafo sabendo de antemão onde terminaria.”

Há portanto, um desejo decidido no artista e no analista em relação à transmissão desse ponto indizível, mas há também um ponto que os distingue. Enquanto o artista tem uma via aberta que faz com que a obra – o objeto – se destaque e faça laço, o analista precisa se inserir em um laço de trabalho para  que um saber fazer se constitua. Para que um estilo possa se depurar, para que a maldição se faça com algum divertimento. Porque no campo artístico tensão e extensão se enlaçam no próprio ato do saber – fazer a obra. Para o psicanalista para que o ponto fixo se mova, faz-se necessário uma articulação entre intensão e extensão.

A Escola fundada por Lacan é o lugar que abre essa possibilidade.

“Estamos conscientes de que os resultados da psicanálise, mesmo em seu estado de duvidosa verdade, têm aspecto mais digno do que as flutuações da moda ou as premissas cegas nas quais se fiam tantas terapêuticas no domínio em que a medicina não terminou de se delimitar quanto aos critérios (os da recuperação social, não isomorfos aos da cura?) e parece até atrasada quanto à nosografia: dizemos a psiquiatria, transformada numa questão para todos.”

“É até muito curioso ver como a psicanálise serve aqui para-raios. Como, sem ela, se levaria a sério aquilo que se orgulha de opor-se-lhe? Daí um statu quo no qual a psicanálise fica a vontade mesmo que se saiba de sua insuficiência.”

“Se nos limitarmos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar seu campo não somente a um trabalho de crítica: à abertura do fundamento da experiência, ao questionamento do estilo de vida no qual ela desemboca.” (Lacan, Preâmbulo da Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris)

Então, em uma direção aposta às tendências totalizantes atreladas a ideais de visibilidade, representatividade e estatísticas plenas de sentido – a escola é um lugar que aposta que na falha do significante – algo novo possa advir e, nesse sentido, um estilo próprio e um estilo de vida se enlaçam.

Abrimos o nosso tema do ano: “O que emerge do real: angústia, sintoma e objeto”, com a contribuição decisiva de David Lynch.

Vamos também tentar dar um outro passo da política e psicanálise, que fizemos um caminho no ano passado, para a política da psicanálise.

Acho que podemos ficar animados porque tenho certeza que maldição e divertimento na direção do desejo é uma via muito mais interessante do que um outro tipo de maldição e divertimento que se instalou no campo da política.

 

Maria do Carmo Motta Salles