Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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10 de junho de 2019by Ato Freudiano0

Não-todos, não tão tolos, nem tão poucos 

Felipe Barreto Nery Coutinho

O que funciona é o mundo. O real é o que não funciona

Conviveremos, sempre, com a ameaça totalitária. Essa é a máxima que a experiência analítica e os escritos, de Freud à Lacan, nos oferecem. Do mito de Narciso, ao Welfare State, isso está pelos quatro cantos, mas também no meio, como a história do movimento psicanalítico deflagra sobre o empuxo a standardilização que se fez entrar em determinadas sociedades psicanalíticas e permeia, sobretudo, o discurso da ciência de mãos dadas com o do capital. Mas vislumbrar a unidade não resta sem efeito, sem angústia, pela simples razão de não haver uma “fórmula do que não funciona”, ou seja, ao contrário do que o otimismo governamental professa, a saúde mental não existe. O sintoma do falasser não é passível de qualquer generalização, ele insiste segundo a singularidade que o caracteriza. “Se há noção de real, ela é extremamente complexa, e, a esse título, é não apreensível de uma forma que faria um todo. Seria uma noção incrivelmente antecipatória pensar que haja um todo real”.

Se, como nos lembra Lacan,“a psicanálise não surgiu num momento histórico qualquer” e, sim, “(…) correlativamente a um passo capital, a um certo avanço do discurso da ciência”, esse avanço está condicionado ao fato de que “nenhuma experiência de analista” possa “pretender se apoiar sobre gente suficiente para generalizar”. Mas, existe aí uma exceção. Há, na natureza do ser falante, exatamente por não se tratar aí do natural, um pressuposto universal: todos doentes.

“É justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saudável. A questão é antes saber por que um homem dito normal não percebe que a fala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a fala é a forma de câncer pela qual o ser humano é afligido.”

A fala que parasita imputa ao falante o sintoma e o gozo. É o fim da harmonia do natural. Como eventualmente lembrado por Orris na condução do seminário de leitura sobre o Sinthome, e que encontramos nas palavras de Lacan logo no início de seu seminário XXII, R.S.I., “há algo que faz com que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental”. Em que medida essa debilidade se apresenta nas diversas roupagens que pretendem o tamponamento de três furos específicos que se apresentam ao falasser? Como delinear diante de tal movimento a posição e o fazer do analista, a leitura do sintoma e a formação em Escola?

Está na posição de Freud, ao resolver escutar as mulheres “demonizadas” de sua época, supor seu não-todo saber e se fazer ouvido diante do sofrimento psíquico que no corpo feminino se fazia sintoma. Com isso, simultaneamente, ele recusa, além da sugestão hipnótica de Charcot, a posição fálica, a Suficiência, perversa, com a qual o campo médico avançava no final do século XIX. É, assim, desde o seu início, condição para a existência da psicanálise e, então, para a formação dos analistas, que estes se percebam um tanto furados, não-todos.

A partir de 1971, Lacan parece adentrar cada vez mais ao pensamento lógico de forma a expor ainda mais o impasse sexual quando do encontro com o outro sexo. Ele faz da função fálica aquilo que lhe permitirá, mais adiante, diferenciar dois gozos, o masculino e o feminino. Com isso, ele formaliza a diferença entre os sexos longe de tomá-la enquanto dado puramente natural.

O que significa manter no discurso analítico esse mito residual chamado mito do Édipo, Deus sabe por que, que é, na verdade, o de Totem e tabu, onde se inscreve o mito, inteiramente inventado por Freud, do pai primevo, como aquele que goza de todas as mulheres? É isso que devemos interrogar a partir de um pouco mais longe, da lógica, do escrito.

O que se lê através do mito de todas as mulheres, é que “todas as mulheres” não existe, não há aí um universal. A função fálica torna insustentável a bipolaridade entre os sexos. No que se refere ao falo, não se trata da falta do significante, mas de um obstáculo feito a uma relação. Não é demais lembrar que na matemática e na lógica o termo função designa a relação entre elementos que pertences a duas séries disjuntas. Assim, me parece que Lacan liga e diferencia dois elementos segundo a função fálica, que não são propriamente os dois sexos e, sim, o falasser e o gozo.

A tentativa de Lacan em fazer uma escrita da não-relação sexual alcança em 1973, no seu seminário 20, “Mais, ainda” as fórmulas da sexuação. Além de encontrarmos ali o impossível da relação sexual, temos também articulado que a relação ao sexo imputa fazer operar a castração. Do lado esquerdo, na lógica masculina, temos o universal e a exceção, isto é, não existe um x que não tenha que se haver com a função fálica, inclusive com o que esta implica de ser castrado, ao passo que se preserva o mito do pai totêmico, onde ao menos um não se submeteria a tal função. Do lado direito, o da lógica feminina do gozo, temos o não-universal e o não-todo, ou seja, não é o caso de que, para todo x, x é fálico e não existe um x que não seja fálico.

Sublinho, assim, que diante do feminino o falasser que aí está é sempre não-todo e a soma dos não-todos não nos permite estabelecer um conjunto unitário. Interrogo: essa lógica não é a mesma que faz Lacan, a partir da cisão de 1956, repensar a função da escola enquanto formação e estabelecer, como através do Ato de fundação de 64, da Proposição de 9 de outubro de 67, bem como do Discurso na Escola Freudiana de Paris, limites para que, minimamente, se assegure certa blindagem contra esse empuxo ao todo? Lacan não haveria constatado que a psicanálise dependeria desses dispositivos para a sua continuidade? Afirmaríamos, assim, que como o feminino, os analisantes, participantes, membros e analistas, não-todos, estariam entre pares em uma não-toda instituição, escola, segundo Lacan?

Lacan, com a cisão de 1956, atentou para uma espécie de produção de objetos-analistas mediante a um standard, uma padronização segundo a qual a Associação Internacional de Psicanálise operava fazendo entrar uma lógica totalitária, de poder. Um psicanalista, segundo ele, “(…) deve habituar-se à ideia de que é em seu próprio ser, em sua personalidade total, como se expressam alguns comicamente, que ele é efetivamente apanhado como um todo, só que maneira de um peão, no jogo do significante (…)”.

Em que medida não poderíamos ainda tentar situar tal problemática do universal, que impera no mundo sob diferentes roupagens e discursos, a partir do que Lacan nos oferece com o nó borromeano? Aí, o falasser nunca foi tão esburacado. “A ex-sistência como tal, define-se, suporta-se disso que em cada um dos termos R.S.I., faz buraco.”

Quanto ao imaginário, esse furo diz respeito ao eu, ao narcisismo e a imagem especular que não se completa, não faz um todo-corpo. O falo, enquanto significante, é impossível de ser negativizado. Tal constatação já antecipada por Freud, o guia a pensar os fenômenos de grupos pela via da identificação e do rebaixamento do Eu. Lacan nos lembra, portanto: “Ao contrário do que se imagina, é por uma linha individual, na identificação coletiva, que os sujeitos são informados; essa informação só é comum por ser idêntica em sua fonte. Freud enfatizou o fato de que essa é a identidade que a idealização narcísica traz em si, e assim nos permite completar com um traço de esquematismo a imagem que desempenha nisso a função de objeto”. É, assim, “numa busca de saber, uma certa recusa que se mede no ser, para-além do objeto, é o sentimento que agrega mais fortemente a tropa”.

Essa dinâmica de funcionamento permeou, totalitariamente, as organizações governamentais fascistas em meados do século passado e estiveram dentro da Associação Internacional de Psicanálise e da, então, Sociedade Psicanalítica de Paris, na mesma época. Ainda que se trate de discursos que engendravam diferentes objetos, eles mantêm sempre a mesma demanda pelo poder.

Assim, tem-se uma dupla empreitada, fazendo intervir os dois gozos estabelecidos por Lacan. De um lado, articula-se um discurso de mestria, quanto mais poderoso, mais demandoso, por carecer do outro enquanto objeto para a sua satisfação e que encontramos sob a nomeação do gozo fálico. De uma outra forma, é preciso fazer existir um Outro, supostamente consistente, que garanta o lugar de uma verdade forjada, para que a massa sucumba ao lugar de objeto. Há, dessa maneira, uma vertente simbólica que veicula uma imagem capaz de fazer advir um sentido. Através de um meio um tanto perverso de satisfação, a do gozo fálico, opera-se dissimuladamente no Outro, o dando certa consistência, promovendo cola e angariando adeptos, o que não é sem a conveniência do sintoma de cada um, naquilo que o fantasma denota de fazer-se aprisionado.

Essa investida discursiva parece incidir naquilo em que se constitui o buraco no simbólico. Se esse buraco se evidencia pela morte, é ainda “enquanto alguma coisa é Urverdrangt no simbólico que há algo a que não damos jamais sentido, mesmo que sejamos, é quase uma repetição banal enunciá-lo, capazes logicamente de dizer que ‘todos os homens são mortais’; e enquanto ‘todos os homens são mortais’ não tiver, pelo fato mesmo desse ‘todos’, nenhum sentido (…)”. Entretanto, isso não faz com que esses discursos parem de incidir e de se propagarem, ao contrário, eles emergem a partir desse buraco, ou seja, respondem à demanda incessante do falasse pela busca do sentido.

São inúmeros os exemplos ao longo da história. O discurso científico, pós-iluminismo, não tardou até encontrar o capital e constituir uma série de áreas de domínios de saber no mínimo duvidosas. Recorto uma, a medicina. Freud precisou lidar com o endereçamento da medicina à psicanálise no entre guerras. A finalidade velada no discurso médico, para além do reconhecimento da importância da psicanálise, delineava-se na tentativa de fazer desta objeto da medicina, a ser por ela incorporada aos seus ideais. Freud escreve “A questão da análise leiga” em 1926, o que me parece ter sido um legítimo manifesto, que se ergueu, a princípio, em defesa de Theodor Reink, vítima de um processo por prática da psicanálise sem a qualificação médica.

Anos se passaram até o Brasil experimentar uma investida próxima em 2003, com o projeto de lei que ficou conhecido como Ato Médico. Tal projeto mantinha enquanto fim, dentre muitos engendramentos, subordinar ao controle dos médicos procedimentos de saúde, inclusive de psicanalistas, movimento de uma evidente apropriação do saber com finalidade de poder. Não ao acaso, hoje trabalhado pela Maria do Carmo, as “Três conferências sobre as formações do psicanalista” de Annie Tardits se encontra na revista da Letra Freudiana, também de 2003, cujo estabelecimento textual se deu em resposta ao Ato Médico, através da junção pontual de escolas diferentes, reunidas uma a uma. Tal empreitada não prosperou, encontrou aí limites.

Ainda mais perverso, tanto quanto mais contemporâneo, é a empreitada através da qual o discurso médico se renova e prolifera quanto a produção incessante de doenças, todas catalogadas nos manuais devidamente atualizados, segundo sintomas supostamente universais. Trata-se aqui da ciência a serviço da “Big Pharma”. Como negócio é negócio, é preciso grande simplicidade. “O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo.” Tal feito é exemplificado pelos transtornos, que mais valem a medida que se multiplicam. “Entre os mais recentes, o transtorno bipolar se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: o sujeito se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. (…) O diagnóstico de bipolaridade se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses.”

Tal recorte parece ilustrar bem o que está em jogo no encontro entre o discurso da ciência e o do capital, o que torna evidente a crescente oferta de objetos meio de gozo, cuja satisfação aprisiona o falasser na tentativa de excluir o que da castração se faz desejo. Para os que se colam excessivamente aí, como aqueles que são pegos por tal empreitada da “Big Pharma”, trata-se de uma de certa prisão celibatária, de um enclausuramento do sujeito com o seu objeto mais-de-gozar, com o qual nutre uma relação (a)sexuada. Lacan enfatiza: “O que distingue o discurso do capitalismo é isso – a Verwerfung, a rejeição para fora do campo do simbólico, com as consequências que eu já disse. Rejeição do que? Da castração. Toda ordem, todo discurso que se aparenta com o do capitalismo deixa de lado o que nós chamaremos simplesmente de as coisas do amor (…).”

A questão é saber no que isso dará, ou seja, até que ponto um sujeito dividido, angustiado, na posição de agente do discurso, consegue sustentar a recusa de saber sobre o seu sintoma? Porque “o que é recusado no simbólico, (…) reaparece no real”

O quão tolo não é a posição do sujeito que se faz colar aí, sob certa conveniência, recusando o que do seu sintoma poderia lhe proporcionar algum saber? E o que dizer daqueles que parecem ser a encarnação dos “peões” desse discurso médico-farmacológico, “joguetes” da “Big Pharma”, que hoje os conhecemos sob as infinitas nomeações da psicoterapia? Instiga-me pensar se esses psicoterapeutas não sentem uma ponta de vergonha com aquilo que fazem e propagam. Eles realmente se creem? Porque um relance de vergonha ou dúvida com seus métodos indicaria uma ponta de angústia.

O que a psicanálise introduz enquanto saber ultrapassa a conformidade que esses discursos universais propagam. A werferfung lembrada por Lacan, essa rejeição, encontra seu limite naquilo que retorna do real, no sintoma. Será que não está na condição de não-todo a possibilidade que do sintoma se faça uma questão? Não é ao se questionar quanto “ao que não funciona”  que o falasser pode se fazer um pouco menos “débil”? Seria aí que os não-todos se fazem também não tão tolos, pelo saber que lhes podem advir ao se interrogarem sobre seus sintomas, ainda que os não-tolos também errem.

O movimento contemporâneo da civilização é, por mais paradoxal que pareça, também arcaico, por se constituir enquanto repetição. A realidade brasileira com o resultado das últimas eleições deflagra o sucesso de um discurso que se sustenta através das duas instituições modelo de totalitarismo para Freud, a Igreja e o Exército. A orientação de Lacan em 1967 parece bastante válida: ”Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação”. Não sei se seria possível pensar numa proporção entre essa recusa de saber e o sintoma, mas se esse for o caso, quanto maior a recusa, mais devastador seria o que retorna do real. Isso faz Lacan nomear o que foram os campos de concentração nascistas enquanto algo ”real, sumamente real, tão real que o real é mais hipócrita ao promovê-la do que a língua”.

Mas enquanto há sintoma que se manifeste, há um fazer analítico. E com respeito ao sintoma, há sempre um preço a ser pago pela verwerfung, porque essa rejeição encontra um limite no real, o real ex-siste. A clínica dos nós inaugurada por Lacan nos permite enlaçar conceitos fundamentais. Aqui então se encontra o terceiro furo, o verdadeiro, segundo Lacan, “esse buraco no real, a se designar como vida.” Vida, que aparece em contraposição ao que do gozo se faz morte. O que Lacan delineia com esse buraco se articula com o trauma causado pela incidência de lalangue. É a partir do troumatisme da incidência da linguagem que algo se faz gozo no falasser. O simbólico é insuficiente diante de uma toda significação, ou seja, o impossível de significar ultrapassa o simbólico e se manifesta no real enquanto sintoma. O sintoma é, assim, correlato de não haver uma fórmula universal programada para fazer existir a relação sexual entre dois falasseres.

Não obstante, a orientação clínica a partir do real indicada por Lacan é muito próxima da que foi instituída por ele na constituição de uma escola, porque “existe um real em jogo na própria formação do psicanalista. Afirmamos que as sociedades existentes fundam-se nesse real” . A proposição lacaniana para o funcionamento de uma escola faz garantir a singularidade segundo a qual se torna possível uma formação que não inclua essa lógica do universal e do poder. Isso é um rigor com relação mesmo a uma análise, pois análise e formação se enlaçam aí. Segundo o que há de singular no sintoma do falasser que se pretende analista, este recorre, portanto, a uma escola, que através de dispositivos opera em respeito à diferença e ao desejo de cada um, constituindo um espaço de formação entre pares.

São diversos os elementos pensados por Lacan para a estrutura e o funcionamento de uma escola. O princípio da rotatividade, a diferença entre hierarquia, que pressupõe gozo de poder, e o gradus, cujo reconhecimento se dá por uma forma de trabalho específica sustentada, a ruptura com os Standards da prática didática, a adesão mediante inscrição de uma linha de trabalho suportada pelo desejo, as diferentes modalidades de endereçamento (participantes, AME e AE) e, sobretudo, o cartel e o passe, esboçam instrumentos que se referem, como Lacan lembra o intuito de Freud, à escola enquanto “lugar de refúgio, ou bases de operação contra o que já então se podia chamar de mal-estar na civilização”. Um lugar de refúgio, mas talvez um pouco mais, uma lógica. Uma lógica de formação, que como Annie Tardits sublinha, trata-se de “uma armadura inteligível mais ou menos explicitada”.

Pergunto-me se essa espécie de blindagem contra esses discursos, sempre um tanto totalitários, não é uma maneira de assegurar a existência da psicanálise no mundo, não deixando entrar o funcionamento em que se articula formulação de saber com fins de poder. Porque se isso ocorre, fazer entrar essa demanda de poder pela via do saber, seria o fim da psicanálise. A história nos mostra que o que levou os troianos à derrota foi estarem iludidos pelo poder. Tomaram enquanto presente, o que representaria supostamente a subordinação dos gregos à troia, e fizeram entrar o cavalo. Não só permitiram, fizeram entrar.

Não será, portanto, essa lógica proposta por Lacan o que permite uma escola completar vinte e cinco anos de existência? Não está aí o que leva, inclusive, diferentes escolas, sob diferentes nomeações (o que não é um detalhe), se enlaçarem segundo uma via de trabalho pontual? Quanto aos psicanalistas, eles certamente não formam uma multidão, não são extremamente numerosos, mas nem tão poucos.

Se o passe implica sempre um ato, pela razão de ser impossível tudo nomear, imputando àquele que pretende ser analista um savoir-y-faire, ou seja, um saber fazer aí com o embaraço em causa no seu sintoma, isso não é qualquer generalização. Não é um formato padrão, mas uma singularidade, que considera que de um ato forma-se um analista. Essa armadura contra o que normalmente cola por aí no mundo foi pensada por Lacan numa orientação segundo a qual o real ex-siste, e que assim fez a psicanálise desde o tempo de Freud se descolar da ciência. Ser conduzida pelo rigor de tais dispositivos não é o que se espera de uma forma-ação d’ex-cola?

Referências Bibliográficas

Freud, S., “A questão da análise leiga”, 1926, obras completas, volume XX, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

________”Psicologia de grupo e a análise do eu” obras completas, volume XVIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, J. “Escritos”, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998;

_______  “Outros Escritos” Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2003;

_______ “O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise”, 1969-1970, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1992;

_______ “O seminário, livro 20: mais, ainda”, 1972-1973, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2008;

_______ Seminário de 1974-1975: R.S.I;

_______ “O seminário, livro 23: o sinthome”, 1975-1976, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007;

______”Je parle aux murs”,1971-1972, Éditions de Seuil, août 2011;

______ Entrevista coletiva realizada em Roma em 29 de outubro de 1974;

Revista da Escola Letra Freudiana: “A análise é leiga: da formação do psicanalista, ano XXII, n. 32, Rio de Janeiro, 2003.

Gérard Pommier, “A medicalização da experiência humana”, Le Monde Diplomatique Brasil, Março de 2018, São Paulo.