Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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24 de setembro de 2020by Ato Freudiano0

Reabertura da Sala de Leitura no Ato Freudiano – Segundo Semestre

Após um primeiro momento de silêncio e de espanto, com a eclosão da pandemia no país, e com a suspensão das atividades presenciais na sede do Ato Freudiano, foi inventado o espaço da Sala de Leitura como uma forma de relançar o trabalho na Escola. Trazendo textos diversos, a Sala permitiu que se mantivesse acesa a centelha necessária para iluminar, ainda que modestamente, o momento que atravessamos. Sem perder de vista a importância da sustentação do nosso laço de trabalho.

Em um segundo tempo, outros arranjos foram possíveis e hoje, algumas atividades vêm sendo gradativamente retomadas, mesmo que por hora, virtualmente.

Porém, entendemos que a Sala de Leitura tornou-se um lugar privilegiado para prosseguirmos em um trabalho que, desde o começo, deu a tônica do que pretendemos fazer. Uma abertura às múltiplas leituras, a ler o contemporâneo, a ler juntos.

É um espaço vivo que se interessa por aquilo que as interlocuções com outros campos do saber podem proporcionar à psicanálise.

Nesse sentido importa precisar a localização dessa atividade dentro do que nos propõe uma Escola de psicanálise em suas articulações enquanto ensino e transmissão. Talvez o caminhar do trabalho nos possibilite verificar isso melhor, a partir da dinâmica, do funcionamento desse espaço. No entanto, existe neste recorte do tempo algo que sinaliza a certeza antecipada norteadora de um desejo. Um relançamento que diz de uma aposta. Diante disso, trilhar, percorrer um caminho, que é justamente o que fazemos em uma leitura!

Clara Jaeger

Marina Valle

Juiz de Fora, 26 de agosto de 2020


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2 de dezembro de 2019by Ato Freudiano0

É possível pensar que a responsabilidade sexual de que Lacan fala no seminário do Sinthoma se refere à posição inconsciente de cada um diante da não-relação.

Nesse sentido, a produção do saber inconsciente daquele que pretende ser analista remete ao cartel. Este dispositivo constitui possível via de acesso ao engajamento na escola de psicanálise; via essa de mão-dupla, onde o sujeito, também, poderá obter da escola a garantia de colocá-lo em relação com a sua formação.

É importante ressaltar que não se trata de uma formação profissional. O cartel, na base da escola, questiona o desejo do analista. 

O cartel como engajamento na escola

A própria formalização do cartel se abre com a inscrição de um, sob transferência de um tema, e fica no aguardo de mais dois, quatro ou até cinco, como um grupo que, embora sem líder, identifica-se. E busca numa pessoa qualquer, mas real, aquele que representa o lugar vazio, o da falta-a-saber, o “mais-um” do cartel. Este que tem como primeira tarefa inscrever o cartel na escola e a partir daí, dá partida com um texto de Freud ou de Lacan, permitindo a cada um se situar em nome próprio e operar o saber em jogo. O que vale para ele também, que ao se situar como um, que busca saber no texto, faz com que a função “mais-um” circule e apareça ora em um ora em outro participante do cartel.

Esta formalização provoca o sobressalto de significantes do texto que tenham ligação com o saber inconsciente construído em sua análise a um endereçamento ao saber de Freud e de Lacan. Sabemos que, inevitavelmente, de significante a significante cai um resto que pode levar a elaboração de um novo texto.   

O produto de cada um do cartel, como um novo texto endereçado a escola, servindo-a como um material que reforce a sustentação de sua base, deve ser exposto a alguns outros, em uma jornada de trabalho, onde possa provocar, não só questões como também abertura de novos cartéis. 

Podemos dizer que “a formação do psicanalista requer é uma organização, eu não diria önde isso fala”, mas onde possa falar o sujeito que deveria ter surgido lá onde isso estava”.

Esta transmissão de sujeito a sujeito coloca em evidência a transferência de trabalho que ao dar vida a escola garante a formação do psicanalista.

Se a formação do psicanalista é permanente e só se faz em uma escola de psicanálise, ela depende da prática da “psicanálise pura”, isto é, da cultura do inconsciente, sustentada pela transferência que enoda o saber inconsciente do sujeito com o saber textual da psicanálise com o saber da clínica.

Uma escola de psicanálise pode garantir a formação do psicanalista que esteja fora do dispositivo?                                   

Juiz de Fora, 05 de setembro de 2019.

Comissão de cartéis do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise

Marina Valle

Silvânia Marques Motta

Suréia Iásbeck

S. Moustapha, Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas. Artes Médicas,1985, p.70.

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24 de junho de 2019by Ato Freudiano0

O avesso da multidão: questões sobre um laço original

 

Marina de Oliveira Valle

 

O presente trabalho surge como efeito de algumas questões levantadas, até o momento, no cartel ‘Psicanálise e Laço social’, mas que também encontraram ressonância em alguns outros espaços da escola.

Freud sempre foi muito atento às questões do coletivo, e não deixou de trazer uma leitura sobre como ele se estrutura. Ele chama a atenção, especialmente,  ao fenômeno das identificações que contribui nessa estruturação, favorecendo uma espécie de nivelamento, dos integrantes do grupo, de uma maneira um tanto surpreendente. Lacan partindo dessa trilha aberta por Freud e caminhando um pouco mais além, traz, entre outras coisas, um outro ponto muito importante à psicanálise, por estar ligada à sua própria sobrevivência, que é a questão da transmissão, na formação do analista. Não escapa à observação de Lacan, como diversas distorções da psicanálise, distorções que chegam a desfigurar a obra freudiana, estão ligadas aos efeitos de grupo encontrados em diversas instituições psicanalíticas, como a IPA. Em seu retorno a Freud, resta a Lacan não apenas resgatar a obra, mas evidenciar que a comunidade analítica também está suscetível às identificações, embora não possa “se dar ao luxo” de se entregar a elas. Ressalta a especificidade do discurso psicanalítico em relação aos outros, como Freud procurou demarcar em diversos momentos da história da psicanálise, a seu próprio modo.

Lacan, então, propõe uma Escola que possa fazer frente aos efeitos de cola que tendem a surgir devido à própria estrutura. Inventa dois dispositivos de transmissão, o cartel e o passe. O cartel, cuja estrutura é borromeana é considerado por ele, a porta de entrada da Escola; talvez porque o cartel, caso haja cartel, o que só se verifica no a posteriori, permita o acesso, em extensão, à experiência de um elemento que vai de encontro à multidão: a singularidade de cada um. Inclusive, não é uma singularidade radical que pode ser decantada ao longo de um processo de análise? Mas aqui é importante ressaltar que essa singularidade também implica em outra forma de fazer laço. Embora a diferença de cada um separe, não é possível abrir mão do laço, que envolve alguma identificação. Como Lacan coloca, em 1975: “certamente que os seres humanos se identificam a um grupo…se eles não o fizessem, eles estariam perdidos…Mas eu não disse a que ponto eles poderão ser identificados” [Seminário RSI, 1975 – citado no texto da Maria Cristina Moura vol.8, Transfinitos] Portanto, para que exista encontro na diferença, é necessário que haja um ponto de identificação que, ao mesmo tempo, não torne o cartel um agrupamento.

Colette Soler articula que é a “identificação (…) ao objeto que falta ao atar do nó. Isso quer dizer que cada um pode se identificar a cada um na medida em que ele trabalhe a partir de seu não saber, mesmo que seja produzindo um mais de saber”. Não havendo mestre que guie e se tratando de um trabalho  a partir do não saber de cada um, de um objeto que falta, que, então, causa o desejo, há a possibilidade de uma “identificação (…) por participação na falta que anima o trabalho do outro” (“O que faz laço?”, Colette Soler). Uma transferência de trabalho pode encontrar suporte nessa forma de identificação e isso viabiliza uma certa circulação de significantes de um sujeito a outro. 

Aqui comparece uma proposta de transmissão que, provavelmente, faz jus à radicalidade do discurso psicanalítico, porque coloca no centro de sua estrutura o objeto causa do desejo e dessa forma aposta em um laço social não-todo, um laço social original, portanto, que, nos termos de Annie Tardits, “vem como suplência à não-relação sexual” (“Análise leiga, uma questão crucial para a psicanálise”, Annie Tardits, pg 39). A autora em outro texto, remetendo-se às formulações de Lacan, escreve que “não existe conjunto do Simbólico, do Imaginário e do Real, mas que eles ficam juntos ao serem enodados em torno de um furo. Esse enodamento (…) pode esclarecer a maneira que podem ficar juntos ‘uns’ não muito inteiros, heterogêneos em sua relação singular com a psicanálise” (“As formações do psicanalista”, Annie Tardits, pg 153). Orientar-se por esse furo é o que pode permitir a uma Escola a manter-se afinada à invenção freudiana.

Através do cartel, dobradiça entre intensão e extensão, espera-se que esse furo possa ser transmitido e que ele possa instigar alguma produção que, como desde a inscrição em nome próprio antevê, é uma produção que dá notícia da “relação singular de cada um com a psicanálise”. Não seria essa a abertura que viabiliza que uma invenção possa ser inscrita, se pudermos considerar que o desejo é, por excelência, autoral? E a cada (re)invenção, um relançamento, porque o furo, o real, continua em campo. Nesse caso, a produção do cartel é radicalmente diferente de um resultado da acumulação de conhecimento, porque o conhecimento já está dado desde a partida. O saber, não. É uma construção, é um caminho sempre a ser feito, independentemente do trecho em que se encontre. É importante sublinhar, porém, que essa reinvenção da psicanálise, reinvenção necessária para não se perder o frescor nem o entusiasmo, não se dá apartada de um laço. Aqui arrisca-se a dizer que, em um movimento moebiano, é possibilitada por ele, conforme Georges Bataille nos lembra: “o que eu penso, eu não pensei sozinho”(conforme citado por Maurice Blanchot em “Comunidade inconfessável”). Talvez seja disso que Freud esteja falando quando, sobre a sua invenção, diz que: “a ideia pela qual eu estava me tornando responsável de modo algum se originou em mim”.


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19 de junho de 2019by Ato Freudiano0

Rasura no Real: um esboço do passe que subverte

Maycon Ataide Lenci*

A finalidade do presente trabalho, construído a partir de restos do cartel “Psicanálise e arte contemporânea” é demonstrar o elo dos mecanismos da arte na psicanálise. Aquela que envia uma mensagem em sua forma invertida, na qual poderia anunciar algo do sujeito. Destaco o significante “passe” para revelar a importância da sua condição de ação na partida e da constância pulsional causada pela denúncia de um objeto perdido na origem. Um acontecimento; causado por fragmentos da representação na linguagem e o seu efeito na relação entre o eu e o outro. Uma realização que escapa de um momento temporal e se perde em ato. Para tal início de trabalho, se faz necessário lançar mão da palavra esboço, que está presente no título supracitado e que se apresenta nas artes, como aquilo que faz o delineamento dos traços iniciais em uma obra. Em etimologia, por definição, o esboço diz respeito aos primeiros traços de um desenho; algo rápido para um estudo inicial. O traço único do pincel na caligrafia chinesa por exemplo, faz referência a primeira manifestação do sujeito. O próprio ato de fazer o traço convoca o corpo a uma performance que deixa cair algo. Um articular e desarticular daquilo que está relacionado entre o enunciado e a enunciação. Este apelo do ato à letra é fruto de um questionamento da relação imagem e linguagem que abre campo com o movimento de mudança de posição. É o que aparece por exemplo, no sonho de Freud com Irma onde se destaca a formula da substancia trimetilamina. Ao partir o véu da imagem e do espelhamento das palavras que estão contidas na medida estética, o acontecimento põe amostra, como já dizia Freud que “o eu não é mais senhor em sua própria casa”. É como denuncia o poeta e desenhista  Henri Michaux “quem deixa um traço, deixa uma ferida” (RIVERA,2005).

Aqui traço o caminho que me é possível de fuga da cristalização. Retorno em Freud, algo da posição central da estética, que ao ser questionada pela via da pulsão de morte deu origem ao denominado: o estranho. Este significante traumático de Freud, que insiste e repete, nos traz algo muito caro as artes por mostrar uma alternância do olhar que forma o seu duplo. A imagem, um sintoma cristalizante do conflito daquilo que pode ou não ser mostrado, convoca o corpóreo e atribui a ele o status de constituidor do sujeito. O que falta à imagem e tira seu lugar de completude apaziguadora é ao mesmo tempo aquilo que a sustenta. Este buraco imaginário ocorre devido a nomeação do familiar pelo estranho freudiano, que rearranja seu encadeamento de significantes pela sua constituição de vazio. É uma falha ou fissura apresentada pela arte com forma de desmaterialização da estrutura de exposição existente. A arte desmaterializada não tem lugar no tempo e no espaço com medidas convencionais (CAUQUELIN,2008). Novamente é um acontecimento; passe constante de inversões e deslocamentos entre lugar e vazio que promove uma perda. É a renúncia da condição de sujeito, uma produção de exílio por parte do artista para possibilitar a realização da sua obra. Lugar atópico lacaniano, que a arte nos antecipa através da contradição que promove o deslocamento entre estranho x familiar; vazio x cheio; dentro x fora. Um lançamento que se perde no tempo e organiza um espaço. Sobre isto o filósofo Peter Pal Pelbart, diz “como se o tempo fosse uma grande massa de argila, que a cada modelagem rearranja as distâncias entre os pontos nela assinalados”. Este ato de desposicionar promove uma desorientação do sujeito rumo ao originário, das ding freudiano, um a priori a linguagem que provoca barulhos pela fala e sulcos de onde surge um novo representante de estrutura chamado objeto a. Ponto abjeto do real que subverte, faz quebras e formam ruínas ao mesmo tempo que é lançado para fora. Como nos diz Lacan “o real não cessa de não se escrever”. Ele impõe limites a representação causando a sua necessidade de relançamento em repetição. Algo bem comum ao sonho.

Pela abertura do movimento em repetição que se constitui o meio para se afastar do trauma, podemos adentrar na questão da arte contemporânea que marca o retorno do sujeito. Acontecimento de vanguarda que vem por em evidencia o Real, como aquele que nega a realidade existente constituída pela cobertura imaginaria dos objetos. Destaco como exemplo para este trabalho, o artista americano Andy Warhol precursor da pop art nos Estados Unidos. Dotado de engajamento político, Warhol se sentia incomodado com o estilo americano baseado no consumo com fetiche por mercadorias e estrelas da mídia. Objetos de consumo do capitalismo, que ao cair da posição sublime fazem dejeto. E como Warhol, denunciava esta cristalização do american way of life? Através da repetição. Mas não pela via da reprodução, por si mesma, já que o objeto perdido não tem como ser representado. Warhol, citado em Foster (2017), nos diz “gosto que as coisas sejam exatamente as mesmas, quanto mais se olha para o exatamente o mesmo, tanto mais ela se perde em seu significado e nos sentimos cada vez melhor e mais vazios”. Aqui parece que o artista usa da repetição freudiana “wiederholen” que visa drenar o significado do evento, para integra-lo a economia psíquica e proteger o eu dos afetos. Esta necessidade de proteção aponta para o Real e que durante o acontecimento se rompe e subverte a letra. Uma causa acidental, que segundo Foster (2017) Lacan chama de touché. Para Foster (2017), o touché de Warhol surge no pipocar (poping) da pop art repetido na imagem. Esta ruptura pode ser vista na diluição das cores em sua obra, que são indicadores visuais de um toque no Real. Warhol utiliza as imagens que remetem a um choque. Depois repete a mesma para proteger esta ordem e produz através de técnica, uma segunda organização ao trauma onde o touché rompe o anteparo inicial. Por fim, de acordo com Foster (2017), Lacan assimila o Real a um trocadilho e diz que ele é troumatic. Trou como pop´s ou buraco que não conseguimos dizer o que é, apenas tenho a impressão de toque, disto que segundo Barthes, “grita em silêncio”.

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*Participante do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise

Referências

CAUQUELIN, A. Frequentar os incorporais: Contribuições a uma teoria da arte contemporânea, Martins Fontes, 2008.

FOSTER, H. O retorno do Real, UBU, 2007.

LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

RIVERA. T. Guimarães Rosa e a Psicanalise: Ensaios sobre imagem e escrita, Zahar, 2005.

__________. O avesso do Imaginário: arte contemporânea e psicanálise, Cosacnaify, 2013.


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14 de junho de 2019by Ato Freudiano0

A escola ainda…

ou o Ato Freudiano a-inda…

 

Wania de Almeida Barbosa

 

Parafraseio Collete Soler, para afirmar que não se trata da Escola sempre, mas da Escola ainda…

Esse “ainda” me chamou bastante atenção e me pôs num exercício de lê-lo em muitas de suas acepções, podendo ver nele várias indicações de direção. Ao recorrer ao dicionário, são diversos os sentidos em que comparece, e muitos deles indicam uma temporalidade: presente (até agora), passado (até então), futuro (até lá). Pode indicar algo que se renova (novamente, outra vez, mais uma vez) como também ter uma concepção adversativa (mesmo assim, apesar), entre outras… Se “ainda” indica algo de uma temporalidade, essa pode comparecer dando notícias de uma continuidade, algo em processo, como um gerúndio, talvez. Mas, por outro lado, remete àquilo que não está lá, inconcluso, que está por vir, que está a chegar….

Nesse sentido, falar ou escrever sobre o Ato Freudiano e seus 25 anos é colocar em movimento todas ou muitas das acepções desse “ainda”.

Se a escola sustenta-se por um fazer-se e, no seu dia-a-dia, este deve renovar-se enquanto proposta, talvez possamos pensar que isso se estabelece como efeito do próprio discurso que a constitui, o discurso analítico, com a no lugar de agente. É exatamente pelo fato de que o a, enquanto semblante, não se sustenta de maneira fixa e permanente, como afirmam Diana Mariscal e Andréia B. Tigre, mas antes como fogo fátuo, que talvez se possa pensar esses momentos de surgimento do semblante da a como instantes de escola. Nos momentos em que o real comparece e a resposta é o próprio trabalho, nos momentos que se pode confirmar que houve um cartel, a cada jornada que se realiza em ato, nos efeitos de uma transmissão que se estende a outros lugares e fazeres, talvez seja nesses momentos que se possa reconhecer a presença da causa freudiana e o fazer/fazendo Escola. Ou seja, a Escola ainda…

A isso associa-se a questão do desejo do analista como não sendo um desejo puro que, a exemplo de Antígona, pode levar ao pior. Mas como sendo efeito de uma operação, na qual o a, enquanto resto, torna-se causa, e da impotência da neurose passa-se ao campo do impossível e ao saber fazer aí que ele convoca. Antes dessa passagem, contudo, o desejo do analista é algo que pode comparecer ao longo de uma análise, dando notícias da destituição do sujeito suposto saber e do reconhecimento da castração. Nesse sentido e considerando, na Escola, a presença de não-analistas, como aqueles que não finalizaram a travessia analítica, deve-se reconhecer a presença do a enquanto causa, de forma evanescente ou efêmera. Essa dimensão do efêmero relativo ao desejo é assim descrita por Motta Salles: “… o desejo se apresenta de uma forma efêmera e pontual, mas traz algo novo e alarga o que anteriormente era apenas uma imagem – o também e nunca – de um passado”. Se esse desejo que sustenta uma análise é o mesmo que comparece na extensão, também em instantes, também efemeramente, pode-se novamente afirmar a Escola, ainda…

Outro elemento fundamental que parece remeter ao “ainda” em campo nessa leitura da Escola é o laço que nela se pretende sustentar. Collete Soler, ao falar do laço que deve prevalecer na Escola, especialmente ao considerar o cartel, destaca a questão da histeria.  Numa referência ao seminário “O avesso da Psicanálise”, ela diz que na histeria há uma modalidade específica de desejo (p55), por situar esse desejo no lugar de semblante, lugar que comanda a ordem do discurso. Tendo como paradigma o sonho da bela açougueira, no qual Freud afirma que há uma identificação a partir do desejo insatisfeito, Lacan diz na Direção da Cura que esse desejo insatisfeito, enquanto impasse, antes de aprisionar, abre “a chave do campo de todos os desejos”. Nesse sentido, Soler afirma que o desejo insatisfeito se distingue como uma estratégia de absolutização do desejo (55). E mais, diz que “sustentar o desejo insatisfeito é assegurar a presença mantida do desejo, isto é, da falta, pois satisfazê-lo é ou extingui-lo ou decepcioná-lo” (p 56). Assim assegurar, por esse laço, a presença mantida do desejo, isto é da falta, é mais uma vez apostar na Escola ainda…

A questão da identificação deve ser considerada também no cartel. Quanto a esse dispositivo, Soler não exclui que a questão da identificação compareça e a articula a partir das formulações de Lacan, no seminário A Identificação. Nesse seminário, Lacan afirma que o “nó social” procede da estrutura borromeana e revela a identificação com “aquilo que é o cerne, o centro do nó, […] o lugar do objeto a. Esse objeto domina aquilo que para Freud faz a terceira possibilidade de identificação, a da histérica, ao desejo do outro” (p50). Noutras palavras, seria uma identificação ao objeto que falta. Essa identificação se distingue das demais por ser uma identificação “por participação, […] participação no desejo que anima o outro”. Essas considerações permitem estabelecer uma concepção bastante interessante de transferência de trabalho. Segundo Colette Soler, a partir da identificação histérica, haveria “uma participação na falta que anima seu trabalho”. Dessa forma, a identificação se dá na medida em que ele trabalhe, a partir de seu não saber (P 50).

Portanto, uma proposta de cooperação ou participação como essa, remete-nos a ideia de que a Escola se faz de um coletivo ou de uma comunidade de experiência, como diz Lacan. Nela, se há o um a um, a singularidade e a necessidade de fazer valer a diferença, é preciso também reconhecimento de seus pares, como aqueles de quem se autoriza, além de si mesmo e que, sem fazerem cola como se propõe no cartel, permitem que a Escola seja não apenas uma junção de uns mas um lugar que, turbilhonado por uma falta, ponha em movimento a causa freudiana. Assim, se o movimento  não é continuo por si só, é preciso considerar uma forma de enlaçamento entre os analista da escola que não trave o nó, mas permita o turbilhonamento desse. E se o movimento é algo sempre a se impulsionar novamente, estamos na dimensão da Escola ainda…

Pelo lugar da psicanálise no mundo, pela função de lâmina cortante que seu discurso porta e que faz frente a uma absolutização da completude, veiculada pelo discurso capitalista em sua união com a ciência, as resistências a ela se presentificam a cada vez mais e com os mais diversos trajes: seja pela tentativa de regulamentação profissional, seja sob a presença de cursos técnicos de psicanálise, além do avanço de propostas terapêuticas rápidas e direcionadas, como o coaching, e a multiplicidade diagnóstica garantida por uma farmacologia que retoma uma perspectiva puramente orgânica, entre outras. Deve-se considerar que a resistência à psicanálise é e sempre foi algo presente na cultura, podendo se acirrar mais ou menos como efeito do discurso do qual ela é o avesso. Nesse contexto, a Escola é uma das vias pela qual se faz frente a essa resistência, a cada vez que reenvia a suas bases teóricas e práticas o seu ensinamento e transmissão. Se a resistência à psicanálise exige sua r-existência, ao fazer frente aos movimentos e discursos de totalidade, em sua insistência e ex-sistência, há a Escola ainda…

O Ato Freudiano que em 2010 se nominou Escola, comemora esse ano um percurso de 25 anos. Ao longo desse tempo, passos, impasses, um passe. Ao longo desse tempo, uma cisão, algumas deserções, por vezes, a presença silenciosa do real, noutras, seus rumores. Diante disso, um relançar sempre permitiu a continuidade do trabalho, levando em conta duas dimensões: o fracasso e o perseverar, como destaca Eliane Guerra, quando dos 15 anos do Ato. Ela afirma que “o fracasso e o perseverar tocam o real. O fracasso demonstra o encontro com o real e o perseverar é o real tomado como causa”.

O Ato Freudiano, 25 anos depois, perseverou e persevera. O Ato Freudiano – de “grupo intercartéis” à “ensino e transmissão” e à “escola” – a cada nova inscrição, a cada nominação, reafirma a causa freudiana ainda… O Ato Freudiano se propõe a sustentar a proposta Escola em todos as acepções que se considerou da Escola ainda… E ao sustentá-la, sustenta a lógica do não-todo que exige e ao mesmo tempo garante esse “ainda”, e permite sempre afirmar o Ato Freudiano a-inda…

XV Jornada de Cartéis do Ato Freudiano

XXV do Ato Freudiano

01/09/2018


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10 de junho de 2019by Ato Freudiano0

Não-todos, não tão tolos, nem tão poucos 

Felipe Barreto Nery Coutinho

O que funciona é o mundo. O real é o que não funciona

Conviveremos, sempre, com a ameaça totalitária. Essa é a máxima que a experiência analítica e os escritos, de Freud à Lacan, nos oferecem. Do mito de Narciso, ao Welfare State, isso está pelos quatro cantos, mas também no meio, como a história do movimento psicanalítico deflagra sobre o empuxo a standardilização que se fez entrar em determinadas sociedades psicanalíticas e permeia, sobretudo, o discurso da ciência de mãos dadas com o do capital. Mas vislumbrar a unidade não resta sem efeito, sem angústia, pela simples razão de não haver uma “fórmula do que não funciona”, ou seja, ao contrário do que o otimismo governamental professa, a saúde mental não existe. O sintoma do falasser não é passível de qualquer generalização, ele insiste segundo a singularidade que o caracteriza. “Se há noção de real, ela é extremamente complexa, e, a esse título, é não apreensível de uma forma que faria um todo. Seria uma noção incrivelmente antecipatória pensar que haja um todo real”.

Se, como nos lembra Lacan,“a psicanálise não surgiu num momento histórico qualquer” e, sim, “(…) correlativamente a um passo capital, a um certo avanço do discurso da ciência”, esse avanço está condicionado ao fato de que “nenhuma experiência de analista” possa “pretender se apoiar sobre gente suficiente para generalizar”. Mas, existe aí uma exceção. Há, na natureza do ser falante, exatamente por não se tratar aí do natural, um pressuposto universal: todos doentes.

“É justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saudável. A questão é antes saber por que um homem dito normal não percebe que a fala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a fala é a forma de câncer pela qual o ser humano é afligido.”

A fala que parasita imputa ao falante o sintoma e o gozo. É o fim da harmonia do natural. Como eventualmente lembrado por Orris na condução do seminário de leitura sobre o Sinthome, e que encontramos nas palavras de Lacan logo no início de seu seminário XXII, R.S.I., “há algo que faz com que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental”. Em que medida essa debilidade se apresenta nas diversas roupagens que pretendem o tamponamento de três furos específicos que se apresentam ao falasser? Como delinear diante de tal movimento a posição e o fazer do analista, a leitura do sintoma e a formação em Escola?

Está na posição de Freud, ao resolver escutar as mulheres “demonizadas” de sua época, supor seu não-todo saber e se fazer ouvido diante do sofrimento psíquico que no corpo feminino se fazia sintoma. Com isso, simultaneamente, ele recusa, além da sugestão hipnótica de Charcot, a posição fálica, a Suficiência, perversa, com a qual o campo médico avançava no final do século XIX. É, assim, desde o seu início, condição para a existência da psicanálise e, então, para a formação dos analistas, que estes se percebam um tanto furados, não-todos.

A partir de 1971, Lacan parece adentrar cada vez mais ao pensamento lógico de forma a expor ainda mais o impasse sexual quando do encontro com o outro sexo. Ele faz da função fálica aquilo que lhe permitirá, mais adiante, diferenciar dois gozos, o masculino e o feminino. Com isso, ele formaliza a diferença entre os sexos longe de tomá-la enquanto dado puramente natural.

O que significa manter no discurso analítico esse mito residual chamado mito do Édipo, Deus sabe por que, que é, na verdade, o de Totem e tabu, onde se inscreve o mito, inteiramente inventado por Freud, do pai primevo, como aquele que goza de todas as mulheres? É isso que devemos interrogar a partir de um pouco mais longe, da lógica, do escrito.

O que se lê através do mito de todas as mulheres, é que “todas as mulheres” não existe, não há aí um universal. A função fálica torna insustentável a bipolaridade entre os sexos. No que se refere ao falo, não se trata da falta do significante, mas de um obstáculo feito a uma relação. Não é demais lembrar que na matemática e na lógica o termo função designa a relação entre elementos que pertences a duas séries disjuntas. Assim, me parece que Lacan liga e diferencia dois elementos segundo a função fálica, que não são propriamente os dois sexos e, sim, o falasser e o gozo.

A tentativa de Lacan em fazer uma escrita da não-relação sexual alcança em 1973, no seu seminário 20, “Mais, ainda” as fórmulas da sexuação. Além de encontrarmos ali o impossível da relação sexual, temos também articulado que a relação ao sexo imputa fazer operar a castração. Do lado esquerdo, na lógica masculina, temos o universal e a exceção, isto é, não existe um x que não tenha que se haver com a função fálica, inclusive com o que esta implica de ser castrado, ao passo que se preserva o mito do pai totêmico, onde ao menos um não se submeteria a tal função. Do lado direito, o da lógica feminina do gozo, temos o não-universal e o não-todo, ou seja, não é o caso de que, para todo x, x é fálico e não existe um x que não seja fálico.

Sublinho, assim, que diante do feminino o falasser que aí está é sempre não-todo e a soma dos não-todos não nos permite estabelecer um conjunto unitário. Interrogo: essa lógica não é a mesma que faz Lacan, a partir da cisão de 1956, repensar a função da escola enquanto formação e estabelecer, como através do Ato de fundação de 64, da Proposição de 9 de outubro de 67, bem como do Discurso na Escola Freudiana de Paris, limites para que, minimamente, se assegure certa blindagem contra esse empuxo ao todo? Lacan não haveria constatado que a psicanálise dependeria desses dispositivos para a sua continuidade? Afirmaríamos, assim, que como o feminino, os analisantes, participantes, membros e analistas, não-todos, estariam entre pares em uma não-toda instituição, escola, segundo Lacan?

Lacan, com a cisão de 1956, atentou para uma espécie de produção de objetos-analistas mediante a um standard, uma padronização segundo a qual a Associação Internacional de Psicanálise operava fazendo entrar uma lógica totalitária, de poder. Um psicanalista, segundo ele, “(…) deve habituar-se à ideia de que é em seu próprio ser, em sua personalidade total, como se expressam alguns comicamente, que ele é efetivamente apanhado como um todo, só que maneira de um peão, no jogo do significante (…)”.

Em que medida não poderíamos ainda tentar situar tal problemática do universal, que impera no mundo sob diferentes roupagens e discursos, a partir do que Lacan nos oferece com o nó borromeano? Aí, o falasser nunca foi tão esburacado. “A ex-sistência como tal, define-se, suporta-se disso que em cada um dos termos R.S.I., faz buraco.”

Quanto ao imaginário, esse furo diz respeito ao eu, ao narcisismo e a imagem especular que não se completa, não faz um todo-corpo. O falo, enquanto significante, é impossível de ser negativizado. Tal constatação já antecipada por Freud, o guia a pensar os fenômenos de grupos pela via da identificação e do rebaixamento do Eu. Lacan nos lembra, portanto: “Ao contrário do que se imagina, é por uma linha individual, na identificação coletiva, que os sujeitos são informados; essa informação só é comum por ser idêntica em sua fonte. Freud enfatizou o fato de que essa é a identidade que a idealização narcísica traz em si, e assim nos permite completar com um traço de esquematismo a imagem que desempenha nisso a função de objeto”. É, assim, “numa busca de saber, uma certa recusa que se mede no ser, para-além do objeto, é o sentimento que agrega mais fortemente a tropa”.

Essa dinâmica de funcionamento permeou, totalitariamente, as organizações governamentais fascistas em meados do século passado e estiveram dentro da Associação Internacional de Psicanálise e da, então, Sociedade Psicanalítica de Paris, na mesma época. Ainda que se trate de discursos que engendravam diferentes objetos, eles mantêm sempre a mesma demanda pelo poder.

Assim, tem-se uma dupla empreitada, fazendo intervir os dois gozos estabelecidos por Lacan. De um lado, articula-se um discurso de mestria, quanto mais poderoso, mais demandoso, por carecer do outro enquanto objeto para a sua satisfação e que encontramos sob a nomeação do gozo fálico. De uma outra forma, é preciso fazer existir um Outro, supostamente consistente, que garanta o lugar de uma verdade forjada, para que a massa sucumba ao lugar de objeto. Há, dessa maneira, uma vertente simbólica que veicula uma imagem capaz de fazer advir um sentido. Através de um meio um tanto perverso de satisfação, a do gozo fálico, opera-se dissimuladamente no Outro, o dando certa consistência, promovendo cola e angariando adeptos, o que não é sem a conveniência do sintoma de cada um, naquilo que o fantasma denota de fazer-se aprisionado.

Essa investida discursiva parece incidir naquilo em que se constitui o buraco no simbólico. Se esse buraco se evidencia pela morte, é ainda “enquanto alguma coisa é Urverdrangt no simbólico que há algo a que não damos jamais sentido, mesmo que sejamos, é quase uma repetição banal enunciá-lo, capazes logicamente de dizer que ‘todos os homens são mortais’; e enquanto ‘todos os homens são mortais’ não tiver, pelo fato mesmo desse ‘todos’, nenhum sentido (…)”. Entretanto, isso não faz com que esses discursos parem de incidir e de se propagarem, ao contrário, eles emergem a partir desse buraco, ou seja, respondem à demanda incessante do falasse pela busca do sentido.

São inúmeros os exemplos ao longo da história. O discurso científico, pós-iluminismo, não tardou até encontrar o capital e constituir uma série de áreas de domínios de saber no mínimo duvidosas. Recorto uma, a medicina. Freud precisou lidar com o endereçamento da medicina à psicanálise no entre guerras. A finalidade velada no discurso médico, para além do reconhecimento da importância da psicanálise, delineava-se na tentativa de fazer desta objeto da medicina, a ser por ela incorporada aos seus ideais. Freud escreve “A questão da análise leiga” em 1926, o que me parece ter sido um legítimo manifesto, que se ergueu, a princípio, em defesa de Theodor Reink, vítima de um processo por prática da psicanálise sem a qualificação médica.

Anos se passaram até o Brasil experimentar uma investida próxima em 2003, com o projeto de lei que ficou conhecido como Ato Médico. Tal projeto mantinha enquanto fim, dentre muitos engendramentos, subordinar ao controle dos médicos procedimentos de saúde, inclusive de psicanalistas, movimento de uma evidente apropriação do saber com finalidade de poder. Não ao acaso, hoje trabalhado pela Maria do Carmo, as “Três conferências sobre as formações do psicanalista” de Annie Tardits se encontra na revista da Letra Freudiana, também de 2003, cujo estabelecimento textual se deu em resposta ao Ato Médico, através da junção pontual de escolas diferentes, reunidas uma a uma. Tal empreitada não prosperou, encontrou aí limites.

Ainda mais perverso, tanto quanto mais contemporâneo, é a empreitada através da qual o discurso médico se renova e prolifera quanto a produção incessante de doenças, todas catalogadas nos manuais devidamente atualizados, segundo sintomas supostamente universais. Trata-se aqui da ciência a serviço da “Big Pharma”. Como negócio é negócio, é preciso grande simplicidade. “O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo.” Tal feito é exemplificado pelos transtornos, que mais valem a medida que se multiplicam. “Entre os mais recentes, o transtorno bipolar se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: o sujeito se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. (…) O diagnóstico de bipolaridade se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses.”

Tal recorte parece ilustrar bem o que está em jogo no encontro entre o discurso da ciência e o do capital, o que torna evidente a crescente oferta de objetos meio de gozo, cuja satisfação aprisiona o falasser na tentativa de excluir o que da castração se faz desejo. Para os que se colam excessivamente aí, como aqueles que são pegos por tal empreitada da “Big Pharma”, trata-se de uma de certa prisão celibatária, de um enclausuramento do sujeito com o seu objeto mais-de-gozar, com o qual nutre uma relação (a)sexuada. Lacan enfatiza: “O que distingue o discurso do capitalismo é isso – a Verwerfung, a rejeição para fora do campo do simbólico, com as consequências que eu já disse. Rejeição do que? Da castração. Toda ordem, todo discurso que se aparenta com o do capitalismo deixa de lado o que nós chamaremos simplesmente de as coisas do amor (…).”

A questão é saber no que isso dará, ou seja, até que ponto um sujeito dividido, angustiado, na posição de agente do discurso, consegue sustentar a recusa de saber sobre o seu sintoma? Porque “o que é recusado no simbólico, (…) reaparece no real”

O quão tolo não é a posição do sujeito que se faz colar aí, sob certa conveniência, recusando o que do seu sintoma poderia lhe proporcionar algum saber? E o que dizer daqueles que parecem ser a encarnação dos “peões” desse discurso médico-farmacológico, “joguetes” da “Big Pharma”, que hoje os conhecemos sob as infinitas nomeações da psicoterapia? Instiga-me pensar se esses psicoterapeutas não sentem uma ponta de vergonha com aquilo que fazem e propagam. Eles realmente se creem? Porque um relance de vergonha ou dúvida com seus métodos indicaria uma ponta de angústia.

O que a psicanálise introduz enquanto saber ultrapassa a conformidade que esses discursos universais propagam. A werferfung lembrada por Lacan, essa rejeição, encontra seu limite naquilo que retorna do real, no sintoma. Será que não está na condição de não-todo a possibilidade que do sintoma se faça uma questão? Não é ao se questionar quanto “ao que não funciona”  que o falasser pode se fazer um pouco menos “débil”? Seria aí que os não-todos se fazem também não tão tolos, pelo saber que lhes podem advir ao se interrogarem sobre seus sintomas, ainda que os não-tolos também errem.

O movimento contemporâneo da civilização é, por mais paradoxal que pareça, também arcaico, por se constituir enquanto repetição. A realidade brasileira com o resultado das últimas eleições deflagra o sucesso de um discurso que se sustenta através das duas instituições modelo de totalitarismo para Freud, a Igreja e o Exército. A orientação de Lacan em 1967 parece bastante válida: ”Nosso futuro de mercados comuns encontrará seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação”. Não sei se seria possível pensar numa proporção entre essa recusa de saber e o sintoma, mas se esse for o caso, quanto maior a recusa, mais devastador seria o que retorna do real. Isso faz Lacan nomear o que foram os campos de concentração nascistas enquanto algo ”real, sumamente real, tão real que o real é mais hipócrita ao promovê-la do que a língua”.

Mas enquanto há sintoma que se manifeste, há um fazer analítico. E com respeito ao sintoma, há sempre um preço a ser pago pela verwerfung, porque essa rejeição encontra um limite no real, o real ex-siste. A clínica dos nós inaugurada por Lacan nos permite enlaçar conceitos fundamentais. Aqui então se encontra o terceiro furo, o verdadeiro, segundo Lacan, “esse buraco no real, a se designar como vida.” Vida, que aparece em contraposição ao que do gozo se faz morte. O que Lacan delineia com esse buraco se articula com o trauma causado pela incidência de lalangue. É a partir do troumatisme da incidência da linguagem que algo se faz gozo no falasser. O simbólico é insuficiente diante de uma toda significação, ou seja, o impossível de significar ultrapassa o simbólico e se manifesta no real enquanto sintoma. O sintoma é, assim, correlato de não haver uma fórmula universal programada para fazer existir a relação sexual entre dois falasseres.

Não obstante, a orientação clínica a partir do real indicada por Lacan é muito próxima da que foi instituída por ele na constituição de uma escola, porque “existe um real em jogo na própria formação do psicanalista. Afirmamos que as sociedades existentes fundam-se nesse real” . A proposição lacaniana para o funcionamento de uma escola faz garantir a singularidade segundo a qual se torna possível uma formação que não inclua essa lógica do universal e do poder. Isso é um rigor com relação mesmo a uma análise, pois análise e formação se enlaçam aí. Segundo o que há de singular no sintoma do falasser que se pretende analista, este recorre, portanto, a uma escola, que através de dispositivos opera em respeito à diferença e ao desejo de cada um, constituindo um espaço de formação entre pares.

São diversos os elementos pensados por Lacan para a estrutura e o funcionamento de uma escola. O princípio da rotatividade, a diferença entre hierarquia, que pressupõe gozo de poder, e o gradus, cujo reconhecimento se dá por uma forma de trabalho específica sustentada, a ruptura com os Standards da prática didática, a adesão mediante inscrição de uma linha de trabalho suportada pelo desejo, as diferentes modalidades de endereçamento (participantes, AME e AE) e, sobretudo, o cartel e o passe, esboçam instrumentos que se referem, como Lacan lembra o intuito de Freud, à escola enquanto “lugar de refúgio, ou bases de operação contra o que já então se podia chamar de mal-estar na civilização”. Um lugar de refúgio, mas talvez um pouco mais, uma lógica. Uma lógica de formação, que como Annie Tardits sublinha, trata-se de “uma armadura inteligível mais ou menos explicitada”.

Pergunto-me se essa espécie de blindagem contra esses discursos, sempre um tanto totalitários, não é uma maneira de assegurar a existência da psicanálise no mundo, não deixando entrar o funcionamento em que se articula formulação de saber com fins de poder. Porque se isso ocorre, fazer entrar essa demanda de poder pela via do saber, seria o fim da psicanálise. A história nos mostra que o que levou os troianos à derrota foi estarem iludidos pelo poder. Tomaram enquanto presente, o que representaria supostamente a subordinação dos gregos à troia, e fizeram entrar o cavalo. Não só permitiram, fizeram entrar.

Não será, portanto, essa lógica proposta por Lacan o que permite uma escola completar vinte e cinco anos de existência? Não está aí o que leva, inclusive, diferentes escolas, sob diferentes nomeações (o que não é um detalhe), se enlaçarem segundo uma via de trabalho pontual? Quanto aos psicanalistas, eles certamente não formam uma multidão, não são extremamente numerosos, mas nem tão poucos.

Se o passe implica sempre um ato, pela razão de ser impossível tudo nomear, imputando àquele que pretende ser analista um savoir-y-faire, ou seja, um saber fazer aí com o embaraço em causa no seu sintoma, isso não é qualquer generalização. Não é um formato padrão, mas uma singularidade, que considera que de um ato forma-se um analista. Essa armadura contra o que normalmente cola por aí no mundo foi pensada por Lacan numa orientação segundo a qual o real ex-siste, e que assim fez a psicanálise desde o tempo de Freud se descolar da ciência. Ser conduzida pelo rigor de tais dispositivos não é o que se espera de uma forma-ação d’ex-cola?

Referências Bibliográficas

Freud, S., “A questão da análise leiga”, 1926, obras completas, volume XX, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

________”Psicologia de grupo e a análise do eu” obras completas, volume XVIII, Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, J. “Escritos”, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998;

_______  “Outros Escritos” Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2003;

_______ “O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise”, 1969-1970, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1992;

_______ “O seminário, livro 20: mais, ainda”, 1972-1973, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2008;

_______ Seminário de 1974-1975: R.S.I;

_______ “O seminário, livro 23: o sinthome”, 1975-1976, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007;

______”Je parle aux murs”,1971-1972, Éditions de Seuil, août 2011;

______ Entrevista coletiva realizada em Roma em 29 de outubro de 1974;

Revista da Escola Letra Freudiana: “A análise é leiga: da formação do psicanalista, ano XXII, n. 32, Rio de Janeiro, 2003.

Gérard Pommier, “A medicalização da experiência humana”, Le Monde Diplomatique Brasil, Março de 2018, São Paulo.


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10 de outubro de 2018by Ato Freudiano0

“Alguma coisa está fora da ordem”?  – sobre o mal-estar na cultura

                                        Wania de Almeida Barbosa –  2016

Atualmente os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade, seu medo. Cabe agora esperar que a outra das duas “potências celestiais”, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace? (Freud, O mal-estar na civilização)

A questão da felicidade orienta Freud em sua pergunta sobre o mal-estar na cultura e sua resposta refere-se à constituição do sujeito, à impossibilidade de satisfazer o princípio do prazer, tendo em vista a questão pulsional, que por um lado revela ser parcial a satisfação e, por  outro, aponta o mais-além aí implicado. Se se insiste na busca da felicidade, ela, enquanto ideal, torna-se muitas vezes campo de angústia, e pra que algo relativo a ela seja experimentado é necessário um saber-fazer com o impossível que lhe concerne. Assim, desde 1920, Freud convoca  cada um a descobrir sua maneira de se salvar e revela que os objetos e avanços tecnológicos operam como substitutos, como próteses frente às perdas que são efeitos do progresso promovido pela cultura.

Desde então muitas coisas mudaram, mas permanece o que é da estrutura. Levando isso em conta, o discurso capitalista associa-se à ciência e, atendendo a uma demanda estrutural, lança os produtos por ela produzidos como passíveis de obturar a falta constitutiva do falante. Mas, se o capitalismo reconhece essa falta como motor que o retroalimenta, desconhece que é impossível obturá-la, pois ela é relativa, em termos  individuais, à perda do objeto quando da fundação do sujeito; e, em termos coletivos, à renúncia pulsional exigida para manutenção do laço social. Assim, ao passo que  se acirra cada vez mais a oferta de felicidades adquiridas por vias as mais diversas, vemos um sujeito cada vez mais engolfado por uma pergunta que não se faz, uma pergunta sobre seu desejo…

A ciência, em seu surgimento, separa sujeito e objeto, separa sujeito e saber e, nesse ato, lança objeto e o saber como algo a ser recuperado. Algo em busca do que esse sujeito se envereda, mas buscando-o sempre fora, sempre no Outro. Ao não se reconhecer constítuido por eles – saber e objeto – mesmo que alhures, o sujeito não reconhece a divisão que o constitui, nem se implica nela. Se desresponsabiza sobre o que lhe diz respeito e sobre seu modo de estar no mundo. Segundo Brigitte Lemérer, a ciência produz um real que invade nossa vida cotidiana com uma inumerável e múltipla quantidade de objetos e regulações, e transforma os sujeitos em não mais que um simples número. Trata-se, entretanto, de um real que é estranho ao sujeito, que lhe suscita angústia, mas não lhe permite saber “o que ele é como vivo e como falante”. Assim, o mal-estar, que não é passível de ser contornado pela palavra, revigora-se de forma insidiosa.

Freud evidencia em seus textos (Malestar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Eu) que a vida em sociedade faz com que o homem troque um tanto de felicidade por um tanto de segurança, que ele abdique da liberdade individual em proveito da justiça. E, após o estabelecimento desses novos critérios, faz deles novas bandeiras de reivindicações. Constata-se isso, por exemplo, na luta que se trava, há séculos, por  igualdade e por justiça. E, se muitas conquistas se alcançaram quanto ao direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, entre outros, esses avanços convivem e, possivelmente, sempre conviverão, como um rechaço a eles. Parece não ser em vão que os movimentos se nomeiem “luta”, pois reconhecem a exigência de trabalho continuo para a manutenção do que pretendem garantir.

Igualdade e diferença são elementos fundamentais em torno dos quais se mobilizam os grupamentos humanos. Freud mostra-nos, em Psicologia das Massas, como o amor e ódio se colocam como o laço de sustentação dos grupos, seja interna ou externamente, nas relações de cooperação ou rivalidade que estabelecem entre si. Trata-se do que ele chama narcisismo das pequenas diferenças, como fato relativo àquilo que permite que os membros de um grupo se identifiquem entre si e reconheçam o diverso, o diferente como passível de exclusão, quando não, de eliminação. A partir dessa formulação, pode-se ler diversas querelas e até mesmo guerras de grandes proporções que ocorreram ao longo da história.

Se nos detivermos na questão dos grupamentos humanos, especialmente, a dos grupos liderados, a identificação é o eixo fundamental para a sua coesão e seu funcionamento. Trata-se, nessa formulação, de que o eu de cada membro introjete o ideal do eu do líder. Sendo assim, um traço comum e ideal é o que é constitutivo do grupo. Não podemos deixar de considerar que, nesse texto, Freud mostra-nos não só a psicologia das massas, mas a análise do eu, de sua fundação à sua constituição, a referência ao outro e o lugar da identificação, bem como os efeitos desta. Dessa forma, revela o lugar do ideal do eu para o sujeito e sua origem no supereu, como resto da operação do Édipo, ou seja,  como devedor da função paterna. O ideal do eu tem uma função essencial ao estar referida à questão do desejo, por um lado, e da lei, por outro, colocando-se para o sujeito, talvez, como vetor na sua relação com o desejo e o gozo.

Diante do lugar fundamental do ideal do eu para o sujeito, e consequentemente, na cultura, como pensá-lo em tempos em que a função da qual deriva, a função paterna, parece opaca, se não esmorecida? Lebrun, no livro Um mundo sem limites, destaca os efeitos da passagem de uma organização social marcada pela religião para uma organização social marcada pela ciência. Sua articulação evidencia, ao longo de todo o livro, o lugar que é dado ao pai nessa passagem e como a função paterna, a partir da entrada do discurso da ciência, é deslocada ou mesmo invalidada, o que tem efeitos sobre a questão simbólica.

É o pai ou que seria sua função que intervém, instaurando interditos necessários à constituição do campo do desejo, fazendo contraponto ao gozo presente na relação complementar e imaginária entre mãe e filho.  Lebrun reafirma a importância do pai para introdução e validação do simbólico, na medida em que este introduz a dimensão de uma alteridade radical, quando de sua entrada no Édipo. A intervenção paterna, portanto, faz prevalecer a ordem simbólica, cujas premissas já estavam colocadas, mas vêm estabelecer-se definitivamente.

Revela-se, assim, a importância de situar o pai e seu lugar para se pensar as questões que nos circundam e a dimensão social em que estamos imersos, pois a efetividade ou não de sua função permitirá uma leitura da consideração que se tem pela lei, sua validade e as formas de aboli-la. Lembrando que a lei do incesto traz em si uma interdição a um gozo mortífero e, ao introduzir, a dimensão da castração, lança o sujeito ao campo do desejo, talvez se tenha chance de avaliar o que excede de gozo no campo social, inclusive na política, a cada vez que a dimensão do desejo é sempre mais desconsiderada.

E, diante do que se nos apresenta hoje – Trump, Al-Qaeda, Brexit, Mariana, 22 mil neonazistas declarados na Alemanha, Paris, Bolsonaro – da letra de Caetano, faz-se pergunta: “alguma coisa está fora da ordem”?, “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”? Retrocesso? Um movimento cíclico no qual aos avancos e conquistas sobrevêm ameaças e conservadorismo? Parece que está tudo dentro da nova ordem mundial! A ordem definida e mantida pelo discurso capitalista, de mãos dadas com sua parceira, a ciência, e cujo casamento tem formado uma geração da qual Black Mirror é mesmo um espelho, no qual não se reflete nada além de angústia e mal-estar.

Mas, quando se pensa em avanços e retrocessos, quando se pensa em movimento cíclico faz-se necessário retomar, a partir da perspectiva da psicanálise, a questão dos ideais, afinal é em torno deles que a sociedade se organiza e encaminha suas demandas. Freud afirma no texto O Recalque, revelando um elemento estrutural, que “os objetos favoritos dos homens, seus ideais, provém das mesma percepções e vivências que os mais execrados por eles, e que originalmente eles se diferenciem uns dos outros apenas por mudanças míninas”. O que nas palavras de Eduardo Vidal e Paulo Becker pode-se ler assim: “cada ideal que se oferece para a alienação corresponde a seu avesso obsceno”. Retomando a questão do parrícidio, como fundador da cultura, esses autores consideram que “por trás do ideal, continua vigente o canibalismo do crime primordial”.

Portanto, diante disso que é do sujeito e do que é, também, matéria que permeia a cultura, o texto  O ideal, o ao-bjeto e o real traz elementos necessários pra se pensar o que resta  da constituição do sujeito e da cultura, e que, ao retornar, pode trazer espanto e horror. Segundo Vidal e Becker, os sacrifícios mortificantes sempre exigidos para a integração à sociedade, deixa

o sadomasoquismo como marca indelével da inscrição na cultura, é sua base pulsional constitutiva, está na raiz do que é propriamente humano. E é no ponto de falha inerente à lei simbólica, no ponto de ruptura eventual da lei simbólica que surge como aparição o “ao-bejto”.

O ao-bjeto deriva da incorporação de um traço do pai, a partir do parricídio. Nesse sentido, comporta o objeto introjetado, o pai, mas, também, o ato abjeto que lhe originou. Da citação dos autores acima, poderíamos dizer que quando a função simbólica, introduzida pelo pai, falha, é a dimensão do gozo que mostra sua face de horror, trazendo a campo o ao-bjeto? Ou de outra forma: se há uma falha na função paterna, com efeitos sobre a inscrição ou validação do simbólico, não se abre o campo para um retorno pregnante do abjeto? Banalização da vida, terrorismo, corrupção, misoginia, refugiados – são alguns dos nomes do horror que nos acerca, atualmente.

Poderíamos ler, também, na política essa dimensão do ao-bejto? No caso brasileiro, um fato que chama a atenção na atitude dos políticos é desconsideração pela lei, pela coisa pública, e por aqueles que representam. Se se retoma o ato originário, parecem querer colocar-se no lugar do pai morto, daquele que goza de todos. Parecem não reconhecer a lei que se estabelece a partir dessa morte, e que, no máximo, os permitiria estar como representantes, mas não no lugar dele. Retomando a questão do ao-bjeto, dois elementos devem ser destacados quando se pensa nos descaminhos da política no Brasil: o primeiro é relativo ao traço; o segundo, referido à própria constituição do sistema político. Por um lado tem-se como traço do povo brasileiro algo relativo a um crime, por ter sido constituído, em suas origens, por degredados de Portugal. Por outro, verifica-se, mediante as coligações partidárias exigidas para ascender ao poder, um embotamento ou mesmo uma perda dos ideias, sejam eles quais forem. Quando esses dois elementos se conjugam, o que resta senão apenas o abjeto?!

Para se pensar outras questões relativas à política, um elemento importante a ser considerado é a problemática do serviço dos bens, tal como Lacan propõe. Nesse sentido, considera-se que “o âmbito do bem é o nascimento do poder”, pois é em torno de um bem, um bem coletivo que se estabelecem as ideologias partidárias ou políticas como um todo. Lacan, a partir do Seminário 7 e do texto Kant com Sade, articulando a questão do bem, contrapõe moral e ética. A questão da moral, geralmente sustentada pela ideia de assegurar um bem, se opõem enquanto impeditiva ao campo da ética, na medida em que “a dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo” (sem 7, p. 280). Segundo Lacan:

        uma parte do mundo orientou-se resolutamente no servico dos bens, rejeitando tudo o que concerne a relação do homem com o desejo – continuemos trabalhando e, quanto ao desejo, vocês podem ficar esperando sentados […| ao formular as coisas desse modo, só fazem perpetuar a tradição eterna do poder. ….(pode-se supor que) o campo dos bens, no serviço dos quais temos que nos colocar, possa num certo momento englobar todo o universo. (Sem, 7, p. 381)

Confirmando a previsão de Lacan, a lógica dos bens, compartilhada e desejada por todos, assumiu uma proporção tão globalizante e desmedida que tem dado ao capital, enquanto tal, a função de governar. É o que afirma Boaventura de Souza Santos: “neste momento, estamos em uma fase do neoliberalismo, que o neoliberalismo não confia mais nos políticos de direita. Ela quer empresários, quer os seus a governar”.  E esse pode ser um dos elementos que justifica alguns resultados recentes, como a eleição de Dória, para prefeito de São Paulo, e de Trump para presidente dos EUA, que confirmando o lugar do capital, convocou alguns bilionários para compor seu governo.

Nesse contexto, deve-se, ainda, considerar as diversas propostas políticas que surgem ou ressurgem nesse momento no mundo, quando avançam as possibilidades de governos de extrema direita. Parecem pretender restaurar um estado anterior, mas nem por isso deixam de se orientar pela lógica do serviço dos bens. É isso, por exemplo, o que ecoa no Brasil com a pretensão de reinstaurar “ordem e progresso”. O cunho saneador, conservador e, na maioria das vezes, moralista dessas propostas revela o ressurgimento de ideais muitas vezes assustadores que, no caso brasileiro, se exprimem, em seu extremo, num pedido de retorno dos militares ao poder. E isso tudo a mote de uma retomada do crescimento econômico e de uma luta contra a corrupção!

A relação da política com a perversão parece poder ser antevista quando se situa o perverso como aquele que quer fazer crer a existência do Outro, aquele cuja relação com a lei é de desmenti-la. Isso fica escancarando no atual momento político pelo qual passamos no Brasil, quando os mais diversos representantes do povo chegam mesmo a perverter aquilo é relativo ao serviço dos bens. Os políticos brasileiros, em sua maioria, governam em causa própria, visando não “um bem” mas seu bem, ou mais explicitamente, seus bens. Congresso e Senado brasileiros, de forma ardilosa, sustentam suas falcatruas e se protegem um ao outro, projetando seus membros para fora das possibilidades da lei. Estamos num campo onde a lei é desmentida e chegamos, talvez, a um ponto que revela um outro posicionamento frente a lei, no qual ela é recusada. Essa recusa dá-se a ver, por exemplo, no caso do projeto anti-corrupção, que corre o risco de ser escrito parcialmente, ou nem ser escrito…. E, como já alertou Lacan, os efeitos do que não se inscreve no simbólico, retorna desde o real!

Diante do cenário esboçado aqui, sob um certa perspectiva, concluo com a abordagem que Brigitte Lémerer traz em seu texto, L’encobriment du real. A partir do que Lacan propõe no Seminário 8, ela faz referência ao que retorna à sociedade, a cada tempo, como sua père-version, a versão do pai. De certa forma, refere-se à maneira como a neurose é acolhida, a cada tempo da cultura, e é trabalhada a partir do laço social, no sentido de uma possível sublimação. Teríamos como efeito dessa sublimação o amor cortês, na sociedade medieval, e a homossexualidade, em Atenas. Cabe, aqui, uma pergunta: diante do lugar do pai na sociedade atual, ou do que parece comparecer como uma falha em sua função, o que poderia se propor como père-version em nossa sociedade? Se nessa formulação de Lacan algo de uma sublimação é produzida a partir do laço social, qual a chance de que algo dessa ordem se produza na tentativa de um contorno ao mal-estar contemporâneo, numa sociedade na qual o discurso que prevalece não faz laço?

E se a poesia tem como possibilidade contornar algo do real, termino com Caetano, que mesmo quando diz que algo esta fora do ordem, não deixa escapar a dimensão do feminino e traz do impossível o efeito que interessa:

Eu não espero pelo dia

Em que todos

Os homens concordem

Apenas sei de diversas

Harmonias bonitas

Possíveis sem juízo final…


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6 de setembro de 2018by Ato Freudiano0

          Um certo júbilo

                                                                                                        Clara Jaeger

 

Chegamos hoje, no percurso do Ato Freudiano, aos 25 anos de história. A primeira coisa que me veio à mente foi que estávamos vivendo o Jubileu da Escola, e então fui me debruçar sobre como seria essa espécie de contagem da passagem do tempo.  A respeito do Jubileu:

O jubileu é uma solenidade da Igreja Católica, hoje realizada a cada 25 anos. Por motivos especiais o papa pode comemorar jubileus extraordinários.

A origem do jubileu é bíblica, como é possível verificar em Levítico 25:1-17. O ano do júbilo se abre com o toque da trombeta, chamada em hebraico “jobel”, daí o nome jubileu.  Previa a prática da libertação do escravo e a devolução das propriedades. O ano do júbilo, onde não semearão. Será um ano sagrado e que comerão o que o campo produzir.”

Ainda:

“O tempo de Jubileu, seria um tempo de paz e reconciliação, um tempo de festa e perdão. Um tempo de Graça Divina. Um ano santo.”

“Jubileu é o quinquagésimo aniversário de casamento, do exercício de uma função (jubileu sacerdotal, jubileu de magistério etc.) de uma instituição, de um estabelecimento comercial ou industrial.”

“Jubileu é um aniversário solene, é também um grande espaço de tempo. Os jubileus mais comemorados são o jubileu de prata, referente aos 25 anos e o jubileu de ouro referente aos 50 anos.”

A partir do conceito de Jubileu, e para além dele, depreende-se então “júbilo”:

Alegria excessiva; grande sensação de felicidade: a igreja está em júbilo. Em que há grande satisfação ou contentamento; jubilação: estado de júbilo.”

Talvez algo desse substantivo possa se aplicar ao momento comemorativo que atravessamos este ano. Por isso um certo júbilo, tendo em vista que a satisfação está presente, porém desbastada pelo trabalho que enxuga o excesso, promove uma perda gozo e nos relança ao fazer Escola constantemente. Junto dos 25 anos do Ato Freudiano, estamos ainda no que seria o ano jubilar também da Proposição de 9 de Outubro, que fez 50 anos. Esta dupla comemoração se baseia na importância do que nos inspira enquanto baliza para o avanço e manutenção da psicanálise no mundo.

Um outro ponto que surge das correspondências de Jubileu é a ideia de colheita. Podemos pensar que de fato existe algo que se recolhe em uma data onde fazemos um intervalo para pensar no quanto pudemos caminhar até aqui. O próprio conceito de intervalo e a contagem do tempo nos é muito caro. Roberto Pompeu de Toledo  brinca em seu poema sobra a contabilização do ano, que

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.” 

Parece que esse corte em fatias nos proporciona um contorno possível do tempo. De fato a ideia de uma temporalidade  nos faz nos deter em recortes de história para que possamos revisitar e relançar questões pertinentes ao nosso trabalho. Aos 25 anos de trajetória, verificamos a importância deste espaço de Escola, cada vez mais, como espaço vivo de formação. Um lugar que permite que se sustente algo subversivo diante do que temos estruturalmente no mundo como as paixões do ser, possibilitando que algo de um frescor possa se colocar junto ao trabalho com os pares, a partir do laço social. Sem que se caia no acomodamento de “uma casa de repouso para aposentados”, como nos alerta Lacan, mas através do exercício de abertura e desalojamento permanentes. Que leva em consideração os tropeços e os embaraços, e insiste. Nesse sentido, temos muito o que comemorar, na ratificação de um desejo que persevera, que põe a trabalhar e que faz prevalecer a ética da psicanálise. Nesse ano no seminário a Política da Psicanálise, [que junto com as Práticas da Letra, e ainda, a Oficina de Cinema, nos parece ir na direção de um afinamento necessário ao avanço do nosso percurso] pudemos trabalhar recentemente a gênese do que veio a ser num outro tempo, a Escola. Quando Freud propõe de alguma maneira um coletivo de analistas que se arrisque a falar em nome próprio, apesar da aversão de sustentar a palavra no coletivo, ele inaugura a possibilidade desse espaço de formação. Poder estar aqui hoje, é algo que só foi possível por isso. Poder contar com um lugar que acolhe sem colo, sem cola, tem um calor que pinica, pois convoca a avançar. Avanço que é marcado por alguns passos. Como aponta Wânia Barbosa, “a marca do passo dado, pressupõe os anteriores e indica, possivelmente, os próximos”. Que possamos seguir então com menos ingenuidade, mais atentos ao funcionamento já que não há garantias com relação aos possíveis desvios, porém com um certo júbilo e algum entusiasmo. De acordo com Maria do Carmo Motta Salles, “desejo e entusiasmo não são, portanto, naturais, mas efeitos  de um reviramento na estrutura, que impõe um despertar e um recomeço a cada nova experiência clínica que, ao convocar o desejo do analita, rompe com a força do hábito. Assim, é possível algo rebrilhar enquanto causa, e fazer com que uma nova escrita do Real possa se constituir a partir da subversão do tempo empreendida pela experiência analítica, que força a estrutura a se localizar entre uma anterioridade que se apaga e um ‘ainda não’ que se coloca.”

Nos 25 anos então dessa Escola, que possamos dizer com coragem, e com  um certo júbilo, vivo o Ato Freudiano!


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

A práxis psicanalítica*

Silvânia Marques Motta**

RESUMO: A obra de Arte remete ao trabalho da verdade, ao contorno dado pelo artista àquilo a que se reduz o sujeito suposto saber. Já o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato – objeto a – onde o meio de produção da verdade é o discurso analítico e o semblant é o faz-de-conta que implica o saber-se dejeto. A renovação constante do desejo do analista viabiliza a permanência da psicanálise na cultura, que tem a ver com a sustentação do seu discurso no mundo.

 

PALAVRAS-CHAVE: ARTE; VERDADE; PRODUÇÃO; PSICANÁLISE.

Lacan, no seminário Mais, ainda (1973), diz que há saber no Outro, a ser tomado. O ICS é-feito de linguagem: é o que chega ao Sujeito do campo do Outro como determinação, relação de dependência. É nos efeitos de linguagem que a verdade se semidiz. Diante da castração, fato de estrutura, o saber-fazer aí exige um atravessamento.

O saber produz objeto a. Na psicanálise, a produção do saber como saber é um meio de produção da verdade, em que o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato: “é o próprio psicanalista que encarna, que encarna essa produção”.  Tem a ver com o agir do analista, dimensão do ato. Assim, o semblant é o faz-de-conta implicado no saber-se dejeto. E o meio de produção da verdade é o discurso analítico. O analista se vale do engano estrutural, que é o sujeito suposto saber, joga com o que devolve ao paciente, a falta. O que pensar quanto à sua presença real e a suspensão de sentido na análise?

A práxis de um analista tem um alcance muito além de uma prática clínica. Implica intensão, extensão e se funda sobre uma ética. Sua política é ligada à ética do desejo, não assimilável a qualquer barganha, emprego comum da política.  A prudência do analista requer um certo disfarce, ser discreto, ficar em silêncio.

Em contraposição à práxis, a poiesis – criação poética – se refere a um meio de trabalho da verdade, à capacidade de produzir na qual, segundo Aristóteles, algo é produzido por alguém.  Em que medida o produto é, então, distinto do produtor? Evoca uma questão a respeito do dentro-fora.

Lacan referiu-se à sublimação como “…própria daquele que sabe contornar aquilo a que se reduz o sujeito suposto saber”. Fazer borda remete ao trabalho da pulsão, a pulsão contorna a. Contorna remete a turn, volta, borda em torno da qual se dá a volta, e a trick, volta de uma escamoteação, um truque.

A sublimação, um dos seus destinos, envolve uma relação com a pulsão de afinação à causa de desejo, na medida em que o artista se guia pelo não-saber.  A elevação do objeto à dignidade de Coisa suscita a causa, mas essa sempre relançada, adiada, contudo, enquanto operação radical de subtração, de ratificação da perda.

Poderíamos pensar a psicanálise como a experiência que implica em uma solução, no viés de um circuito pulsional mais “curto”, enxuto pelo desprendimento do gozo paralisante, uma ação menos submetida ao Outro, visto a liberação de pontos de fixação, a partir de um saber sobre o Édipo.

O que temos diante de nós, em análise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu tipo próprio de satisfação. Se nós nos metemos com isto, é na medida em que pensamos que há outras vias, mais curtas por exemplo…se nos referimos à pulsão, é na medida em que é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser retificado.

Lacan disse que “toda criação artística situa-se nessa demarcação do que resta de irredutível no saber, como distinto do gozo”. A obra de arte viabiliza a suspensão de sentido, a partir da demarcação da falha no saber, onde vem se alojar a invenção. Segundo o artista plástico Cildo Meireles, o ápice da obra é atingido no limite entre ficção e realidade. Assim, antes que seja feito qualquer juízo, algo do Real pode ser tocado, a partir da subversão de espaço e tempo.

O documentário Cildo (2009) ressalta a obra de Cildo Meireles e, nas falas do artista, elementos precisos do que a arte pode ensinar, a nós analistas.

Marcado por duas experiências, a passagem de um andarilho pela cidade, na infância, e a chegada do homem à lua, Cildo toma como referências o astronauta Michael Collins e o andarilho. Esse último, deixara entre os restos do acampamento de uma noite, um artesanato confeccionado na madrugada. O astronauta fora o único ser humano orbitando entre terra e lua, nem lá nem cá, no momento em que as atenções da humanidade se voltavam para os astronautas que pisavam a lua. Cildo identifica-se com o astronauta como o terceiro, solitário. E talvez com a posição daquele garantido apenas no próprio desejo, sem busca de reconhecimento, e que destina um legado ao Outro.

Cildo fala da pretensão do seu trabalho como um seqüestro que retira o espectador daquele lugar e momento, “mesmo que por um átimo de segundo”. Fala das artes plásticas como uma linguagem não limitada em sua estruturação, de fronteira vaga, que não se sabe onde ela começa ou termina, o que justifica que não dependa do tempo para estabelecer uma relação com um objeto. Ela existe de forma que o espectador se depara, tem uma “relação física” e, “a partir daí o trabalho tem que capturar esse incerto”.

A memória é, para ele, o melhor lugar para uma obra de arte, por lidar com a possibilidade material da prova temporal. Ela é catalisadora, tem a função de deflagração, papel proeminente na obra de Cildo, que vem da memória oblíqua da infância. Parece implicar um trabalho de escrita do artista da própria trajetória.

O trabalho da verdade não visa a produção de um saber como verdade. O artista faz da obra sua destinação significante ao campo do Outro, vinculada ao fazer-se reconhecer como desejante.

Outro ponto de relevo é quando evoca o significante lejos, demarcando o limiar de sua obra a partir da introdução dessa “coisa exterior ao seu mundo, seu real”. A exterioridade nos remete à questão da ex-sistência.

Os seminários borromeanos de Lacan colocam o Imaginário na mesma gradação, junto a Real e Simbólico. O mínimo de três é o fato de consistência entre os registros, necessário à sua nodulação, em torno do buraco. A partir disso, não se pode pensar em tratar o Real apenas pelo Simbólico e o Imaginário como o que faria obstáculo na cura. O Real indica a ex-sistência no nó, ponto de exclusão no sentidoum fora que não é um não-dentro. O nó borromeano é a escritura do que opera numa cura, suas consistências de buraco onde o corte faz nó, visando a redução do sentido. A suspensão de sentido, a partir da análise, é algo como escreveu F. Samson: “a interpretação deve ter o gozo como alvo e, portanto, se situar na fronteira do real e do simbólico, aí onde a letra fixa o referido gozo”. Nessa via, temos a proposição: a interpretação é o seu efeito. Ela isola, no sujeito, um coração de non-sense. A partir da escuta da enunciação.

“A interpretação é uma significação que não é não importa qual…ela “reverte a relação que faz com que o significante tenha por efeito, na linguagem, o significado. Ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível…” que para o advento do sujeito o “essencial é que ele veja, para além dessa significação, a qual significante – não-senso, irredutível, traumático –ele está, como sujeito, assujeitado” .

O corte da psicanálise em relação à psicologia do ego diz da identificação ao objeto a separador, veiculado pelo discurso analítico. O objeto a causa o fechamento inconsciente, que comporta a transferência. A função desejo do analista é o suporte da práxis e implica manejar a transferência, para sustentar a abertura ao saber inconsciente.  O suporte da transferência é o sujeito suposto saber. Ao mesmo tempo que em alguns momentos um fechamento é necessário, tornando a análise suportável para o Sujeito, a transferência é atualização desejante, na qual o desejo do paciente se enlaça ao desejo do analista.

“Sustento que é o nível da análise… que se deve revelar o que é desse ponto nodal pelo qual a pulsação do inconsciente está ligada à realidade sexual. Este ponto nodal se chama desejo…A função do desejo é resíduo último do efeito do significante no sujeito”

Qual a especificidade da psicanálise face às práticas da letra? Sustentar o discurso analítico.

Sendo assim, um não-analista pode ter feito um passe? Não, se no sentido conceitual, em psicanálise, no passe é escutado algo da passagem ao desejo do analista. Quem terminou sua análise ou fez uma obra pode ter feito sim uma passagem pelo discurso do analista, e na vida daquele Sujeito o Real vai estar incluído naquilo que ele produz, e até transmite, mas sem que para isso tenha escolhido sustentá-lo. Fazer-se representante desse discurso no mundo, isso inclui ocupar o lugar de analista.

A Escola só garante a relação do analista com a formação. Submeter-se à experiência da psicanálise, em intensão e extensão, não garante o tornar-se analista. Isso supõe uma decisão, escolha radical, necessária a um atravessamento.

O sujeito que escolheu não dar esse passo, pode dar sua contribuição à psicanálise, ou ter uma afinação discursiva, mas ele não vai além de um certo limite. Não se coloca nesse ponto de Real. A.E são letras, indicam a escritura a partir da qual é possível produzir teoricamente sobre o passe, que é o que interessa à psicanálise, visto que a renovação constante do desejo do analista viabiliza sua permanência na cultura, que tem a ver com a sustentação do discurso da psicanálise no mundo.

O Sujeito escolheu não ir além desse limite do horror ao saber. O que implica considerar a posição de cada um, pois o contrário seria supor que o desejo do analista produz-se como mágica, ideia falsa, ligada aos significantes aparecimento e surgimento.

 

BIBLIOGRAFIA

LACAN, Jacques. (1964). O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008.

______. (1968-69). O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2008.

______. (1973). O Seminário: Livro 20: mais, ainda. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MEIRELES, Cildo. Série Retratos contemporâneos da arte. Direção: Gustavo Rosa de Moura. Roteiro: Gustavo Moura e Sergio Mekler. Fotografia: Alberto Bellezia. Produção: Ana Murgel e Mariana Ferraz. Brasil: MATIZAR Filmes, 2009. Documentário. 1 DVD (78 min.).

SAMSON, Françoise. A Interpretação. Texto de orientação ao Colóquio 2013: O quê é uma psicanálise? Tradução de Silvia Myssior para o Aleph Escola de Psicanálise. Circulação Interna.

* Trabalho apresentado durante a X Jornada de Cartéis do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora, 2012

**Psicanalista, membro do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora

LACAN. O Seminário: Livro 20: mais, ainda

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 337

Idem, p. 341

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 164

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 341

Cildo Meireles, In: Documentário: Cildo, de Gustavo Rosa de Moura

SAMSON. A  interpretação. p. 4.

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 242.

Idem, p.243.

Idem, p. 152.


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

Práticas da Letra e psicanálise 03/03/2018

David Lynch – A vida de um artista – Arte e vida 

 

Bom, em 2011 inauguramos este espaço de trabalho: Práticas da letra e psicanálise. Desde então, temos buscado garimpar na fala de artistas, poetas e escritores o ponto de tensão que se impõe a eles e os empurra a uma posição decidida, sem concessões. Passamos por vários autores e hoje estamos aqui com o sobre filme David Lynch, em que vida e arte se confundem… se entrelaçam, ou seja, estão no mesmo lugar.

Começo meu comentário com uma frase do próprio David Lynch: “eu decidi ser pintor naquele instante”. Um instante que adivinho do real, não apenas como negação, como aquilo que resiste à simbolização, mas que opera como passagem, como atravessamento… o leva a um modo de estar no mundo.

Portanto, é de uma contingência singular que retorna ao artista, como um não-sentido enigmático, como um saber desde o real, que um traçado vai se fazendo estilo. Algo lhe é imposto de fora e exige um trabalho árduo e paciente do irrepresentável que o acossa.

Clarice Lispector vai nos dizer: “escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva”. (Lispector, C – em A descoberta do mundo)

E, Marguerite Duras, também afirma: “escrever é encontrar-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escritura a salvará”.

“É isso a escritura. É o trem do escrito que passa pelo seu corpo, o atravessa. É daí que se parte para falar dessas emoções difíceis de dizer tão estranhas e que no entanto, repentinamente, se apossam de nós”. (Duras, M – em Escrever)

Essas palavras também afirmam que há uma decisão de se deixar levar por esse inominável que se impõe. Por isso, uma decisão que não permite recuos.

Cito agora outras afirmações de David Lynch: “Eu só estava interessado em meu mundo”. “Vivia com medo, mas tudo o que eu queria era pintar”.

E acrescento o que Kandinsky nos ensina: “Através da mão do artista, uma força exterior se precipita sobre o ponto fixo no plano, arranca-o e empurra-o numa direção qualquer, sua tensão concêntrica é destruída, o ponto desaparece e se torna um ser novo, com vida autônoma e submetido a outras leis, eis a linha”.

A obra se destaca, ganha vida própria… o sujeito se apaga em prol de uma economia pulsional. É um caminho, que na contramão do lugar comum, transmite algo desse estranhamento, desse indizível que o move. E, o medo, como nos diz Lynch, (o medo é um dos nomes da angústia) não o impede de ir em frente porque se submete ao desejo – “tudo o que eu queria era pintar” e o impulsiona a se endereçar ao campo do Outro, fazendo laço social.

David Lynch nos diz ainda: “Eu precisava me divertir, encontrar o meu estilo”.

Então, se há uma maldição, nas palavras de Clarice Lispector, há também um certo divertimento em ser empurrado em uma direção qualquer, sem saber o que virá.

Esse desejo decidido se aproxima do desejo de Freud, que em uma carta a Fliess (07/07/1898) quando redigia a interpretação dos sonhos, e preocupado em escrever uma obra científica, escreve:

“Eis aqui alguns resíduos de minha última investida. Eu só consigo compor os detalhes no processo de escrever. Esse processo segue completamente os ditames do inconsciente, seguindo o bem conhecido princípio de Itzig, o cavalheiro de domingo. “Itzig, aonde você vai? “E, eu sei? Pergunte ao cavalo”. Eu nunca comecei um único parágrafo sabendo de antemão onde terminaria.”

Há portanto, um desejo decidido no artista e no analista em relação à transmissão desse ponto indizível, mas há também um ponto que os distingue. Enquanto o artista tem uma via aberta que faz com que a obra – o objeto – se destaque e faça laço, o analista precisa se inserir em um laço de trabalho para  que um saber fazer se constitua. Para que um estilo possa se depurar, para que a maldição se faça com algum divertimento. Porque no campo artístico tensão e extensão se enlaçam no próprio ato do saber – fazer a obra. Para o psicanalista para que o ponto fixo se mova, faz-se necessário uma articulação entre intensão e extensão.

A Escola fundada por Lacan é o lugar que abre essa possibilidade.

“Estamos conscientes de que os resultados da psicanálise, mesmo em seu estado de duvidosa verdade, têm aspecto mais digno do que as flutuações da moda ou as premissas cegas nas quais se fiam tantas terapêuticas no domínio em que a medicina não terminou de se delimitar quanto aos critérios (os da recuperação social, não isomorfos aos da cura?) e parece até atrasada quanto à nosografia: dizemos a psiquiatria, transformada numa questão para todos.”

“É até muito curioso ver como a psicanálise serve aqui para-raios. Como, sem ela, se levaria a sério aquilo que se orgulha de opor-se-lhe? Daí um statu quo no qual a psicanálise fica a vontade mesmo que se saiba de sua insuficiência.”

“Se nos limitarmos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar seu campo não somente a um trabalho de crítica: à abertura do fundamento da experiência, ao questionamento do estilo de vida no qual ela desemboca.” (Lacan, Preâmbulo da Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris)

Então, em uma direção aposta às tendências totalizantes atreladas a ideais de visibilidade, representatividade e estatísticas plenas de sentido – a escola é um lugar que aposta que na falha do significante – algo novo possa advir e, nesse sentido, um estilo próprio e um estilo de vida se enlaçam.

Abrimos o nosso tema do ano: “O que emerge do real: angústia, sintoma e objeto”, com a contribuição decisiva de David Lynch.

Vamos também tentar dar um outro passo da política e psicanálise, que fizemos um caminho no ano passado, para a política da psicanálise.

Acho que podemos ficar animados porque tenho certeza que maldição e divertimento na direção do desejo é uma via muito mais interessante do que um outro tipo de maldição e divertimento que se instalou no campo da política.

 

Maria do Carmo Motta Salles