Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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2 de abril de 2018by salada0

A práxis psicanalítica*

Silvânia Marques Motta**

RESUMO: A obra de Arte remete ao trabalho da verdade, ao contorno dado pelo artista àquilo a que se reduz o sujeito suposto saber. Já o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato – objeto a – onde o meio de produção da verdade é o discurso analítico e o semblant é o faz-de-conta que implica o saber-se dejeto. A renovação constante do desejo do analista viabiliza a permanência da psicanálise na cultura, que tem a ver com a sustentação do seu discurso no mundo.

 

PALAVRAS-CHAVE: ARTE; VERDADE; PRODUÇÃO; PSICANÁLISE.

Lacan, no seminário Mais, ainda (1973), diz que há saber no Outro, a ser tomado. O ICS é-feito de linguagem: é o que chega ao Sujeito do campo do Outro como determinação, relação de dependência. É nos efeitos de linguagem que a verdade se semidiz. Diante da castração, fato de estrutura, o saber-fazer aí exige um atravessamento.

O saber produz objeto a. Na psicanálise, a produção do saber como saber é um meio de produção da verdade, em que o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato: “é o próprio psicanalista que encarna, que encarna essa produção”.  Tem a ver com o agir do analista, dimensão do ato. Assim, o semblant é o faz-de-conta implicado no saber-se dejeto. E o meio de produção da verdade é o discurso analítico. O analista se vale do engano estrutural, que é o sujeito suposto saber, joga com o que devolve ao paciente, a falta. O que pensar quanto à sua presença real e a suspensão de sentido na análise?

A práxis de um analista tem um alcance muito além de uma prática clínica. Implica intensão, extensão e se funda sobre uma ética. Sua política é ligada à ética do desejo, não assimilável a qualquer barganha, emprego comum da política.  A prudência do analista requer um certo disfarce, ser discreto, ficar em silêncio.

Em contraposição à práxis, a poiesis – criação poética – se refere a um meio de trabalho da verdade, à capacidade de produzir na qual, segundo Aristóteles, algo é produzido por alguém.  Em que medida o produto é, então, distinto do produtor? Evoca uma questão a respeito do dentro-fora.

Lacan referiu-se à sublimação como “…própria daquele que sabe contornar aquilo a que se reduz o sujeito suposto saber”. Fazer borda remete ao trabalho da pulsão, a pulsão contorna a. Contorna remete a turn, volta, borda em torno da qual se dá a volta, e a trick, volta de uma escamoteação, um truque.

A sublimação, um dos seus destinos, envolve uma relação com a pulsão de afinação à causa de desejo, na medida em que o artista se guia pelo não-saber.  A elevação do objeto à dignidade de Coisa suscita a causa, mas essa sempre relançada, adiada, contudo, enquanto operação radical de subtração, de ratificação da perda.

Poderíamos pensar a psicanálise como a experiência que implica em uma solução, no viés de um circuito pulsional mais “curto”, enxuto pelo desprendimento do gozo paralisante, uma ação menos submetida ao Outro, visto a liberação de pontos de fixação, a partir de um saber sobre o Édipo.

O que temos diante de nós, em análise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu tipo próprio de satisfação. Se nós nos metemos com isto, é na medida em que pensamos que há outras vias, mais curtas por exemplo…se nos referimos à pulsão, é na medida em que é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser retificado.

Lacan disse que “toda criação artística situa-se nessa demarcação do que resta de irredutível no saber, como distinto do gozo”. A obra de arte viabiliza a suspensão de sentido, a partir da demarcação da falha no saber, onde vem se alojar a invenção. Segundo o artista plástico Cildo Meireles, o ápice da obra é atingido no limite entre ficção e realidade. Assim, antes que seja feito qualquer juízo, algo do Real pode ser tocado, a partir da subversão de espaço e tempo.

O documentário Cildo (2009) ressalta a obra de Cildo Meireles e, nas falas do artista, elementos precisos do que a arte pode ensinar, a nós analistas.

Marcado por duas experiências, a passagem de um andarilho pela cidade, na infância, e a chegada do homem à lua, Cildo toma como referências o astronauta Michael Collins e o andarilho. Esse último, deixara entre os restos do acampamento de uma noite, um artesanato confeccionado na madrugada. O astronauta fora o único ser humano orbitando entre terra e lua, nem lá nem cá, no momento em que as atenções da humanidade se voltavam para os astronautas que pisavam a lua. Cildo identifica-se com o astronauta como o terceiro, solitário. E talvez com a posição daquele garantido apenas no próprio desejo, sem busca de reconhecimento, e que destina um legado ao Outro.

Cildo fala da pretensão do seu trabalho como um seqüestro que retira o espectador daquele lugar e momento, “mesmo que por um átimo de segundo”. Fala das artes plásticas como uma linguagem não limitada em sua estruturação, de fronteira vaga, que não se sabe onde ela começa ou termina, o que justifica que não dependa do tempo para estabelecer uma relação com um objeto. Ela existe de forma que o espectador se depara, tem uma “relação física” e, “a partir daí o trabalho tem que capturar esse incerto”.

A memória é, para ele, o melhor lugar para uma obra de arte, por lidar com a possibilidade material da prova temporal. Ela é catalisadora, tem a função de deflagração, papel proeminente na obra de Cildo, que vem da memória oblíqua da infância. Parece implicar um trabalho de escrita do artista da própria trajetória.

O trabalho da verdade não visa a produção de um saber como verdade. O artista faz da obra sua destinação significante ao campo do Outro, vinculada ao fazer-se reconhecer como desejante.

Outro ponto de relevo é quando evoca o significante lejos, demarcando o limiar de sua obra a partir da introdução dessa “coisa exterior ao seu mundo, seu real”. A exterioridade nos remete à questão da ex-sistência.

Os seminários borromeanos de Lacan colocam o Imaginário na mesma gradação, junto a Real e Simbólico. O mínimo de três é o fato de consistência entre os registros, necessário à sua nodulação, em torno do buraco. A partir disso, não se pode pensar em tratar o Real apenas pelo Simbólico e o Imaginário como o que faria obstáculo na cura. O Real indica a ex-sistência no nó, ponto de exclusão no sentidoum fora que não é um não-dentro. O nó borromeano é a escritura do que opera numa cura, suas consistências de buraco onde o corte faz nó, visando a redução do sentido. A suspensão de sentido, a partir da análise, é algo como escreveu F. Samson: “a interpretação deve ter o gozo como alvo e, portanto, se situar na fronteira do real e do simbólico, aí onde a letra fixa o referido gozo”. Nessa via, temos a proposição: a interpretação é o seu efeito. Ela isola, no sujeito, um coração de non-sense. A partir da escuta da enunciação.

“A interpretação é uma significação que não é não importa qual…ela “reverte a relação que faz com que o significante tenha por efeito, na linguagem, o significado. Ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível…” que para o advento do sujeito o “essencial é que ele veja, para além dessa significação, a qual significante – não-senso, irredutível, traumático –ele está, como sujeito, assujeitado” .

O corte da psicanálise em relação à psicologia do ego diz da identificação ao objeto a separador, veiculado pelo discurso analítico. O objeto a causa o fechamento inconsciente, que comporta a transferência. A função desejo do analista é o suporte da práxis e implica manejar a transferência, para sustentar a abertura ao saber inconsciente.  O suporte da transferência é o sujeito suposto saber. Ao mesmo tempo que em alguns momentos um fechamento é necessário, tornando a análise suportável para o Sujeito, a transferência é atualização desejante, na qual o desejo do paciente se enlaça ao desejo do analista.

“Sustento que é o nível da análise… que se deve revelar o que é desse ponto nodal pelo qual a pulsação do inconsciente está ligada à realidade sexual. Este ponto nodal se chama desejo…A função do desejo é resíduo último do efeito do significante no sujeito”

Qual a especificidade da psicanálise face às práticas da letra? Sustentar o discurso analítico.

Sendo assim, um não-analista pode ter feito um passe? Não, se no sentido conceitual, em psicanálise, no passe é escutado algo da passagem ao desejo do analista. Quem terminou sua análise ou fez uma obra pode ter feito sim uma passagem pelo discurso do analista, e na vida daquele Sujeito o Real vai estar incluído naquilo que ele produz, e até transmite, mas sem que para isso tenha escolhido sustentá-lo. Fazer-se representante desse discurso no mundo, isso inclui ocupar o lugar de analista.

A Escola só garante a relação do analista com a formação. Submeter-se à experiência da psicanálise, em intensão e extensão, não garante o tornar-se analista. Isso supõe uma decisão, escolha radical, necessária a um atravessamento.

O sujeito que escolheu não dar esse passo, pode dar sua contribuição à psicanálise, ou ter uma afinação discursiva, mas ele não vai além de um certo limite. Não se coloca nesse ponto de Real. A.E são letras, indicam a escritura a partir da qual é possível produzir teoricamente sobre o passe, que é o que interessa à psicanálise, visto que a renovação constante do desejo do analista viabiliza sua permanência na cultura, que tem a ver com a sustentação do discurso da psicanálise no mundo.

O Sujeito escolheu não ir além desse limite do horror ao saber. O que implica considerar a posição de cada um, pois o contrário seria supor que o desejo do analista produz-se como mágica, ideia falsa, ligada aos significantes aparecimento e surgimento.

 

BIBLIOGRAFIA

LACAN, Jacques. (1964). O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008.

______. (1968-69). O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2008.

______. (1973). O Seminário: Livro 20: mais, ainda. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MEIRELES, Cildo. Série Retratos contemporâneos da arte. Direção: Gustavo Rosa de Moura. Roteiro: Gustavo Moura e Sergio Mekler. Fotografia: Alberto Bellezia. Produção: Ana Murgel e Mariana Ferraz. Brasil: MATIZAR Filmes, 2009. Documentário. 1 DVD (78 min.).

SAMSON, Françoise. A Interpretação. Texto de orientação ao Colóquio 2013: O quê é uma psicanálise? Tradução de Silvia Myssior para o Aleph Escola de Psicanálise. Circulação Interna.

* Trabalho apresentado durante a X Jornada de Cartéis do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora, 2012

**Psicanalista, membro do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora

LACAN. O Seminário: Livro 20: mais, ainda

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 337

Idem, p. 341

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 164

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 341

Cildo Meireles, In: Documentário: Cildo, de Gustavo Rosa de Moura

SAMSON. A  interpretação. p. 4.

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 242.

Idem, p.243.

Idem, p. 152.


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2 de abril de 2018by salada0

Práticas da Letra e psicanálise 03/03/2018

David Lynch – A vida de um artista – Arte e vida 

 

Bom, em 2011 inauguramos este espaço de trabalho: Práticas da letra e psicanálise. Desde então, temos buscado garimpar na fala de artistas, poetas e escritores o ponto de tensão que se impõe a eles e os empurra a uma posição decidida, sem concessões. Passamos por vários autores e hoje estamos aqui com o sobre filme David Lynch, em que vida e arte se confundem… se entrelaçam, ou seja, estão no mesmo lugar.

Começo meu comentário com uma frase do próprio David Lynch: “eu decidi ser pintor naquele instante”. Um instante que adivinho do real, não apenas como negação, como aquilo que resiste à simbolização, mas que opera como passagem, como atravessamento… o leva a um modo de estar no mundo.

Portanto, é de uma contingência singular que retorna ao artista, como um não-sentido enigmático, como um saber desde o real, que um traçado vai se fazendo estilo. Algo lhe é imposto de fora e exige um trabalho árduo e paciente do irrepresentável que o acossa.

Clarice Lispector vai nos dizer: “escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva”. (Lispector, C – em A descoberta do mundo)

E, Marguerite Duras, também afirma: “escrever é encontrar-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escritura a salvará”.

“É isso a escritura. É o trem do escrito que passa pelo seu corpo, o atravessa. É daí que se parte para falar dessas emoções difíceis de dizer tão estranhas e que no entanto, repentinamente, se apossam de nós”. (Duras, M – em Escrever)

Essas palavras também afirmam que há uma decisão de se deixar levar por esse inominável que se impõe. Por isso, uma decisão que não permite recuos.

Cito agora outras afirmações de David Lynch: “Eu só estava interessado em meu mundo”. “Vivia com medo, mas tudo o que eu queria era pintar”.

E acrescento o que Kandinsky nos ensina: “Através da mão do artista, uma força exterior se precipita sobre o ponto fixo no plano, arranca-o e empurra-o numa direção qualquer, sua tensão concêntrica é destruída, o ponto desaparece e se torna um ser novo, com vida autônoma e submetido a outras leis, eis a linha”.

A obra se destaca, ganha vida própria… o sujeito se apaga em prol de uma economia pulsional. É um caminho, que na contramão do lugar comum, transmite algo desse estranhamento, desse indizível que o move. E, o medo, como nos diz Lynch, (o medo é um dos nomes da angústia) não o impede de ir em frente porque se submete ao desejo – “tudo o que eu queria era pintar” e o impulsiona a se endereçar ao campo do Outro, fazendo laço social.

David Lynch nos diz ainda: “Eu precisava me divertir, encontrar o meu estilo”.

Então, se há uma maldição, nas palavras de Clarice Lispector, há também um certo divertimento em ser empurrado em uma direção qualquer, sem saber o que virá.

Esse desejo decidido se aproxima do desejo de Freud, que em uma carta a Fliess (07/07/1898) quando redigia a interpretação dos sonhos, e preocupado em escrever uma obra científica, escreve:

“Eis aqui alguns resíduos de minha última investida. Eu só consigo compor os detalhes no processo de escrever. Esse processo segue completamente os ditames do inconsciente, seguindo o bem conhecido princípio de Itzig, o cavalheiro de domingo. “Itzig, aonde você vai? “E, eu sei? Pergunte ao cavalo”. Eu nunca comecei um único parágrafo sabendo de antemão onde terminaria.”

Há portanto, um desejo decidido no artista e no analista em relação à transmissão desse ponto indizível, mas há também um ponto que os distingue. Enquanto o artista tem uma via aberta que faz com que a obra – o objeto – se destaque e faça laço, o analista precisa se inserir em um laço de trabalho para  que um saber fazer se constitua. Para que um estilo possa se depurar, para que a maldição se faça com algum divertimento. Porque no campo artístico tensão e extensão se enlaçam no próprio ato do saber – fazer a obra. Para o psicanalista para que o ponto fixo se mova, faz-se necessário uma articulação entre intensão e extensão.

A Escola fundada por Lacan é o lugar que abre essa possibilidade.

“Estamos conscientes de que os resultados da psicanálise, mesmo em seu estado de duvidosa verdade, têm aspecto mais digno do que as flutuações da moda ou as premissas cegas nas quais se fiam tantas terapêuticas no domínio em que a medicina não terminou de se delimitar quanto aos critérios (os da recuperação social, não isomorfos aos da cura?) e parece até atrasada quanto à nosografia: dizemos a psiquiatria, transformada numa questão para todos.”

“É até muito curioso ver como a psicanálise serve aqui para-raios. Como, sem ela, se levaria a sério aquilo que se orgulha de opor-se-lhe? Daí um statu quo no qual a psicanálise fica a vontade mesmo que se saiba de sua insuficiência.”

“Se nos limitarmos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar seu campo não somente a um trabalho de crítica: à abertura do fundamento da experiência, ao questionamento do estilo de vida no qual ela desemboca.” (Lacan, Preâmbulo da Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris)

Então, em uma direção aposta às tendências totalizantes atreladas a ideais de visibilidade, representatividade e estatísticas plenas de sentido – a escola é um lugar que aposta que na falha do significante – algo novo possa advir e, nesse sentido, um estilo próprio e um estilo de vida se enlaçam.

Abrimos o nosso tema do ano: “O que emerge do real: angústia, sintoma e objeto”, com a contribuição decisiva de David Lynch.

Vamos também tentar dar um outro passo da política e psicanálise, que fizemos um caminho no ano passado, para a política da psicanálise.

Acho que podemos ficar animados porque tenho certeza que maldição e divertimento na direção do desejo é uma via muito mais interessante do que um outro tipo de maldição e divertimento que se instalou no campo da política.

 

Maria do Carmo Motta Salles       

                           


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16 de março de 2018by salada0

Homenagem realizada na “Abertura das Atividades do Ato Freudiano” em Março de 2018.


Homenagem a Paulo Becker

(por aqueles que tiveram a possibilidade e o

prazer de conhecê-lo e trabalhar com ele)

 

Paulo Becker esteve conosco desde o início de nossos trabalhos.

No final dos anos 80, antes do Ato Freudiano se tornar um grupo formalizado, fizemos um grupo de estudos com ele. Já nestes encontros ficava clara sua posição generosa frente ao saber — “é preciso espalhar a peste!” — ele brincava…

Ao final destes encontros, como resto deste tempo de trabalho, formou-se um cartel em Juiz de Fora, ligado à Letra Freudiana (Rio de Janeiro). E como produto deste cartel, fundou-se um espaço de trabalho em Juiz de Fora, para os analistas da cidade — Ato Freudiano, grupo de trabalho intercartéis de Juiz de Fora.

Este grupo caminhou até 2001, quando passou por uma crise. Era necessário que voltássemos às nossas bases, retomássemos nossa direção original. Neste momento, numa intervenção certeira, convidamos Paulo Becker para trabalhar conosco na interlocução.

Este trabalho teve a duração de 17 anos e foi interrompido pela sua morte, em janeiro. Portanto, a transmissão de Paulo se mistura à história do Ato Freudiano.

Temos muito a agradecer ao Paulo por este longo tempo de convivência e relembrar, mesmo que minimamente, sua grande generosidade determinada, fundamentalmente, por uma posição muito própria em relação ao saber e a política da transmissão da psicanálise. Sem caciquismo, sem pretensões de ingerência em nossa escola, fez um trabalho rigoroso de leitura, pautado na transferência ao texto e não à sua pessoa.

Não podemos terminar sem falar de seu bom humor — capítulo à parte — que nos rendeu muitas risadas!

Botafoguense, crítico atento, politicamente engajado e sintonizado com as artes e a cultura, dedicamos a ele nosso encontro de hoje.

                                            Eliane Ribeiro Guerra

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Homenagem a Paulo Becker

 

Primeiro sem palavras.

Silêncio que fala.

Depois, lembranças e sonhos.

Enfim uma nota, restos do trabalho de luto.

 

Ao desejar falar da ausência do Paulo Becker vejo-me envolvida com lembranças de falas e da escrita desse analista que transmite seu estilo com a causa do desejo.  Entre agradecida e privilegiada com o convívio, numa transferência de trabalho e de amizade, relembro sua posição ao supervisionar com sua escuta afinada, sustentada pelo desejo do analista. Sua práxis era viva, animada, precisa e divertida. De uma supervisão clínica retomo as frases que ressoaram para mim:

  • “Aceitar o sofrimento comum para perder o sofrimento.”
  • “Será que não é melhor alguma satisfação?”
  • “Não pode se consumir na divisão.”
  • “Chega de ovelha negra ou branca.”

Assim também era seu ensino e transmissão nos seminários realizados por vários anos em nossa Escola. Deixava restos que causavam o saber. O uso de trocadilhos não lhe era incomum, como também o dito espirituoso. Letrado, seguia como um homem de seu tempo. Era um Brasileiro antenado no mundo articulando história, economia, política e artes com o discurso analítico, ao lidar com os paradoxos e marcar a necessidade da diferença absoluta relacionada ao desejo. Traços que o tornavam simplesmente singular.

Na sua escrita não era diferente. No texto, “A ética de Freud”, ele nos orienta sobre a causa do desejo imperativa para o analista: “este deverá defendê-la, como dizia Freud, junto aos analisantes, na vida pessoal e, necessariamente defender a causa analítica no seio da cultura; deverá lutar pelo que a psicanálise possa estabelecer como laço social”. Em, talvez, seu último artigo “Políticas dos gozos”, apresentado na última jornada do ‘Ato Freudiano’, encontra-se sua defesa da Causa Psicanalítica diante dos discursos ideológicos reinantes:

  • O do capitalismo com a crença de toda potência e toda riqueza;
  • O das novas identidades sexuais na busca do corpo que lhe dará o mais-de-gozar;
  • O da lei sem o desejo, gozo que o saber jurídico propõe ou garante.

Encontra-se ainda, em “Políticas dos gozos”, extraído do seu livro “A economia do gozo”, o mandamento ético socialista, “a cada um segundo a sua possibilidade e sua necessidade”, onde diante do “desafio da práxis marxista para dar um lugar ao desejo inconsciente, no seio do modo de produção antitético que lhe é inerente”, Becker adenda “o desafio da práxis analítica que é o de introduzir o desejo como lei, no seio da pulsão que a determina”.

O que nos deixa Paulo Becker?

Uma grande falta, um convite ao trabalho e saudades.

Zulmira Buzan


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16 de janeiro de 2018by salada0

É com imenso pesar que comunicamos o falecimento, no dia 14 de janeiro, de nosso amigo e colaborador Paulo Becker.

Paulo Becker está em nosso percurso psicanalítico antes mesmo da fundação do Ato Freudiano. No início dos anos 90, alguns realizaram com ele um trabalho de leitura da obra de Jacques Lacan. A partir de 2001, com o Ato Freudiano já em funcionamento, ele coordenou até 2017 um seminário mensal de leitura.

Interlocutor incansável e paciente, tinha um estilo único na vida e na psicanálise.

Uma perda irreparável.

 

Direção do Ato Freudiano e
amigos de Paulo Becker

 

https://oglobo.globo.com/sociedade/morre-psicanalista-paulo-becker-aos-62-anos-22288736

 

 


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24 de agosto de 2017by salada0

Uma Escola fora do comum

Silvânia Marques Motta

O presente trabalho é efeito da leitura dos seguintes textos institucionais, a Ata de Fundação da Escola Freudiana de Paris e a Proposição de outubro de 1967, bem como da leitura da Terceira, coordenada pelo Orris, e dos textos do seminário “O inconsciente é a política”, coordenado pela Zú, que acontecem na quinta à noite.

Inicio com uma citação da Proposição de outubro de 67: “…Escola, ela não o é apenas no sentido de distribuir um ensinamento, mas de instaurar entre seus membros uma comunidade de experiência, cujo cerne é dado pela experiência dos praticantes” (1ª versão; p. 7).

O título deste trabalho traz o significante “fora”, pensado em referência ao lugar da Escola de psicanálise em relação ao mal-estar na civilização e também à especificidade do saber aí produzido.

O discurso analítico é o único que permite sustentar uma pergunta frente a esse mal-estar, ao fazer um contraponto aos discursos capitalista e da ciência. Tal refúgio é propiciado pela possibilidade de questionamento, de manter aberto o lugar da hiância, em resistência às tentativas de tentar recobri-la com os objetos comuns – leia-se imaginários e condensadores de gozo – oferecidos pelo mercado e viabilizados pela ciência, na contemporaneidade. Contudo, refúgio não implica em um abrigo, como numa “casa de repouso para veteranos”, mas no que Lacan indicou ser uma “base de operação contra o mal-estar”, num diferente estilo de vida, a partir de uma modalidade inédita de funcionamento.

(Por “objeto comum” entenda-se aquele não próprio do desejo. E se é de gozo, pode ser qualquer um, e tomado em substituição infinita. A felicidade não é permanente, é preciso perder o gozo para aceder a ele de um outro jeito, no seu valor de uso, posto que efêmero.)

O saber psicanalítico é um saber que se faz com o próprio inconsciente, que está na outra via que não a da acumulação de conhecimento. O significante “fora” remete ao Real como pano de fundo nessa produção. A Escola fundada por Laca se distingue das Sociedades da época como uma comunidade de experiência que leva em conta o Real na formação.

Segundo Moustapha Safouan, Lacan tem razão quando dá a entender nos seus Escritos que “um ensino que responde à demanda de aprender, no sentido de aprender conhecimentos comuns, é um ensino que engana a ignorância, em vez de dela se servir” (Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas; p. 43).

O ensino que a Escola visa é aquele que advenha na junção da psicanálise com os saberes afins e que possa passar alguns significantes cuja escuta cause efeitos de trabalho, fundando, assim, a possibilidade de transmissão.

A entrada na Escola constitui um endereçamento à psicanálise, é dirigir-se a um laço de trabalho comum, seja enquanto responsável pelo avanço da Escola, seja pela posição que nela se ocupa (o que se refere às categorias de nominação de membro e de participante da Escola, conforme a Ata de 2010, do Ato Freudiano).

Estar na Escola não significa estar em formação. Na Proposição, há também uma passagem importante, na qual fica estabelecido que a Escola garante a relação do analista com a formação, e não que a formação mesma esteja garantida.

Ao basear sua formação no Cartel, dispositivo de transmissão sustentado na transferência de trabalho, e ao eleger o gradus como princípio de funcionamento, a Escola considera que o que está em questão na formação é o desejo do analista. (O gradus é à medida dos passos dados pelo analista, que deu suas provas na extensão. Subverte o desejo de reconhecimento em reconhecimento de desejo).

Que cada um tomará a Escola na medida do seu desejo, é o que atesta a formulação de que não há relação sexual. Desejo esse que será posto à prova, para que o Real não conduza ao seu próprio desconhecimento, mas possa haver uma chance à articulação da falha no saber, desde a causa do desejo – objeto ª

Na Terceira, Lacan diz que “…é somente pela psicanálise, é nisso que esse objeto constitui o cerne elaborável do gozo, mas ele só se sustenta da existência do nó” (p.8).

A exposição e crítica do trabalho e a função mais-um no Cartel constituem provas ao desejo na extensão. Referem-se ao corte, que permite a exclusão no sentido e coloca em campo a ex-sistência, condição de nodulação e seus efeitos de enxugamento. As provas ao desejo promovem um descompletamento imaginário e colocam em perspectiva o Sujeito diante do engano, e a ele só resta simbolizar algo diante da falta. Não nos esqueçamos de algo que Lacan formulou na fundação da Escola, sobre o ponto em que o problema do desejo não pode ser escamoteado, que é quando se trata do próprio psicanalista (Preâmbulo da Ata de Fundação da E.F.P).


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24 de agosto de 2017by salada0

50 anos dos Escritos

                    XXI jornada do Ato Freudiano – Escola de psicanálise de JF,  10/12/2016

“Os Escritos, uma obra de umas novecentas páginas, estavam para serem lançados. Lacan, se encontrando com Derrida, manifesta sua inquietação. Evocando a encadernação do volume, declarava: Você verá, isso não vai resistir.”

(Vous verrez, ça ne vas pas venir)

 

O que dizer dos 50 anos dos Escritos ou Escritos – 50 anos depois? É uma pergunta que abre para muitas possibilidades de leitura.

           Em primeiro lugar, é importante destacar que a publicação dos Escritos em 15 de novembro de 1966 é um marco na história da psicanálise. Além de ter ocorrido em um cenário de extrema efervescência cultural, se deve também à decisão e autorização do próprio Lacan diante do seu lugar na psicanálise e na cultura que não o deixava outra alternativa. A Escola Freudiana de Paris tinha sido fundada em 1964 como efeito de um percurso longo de trabalho implacável de retorno a uma leitura textual de Freud. Assim, os Escritos são o resto da elaboração de sua experiência clínica e produto de seu ensino oral que ressoavam naquele momento singular de Paris nos anos 60.  Momento de ideais  utópicos, ingênuos e libertários, tendo como um de seus slogans: É proibido proibir! Mas, o obscurantismo das falsas evidências já se anunciava, e a clínica já prenunciava outras perspectivas, sinalizando para uma simples margem de liberdade a partir de um irrepresentável que diz da dimensão do real.

           Os Escritos nos apresenta um conjunto de textos e conferências dispersos durante a sua trajetória até aquele momento, sendo tarefa impossível demarcar o estatuto de cada artigo, na medida que cada um deles nos traz contribuições fundamentais para uma leitura apurada da subversão radical empreendida por Freud. É uma escrita também que abre para a formulação dos matemas, que se dará um tempo depois. Então, a inquietação de Lacan na época da publicação dos Escritos: “ Isso não vai resistir” não se confirmou. Para surpresa do próprio Lacan, os Escritos foram um êxito de venda. Fato surpreendente tratando-se da obra de um autor que tinha fama de ilegível.  Mas, “isso resiste, insiste”, e confirma a inscrição na cultura do imperativo freudiano – “Onde isso era, devo advir – Wo Es war, soll ich werden.”

           É interessante também ressaltar a insistência do editor dos Escritos – François Wahl- que foi seu analisando e o instigou a essa publicação. Isso nos diz de um fora/dentro, que implica em uma posição que tem uma estreita relação com a prática clínica que nos coloca diante de uma experiência de leitura que consiste em experimentar uma certa ilegibilidade, um esvaziamento do sentido do imaginário e de um tempo para compreender.

           E, em se tratando dos Escritos, é sempre bom retomar as palavras do próprio Lacan:  “O escrito distingue-se, com efeito, por uma prevalência do texto, no sentido que veremos ser assumido aqui por esse fator do discurso –  o que permite a concisão que, a meu ver, não deve deixar ao leitor outra saída senão a entrada nele, que prefiro difícil. Este, pois, não será um escrito, como o entendo. … Pois a urgência de que agora extraio como pretexto para deixar de lado esse propósito só faz encobrir a dificuldade de que, ao sustentá-lo na escala em que devo aqui apresentar meu ensino, ele não se distancie demais da fala, cujas medidas diferentes são essenciais para o efeito de formação que procuro.”

( Lacan, A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud – Escritos, p.496)

           Se o estilo, a clínica e o ensino oral de Lacan já o colocavam em um certo lugar, a publicação dos Escritos o inscreve definitivamente em um lugar certo – em um lugar que não deixa ao leitor outra saída senão sua entrada na lógica do significante e da letra, ou seja, no próprio lugar do saber inconsciente. É um texto vivo que ao tensionar o leitor com suas equivocidades potentes, nos apresenta uma massa textual significante que faz surgir para quem o lê a pergunta insistente: é ilegível Lacan? O próprio Lacan chegou a dizer que sua escrita mantinha um significante em reserva, o que não deixa de ter certa relação com um objeto que em sua radical ausência vetoriza a direção da experiência analítica.  Certos textos, e a clínica nos diz isso no nosso dia a dia, só podem ser lidos uma vez que se assume sua ilegibilidade. Nesse sentido, os Escritos adquiriram o status de um clássico, cuja obra nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer.

           Retorno a pergunta que abre este trabalho: o que dizer dos Escritos – 50 anos depois? Qual a sua atualidade? Além de nos remeter a um ponto de solidão extrema, nos convoca a uma leitura apurada dos pontos obscuros das falsas evidências que perpassam a contemporaneidade. É uma experiência de leitura que chama pelo desejo do leitor e que o desaloja da paixão pela ignorância e do imediatismo de qualquer resposta pronta. Conseguir fazer um certo atravessamento em algum dos escritos não é sem consequências.

         É uma escrita que põe o leitor na terceira margem do rio: “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.”   (Guimarães Rosa – A terceira margem do rio/ Primeiras Estórias p. 33)

        Recorro também a um poema de uma paciente, que de um outro lugar, procura se localizar diante da imparidade, estranhamento e estarrecimento da palavra experimentada em uma análise: de um real ilegível e irrepresentável.

À margem de um leito… ímpar de amor

À margem das palavras  e… idas e vindas desse leito,

a busca de um dizer que seja leito,

em uma procura ímpar de amor.

Estar à margem

Acreditar na margem…

É buscar o fio tênue da própria convicção.

        Guimarães Rosa e a paciente sintetizam de uma maneira exemplar o que os Escritos nos ensina. Então, 50 anos depois, dado os rumos da civilização, mais do nunca se torna imperativo colocar em ato esse ensinamento porque é um escrito que põe em questão a atualidade. Estamos em um momento da história também ímpar, em uma conjuntura clínica e política que exige uma leitura que não se reduza ao campo dos enunciados que em seu fechamento, mantém uma via repetitiva e uma leitura ancorada em corrimões já desgastados pelo tempo.  Sabemos que todo texto tem uma dimensão sintomática e pede um deciframento. Se estamos vivendo em um tempo de estranhamento, de polarizações desmedidas, segregação e exclusão, ancorados por um ideal do tudo saber da ciência e de um empalidecimento da dimensão política, talvez possamos nos apoiar na formulação de Lacan: “O inconsciente é a política.”  Porque a psicanálise é o único discurso que estabeleceu um confronto de modo irredutível com o real. O que se inscreveu desde Freud fez corte e trouxe efeitos no mundo. Essa formulação de Lacan: “O inconsciente é a política” produz o enodamento necessário de um laço inédito que questiona radicalmente as ditas relações entre os seres falantes. O inconsciente exige que se rejeite qualquer benefício que provenha da ‘realidade’ para um sujeito ou uma comunidade e que se indague o laço de satisfação com o real… O Inconsciente implica, então, a articulação lógica da posição do sujeito para que se saiba o que ele procura.” ( E.V.  O inconsciente é a política – in Política e psicanálise/ RLF n. 44 p.17)

        Assim como os Escritos nos deixa em um certo compasso de espera e também em uma certa zona de silêncio que pode ser assim formulado: Eu sei que é impossível de ler, mas mesmo assim… e isso nos traz uma sensação de desamparo, mas também uma certa satisfação e até momentos de uma alegria fugaz, a civilização atual nos deixa esse legado: Eu sei que está impossível de ler, mas mesmo assim…

          

      


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24 de agosto de 2017by salada0

O efêmero: esse Outro lugar…

Maria do Carmo Motta Salles

Resumo: A psicanálise desvela o valor lógico do efêmero como condição de verdade. É apenas isso que a faz perdurar – dar um lugar ao efêmero que pode ou não ter um efeito de raridade no tempo – ou seja, o efêmero não é esse Outro lugar com reticências, é o que por excelência, possibilita instantes decisivos de corte à astúcia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Palavras-chave: efêmero, real, impossível, obra, ato analítico.

“O espelho é o também de você nunca”

(Millôr Fernandes)

  

O encontro inesperado com essa frase de Millôr Fernandes me impulsionou a escrever este texto. De um título já pensado antecipadamente, que se enlaçava ao tema do Colóquio, mas ainda como um indício de uma convicção tênue, à decisão de escrever algo nessa direção. Porém, não sabia por onde ir. Um indício velado é, portanto, suficiente para indicar um caminho, mas muitas vezes se perde numa zona de sombra espessa. No entanto, ao me deparar com a frase, efêmera, vinda desse Outro lugar, de fora, da intrusão do real, uma certa possibilidade se abriu para a escrita deste texto. Um alhures se fez causa, presentificando o que não se sabe e ecoando o insabido do desejo do Outro.

A frase de Millôr nos apresenta, de uma forma extremamente condensada, o que Lacan abordou no estádio do espelho, apontando-nos uma operação de soma (também) e subtração (nunca), ou seja, afirmação e expulsão, em um golpe só, que indica o lugar vazio de onde o sujeito emerge. Porque a imagem só se mantém momentaneamente e, em um piscar de olhos, já se terá transformado. A imagem é como uma coisa continuamente flutuante. Então, a idéia de totalidade de um corpo é efêmera e instantânea e se perde no instante seguinte.  É de um lugar vazio que o sujeito é lançado e se lança à procura de um sentido, e só no limite do nonsense se impõe uma invenção diante da impossibilidade do real. Mas, em sua constituição e em seu caminhar pela vida, o sujeito tenta desesperadamente se agarrar a uma totalidade e, nas suas idas e vindas pelo simbólico, engessa o imaginário e busca empalidecer o que do real comparece, fazendo sintoma. A psicanálise, ao ler esse movimento da estrutura do ser falante, se sustenta em uma aposta: o essencial é que, tocando o ponto limite entre o real e o simbólico,  isso se diga, continue a se dizer, porque há certamente o inexprimível que se mostra.  A esse respeito, Lacan (1973) nos diz:

Esta função do impossível não deve ser abordada sem prudência, como toda função que se apresenta em forma negativa. Eu quereria simplesmente sugerir-lhes que a melhor maneira de abordar essas noções não é tomá-las pela negação. Este método nos levaria aqui à questão sobre o possível, e o impossível não é forçosamente o contrário do possível, ou bem ainda, porque o oposto do possível é seguramente o real. (LACAN, 1973, p. 159)

Wajcman (2012, p. 62) afirma que “o artista, o escritor, o poeta e o psicanalista possibilitam mostrar e dizer o que não pode ser visto, nem dito – visam o impossível enquanto impossível”. Ao se situarem, portanto, na mesma curva que é aquela da estrutura, encontram sua razão na própria obra e no próprio ato analítico. E, em decorrência disso, produzem ondas em cada sujeito para que algo novo possa emergir. O que virá a partir dessas ondas incide sobre o coletivo e poderá provocar um efeito discursivo inovador.

O real se distingue porque, em sua economia e imposição, exige algo novo, que é justamente o impossível. Há uma imposta facticidade do real e, também, uma imposta facticidade do efêmero, que é um dizer sobre o real – que se presentifica insistentemente, forçando-nos a cavar alguma saída não prevista no ponto de partida. O efêmero é um dos nomes do não todo: é um espanto benvindo que se impõe impedindo a pura dispersão do real, possibilitando o caminhar da civilização. É, portanto, esse Outro lugar que, ao circunscrever o real, reenvia o vai e vem da pulsão, envolvendo as zonas de superfície do corpo e as aberturas erógenas. O real força as aberturas como pontos de evanescência onde o interno encontra o externo. O efêmero é o nome do sujeito pontual e evanescente, como efeito da abertura e do fechamento do inconsciente.

Se considerarmos que “o inconsciente é a soma dos efeitos da fala sobre um sujeito” e que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante, não se pode admitir o corpo falante a partir de qualquer espécie de substância. O sujeito é evanescente e aparece no momento em que a dúvida se reconhece como certeza, e não a partir de um logos que se encarnaria em alguma parte. A abordagem freudiana afirma, no entanto, que “as bases desse sujeito se revelam bem mais largas, mas ao mesmo tempo bem mais servas quanto à certeza que ele rateia. É isto que é o inconsciente” (LACAN, 1973, p. 122). O inconsciente está fora – nesse Outro lugar – como aquilo que insiste e revela um impossível sobre o qual se funda uma certeza. Mas o inconsciente não se encontra em todo lugar: ex-siste e se instaura em ato a partir do desejo do analista.

Quero ressaltar bases bem mais largas e ao mesmo tempo bem mais servas porque nos indicam justamente a estrutura escandida do batimento da fenda em que o sujeito se afirma e onde o desejo pode emergir. Como nos diz Lacan: “Ora, se o desejo não faz mais do que veicular para um futuro sempre curto e limitado o que ele sustenta de uma imagem do passado, Freud o diz, no entanto, indestrutível” (LACAN, 1973, p. 35).  Então, podemos dizer que o desejo se apresenta de uma forma efêmera e pontual, mas traz algo novo e alarga o que anteriormente era apenas uma imagem – o também e nunca – de um passado. Abre para que as bases do sujeito possam se relançar diante da certeza efêmera que é veiculada para um futuro sempre curto e limitado.

Considero importante pensarmos sobre o significado do termo ratear: 1) distribuir ou dividir segundo a proporção que, por justiça, toca a cada um, ou seja, divisão proporcional de bens; 2) não funcionar, falhar, perder a força, tornar-se debilitado. É, portanto, através da falha que uma nova proporção pode se colocar. Mas, ao mesmo tempo, é através da mesma falha que o desejo pode se debilitar. O que Lacan nos aponta é que a função do ratear está no centro da repetição analítica, indicando-nos que a posição de cada um vai se revelando à medida que o trabalho de uma análise vai seguindo seu curso. E o que Freud nos diz é justamente que existem duas posições distintas em relação ao efêmero: uma revolta diante da facticidade do efêmero ou o reconhecimento de um valor de raridade no tempo.  A psicanálise desvela, portanto, o valor lógico do efêmero como condição de verdade.  E é exatamente esse Outro lugar, obscuro, opaco e pontual que move o artista ao ser reconhecido como valor e pode se tornar um valor de corte, abertura e novidade no campo da cultura, mantendo a pulsação necessária à sua sustentação. É também esse Outro lugar indizível e efêmero que, ao ser nomeado por Lacan como objeto a, se inscreve definitivamente no discurso do século XX, possibilitando uma certa apreensão de elementos estruturais que revelam, de uma maneira inexorável, a condição efêmera e despossuída de todo paraíso perdurável que sintetiza o homem contemporâneo.

Diante do exposto, considero importante pensarmos o lugar do passe na escola como a aposta de Lacan em um instante revelador da estrutura do ser falante.  O discurso analítico pode chegar a um resto que afirme a radicalidade do efêmero como um dizer que apreendeu algo do real – “onde o real alcance o real”.

Como nos diz Françoise Samson, “O passe é um instrumento que serve para manter aberta uma questão: como e com quê um ser falante é fabricado?” (SAMSON, 2010, p. 27).  O passe, tal como o segundo tempo do trauma, pode capturar algum elemento estrutural e ser transmitido à comunidade de analistas. Diante da impossibilidade do real, pode-se enunciar algo novo – um saber inédito.

E se o sujeito, em um primeiro tempo, se depara, no final de sua análise, com o real que comparece em toda a sua potência, pode, em um segundo tempo, formular um dizer sobre isso. É apenas isso que faz a psicanálise perdurar – dar um lugar ao efêmero, que pode ou não ter um valor de raridade no tempo. O efêmero não é esse Outro lugar com reticências. É o que, por excelência, possibilita instantes decisivos de um certo contraponto à astúcia, trama e tramóia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Então, nesse momento da história em que estamos, há a necessidade de analistas. Essa necessidade está ligada a alguma coisa que se tornou impossível na vida cotidiana dos seres falantes. Alguma coisa tornou-se impossível como efeito de uma certa invasão do real. O real, para a ciência, pôs-se a pulular: ele se tornou uma presença, de uma insistência que não tinha até então. Essa presença, que nos estorva, nos faz considerar que a psicanálise, assim como as artes, ao darem um lugar lógico ao efêmero, são os únicos respiradouros que podem nos permitir sobreviver ao real.

 

Referências bibliográficas:

FREUD, S. Efêmero. Tradução de Eduardo Vidal. In: Da Experiência Psicanalítica, Publicação – Escola Letra Freudiana, nº. 41, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2009.

LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

SAMSON, F. Conferência: Analista da Escola (A.E.). O a posteriori. Tradução de Ana Lucia Teixeira Ribeiro. In: Documentos para uma Escola V, Publicação – Escola Letra Freudiana, ano 29, nº. 0’’’’, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2010.

WAJCMAN, G. A arte, a psicanálise, o século. In: AUBERT, J. Lacan: O escrito, a imagem. Tradução de Yolanda Vilela. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.


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24 de agosto de 2017by salada0

Carta Aberta

Na edição especial do mês de agosto de 2016 da revista Cult, um dossiê veio a público. Contém trabalhos minuciosos sobre questões relativas aos descaminhos da psicanálise na contemporaneidade, que podem fazer obstáculo a virulência do saber fundado por Freud. Verificamos, com inquietação, os riscos de uma certa padronização, insistência na repetição de jargões e engessamento do discurso lacaniano agravados pela zoeira sem limites da internet, que não só redimensiona a noção de tempo e espaço como amplia o mal-estar do sujeito contemporâneo.

O dossiê inicia com a seguinte afirmação: “Porque hoje o discurso dos analistas lacanianos já está instituído. De certo modo, ele nem mais precisa de uma sociedade de psicanalistas, já anda sozinho. Melhor seria dizer que fala sozinho, nem precisa mais de mim, nem de você: tornou-se um discurso anônimo.” Em seguida, abre a série de artigos com a seguinte pergunta: “qual a melhor posição dos psicanalistas para estarmos, como diz o outro, à altura das questões do nosso tempo?” A psicanálise é um dos grandes acontecimentos da nossa época, como diz seu fundador, a terceira ferida narcísica.

Questão extremamente pertinente que nos faz retomar uma indicação muito precisa de Alain Badiou: o acontecimento é uma categoria não articulável que instaura uma verdade e deixa um resto, embora possa ausentar-se da memória explícita. Por isso é preciso uma intervenção, uma interpretação para dar consistência a essa singularidade. As dificuldades de ser fiel a esse acontecimento expressas na história da psicanálise exigiram uma intervenção e foi preciso que Lacan, num determinado momento, empreendesse um retorno a Freud.

Nesse sentido, o inédito da descoberta introduzida por Freud exige um percurso próprio na formação do analista baseado em dispositivos específicos. Assim, Lacan ao fundar a Escola em 1964 cria um dispositivo de trabalho – o cartel – como a forma privilegiada de produção de um saber ao sustentar o não todo em seu funcionamento. Não há um todo saber que responda ao mal-estar do ser falante – é isso que funda o saber psicanalítico a partir do que a clínica do nosso dia a dia nos ensina. Em 1967, Lacan lança a Proposição de 09 de outubro e acrescenta o passe como a possibilidade de verificação da passagem de analisante a analista. Abre assim para a comunidade de analistas uma possibilidade de trabalho ao convocá-la a uma verificação que deve estar bem distante de uma deontologia.

A Escola é, portanto, um coletivo de trabalho que deve estar atenta ao vivo da descoberta freudiana e aos riscos constantes de uma certa obscenidade que invade a sua institucionalização. Os conceitos psicanalíticos já se incorporaram ao acervo simbólico do nosso tempo às custas de uma imensa banalização. E é por isso imprescindível que os analistas retornem, com afinco, aos seus fundamentos para dar consistência a essa singularidade, porque os impasses e descaminhos assentados em um ideal são elementos estruturais que insistentemente se repetirão buscando abafar o inédito desse acontecimento. Se ater com entusiasmo a novidade que a nossa clínica cotidiana nos apresenta nos leva necessariamente a um espanto benvindo  que sempre comparece quando se lê e relê Freud e Lacan.

O conceito de contemporâneo de Agamben é também uma indicação que se articula com o que nos interessa nesses tempos sombrios: “A contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este, e ao mesmo tempo, dele toma distância … e ainda, contemporâneo é o que mantém fixo o olhar no seu tempo para nele perceber não as luzes, mas o escuro … é também aquele que recebe em pleno rosto o facho das trevas que provém de seu tempo.” A partir do que Agamben nos traz, é bom retomar também a maneira como Lacan encerra o seu Escrito A psicanálise, razão de um fracasso:

“Quando a psicanálise houver deposto as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização ( mal-estar que Freud pressentia) é que serão retomadas – por quem? – as indicações de meus Escritos.”

 

Maria do Carmo Motta Salles

Membro do Ato Freudiano Escola de Psicanálise de Juiz de Fora


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2 de junho de 2017by salada0

Pontuações sobre libido e pulsão e auto-erotismo e narcisismo¹

Jorge Lossano Villaça²

Freud admite dificuldades que o leva a formular duas questões:

Primeira – Qual a relação do narcisismo com o auto-erotismo?

Segunda – Qual a diferença entre uma libido sexual e uma energia não-sexual pertencente às pulsões do Eu? Toda a dificuldade está na distinção entre a energia das pulsões do Eu e libido do Eu, e entre a libido do Eu e a libido objetal. Essa segunda questão já foi tratada quando abordamos em nossa leitura a proposição freudiana de uma classificação para as pulsões originais diferenciando-as em: Pulsões do Eu (auto-conservação) e pulsões sexuais.

 

Libido – força quantitativamente que permite medir os processos e transformações da excitação sexual. É distinta de outras formas de energia psíquica, o que permite atribuir também um caráter qualitativo.

 

Pulsão – nunca aparece como uma força momentânea de impacto é sempre uma força constante.

 

A pulsão é diferente de estímulo. É o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam o psiquismo – Representante psíquico das forças orgânicas. Tem origem no organismo e atuam no psiquismo, ou seja, o estímulo ou excitação endógena atua como uma força geradora de um impacto isolado, que num primeiro momento origina-se nas células do corpo, produzindo as necessidades principais ou básicas: fome, sede, respiração e sexualidade.

 

Narcisismo – fase intermediária entre auto-erotismo e amor objetal.

 

Narcisismo secundário – se constitui a partir do retorno dos investimentos anteriormente feito nos objetos e redirecionado ao Eu, superposto ao narcisismo primário (auto-erotismo).

 

Auto-erotismo – descrito como estado inicial da libido, onde as pulsões, presentes desde o início, buscam satisfação no próprio corpo. Freud supõe que uma unidade comparável ao Eu não esteja presente no individuo desde o início – Narcisismo primário.

 

No segundo ensaio sobre a teoria da sexualidade aborda o chuchar (sugar como deleite) como uma manifestação sexual infantil que consiste na repetição rítmica de um contato de sucção com a boca do qual está excluído qualquer propósito de nutrição. Embora partes do corpo sejam tomadas como objeto, o que Freud tem em mente são as representações psíquicas dos objetos e não os objetos do mundo exterior. O chuchar – traço da prática sexual infantil onde a pulsão não esta dirigida à outra pessoa, satisfazendo-se no próprio corpo é auto-erótica (narcisismo primário).

A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida-satisfação erógena associada à necessidade de nutrição- e só depois se torna independente dela.

Portanto, a criança toma seus objetos sexuais a parir de suas experiências de satisfação. O auto-erotismo nasce do apoio das funções somáticas vitais sem nenhum objeto sexual.

 


 

¹ Trabalho apresentado no Seminário de Leitura de Sigmund Freud, em 18 de Abril de 2012.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano Escola de Psicanálise de Juiz de Fora.

 


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2 de junho de 2017by salada0

Vamos correr por que o lobo está vindo?¹

Lilian Freire²

Esta comunicação alinhava um trabalho realizado ao longo de 2004, ano em que muito se falou sobre a formação de analistas e a necessidade de um posicionamento ético de todos aqueles que são afetados pelo saber inconsciente e acolhem seus efeitos. A intenção é deixar em aberto essas questões para novas e futuras indagações.

Fazer com que a hiância permaneça aberta foi o trabalho de Freud, que asseverou serem inconciliáveis o saber inconsciente e o modelo acadêmico. Esta questão está nos primórdios do movimento psicanalítico, momento inaugural em que a prática médica encontrou seu limite. Freud propôs algo distinto e radical: falar, construir um saber singular, romper com as regulamentações que normatizavam o desejo. Em 1900, o cenário era esse, mas parece não ter mudado: a ordem médica ainda se orienta a partir de um saber fechado e mecânico sobre o corpo. Em outro extremo – visando reintroduzir em seu campo a dimensão de sujeito que a ciência faz calar – está a psicanálise, situada em um cenário de burocratização das instituições, regressão à ordem biologizante, conformismo à normatização da práxis psicanalítica, estabelecimento de um comércio próprio.

Os cenários que constituem os séculos XIX e XX são, então, os mesmos? A expansão do capitalismo comanda as relações humanas e favorece o mercado de fármacos; o desenvolvimento tecnológico seduz e fala de uma organização planetária que vende a ilusão de totalidade e unidade, o que leva o sujeito a renunciar a si mesmo. Ficamos aí reduzidos à mídia, que precisa de um mercado consumidor em expansão e propõe políticas de universalização, sujeitos que se igualem em suas reivindicações. A ciência, com seu prestígio ampliado por sua aplicabilidade técnica, critica e explica os fundamentos da vida social. Questionando as tradições, a ciência tornou-se a religião do século XX, mas não colocou nada no lugar daquilo que destituiu e que tinha seu sustentáculo na história, na cultura, na religião e nos mitos.

Na prática analítica encontram-se a proliferação do acting-out e o consumo do corpo e de gadgets variados que satisfaçam a pulsão escópica. Com tantas ofertas, o sujeito se perde continuamente, o que é um paradoxo, já que visa justamente se localizar. Acting-out e consumo (de seja o que for) são respostas a essa declinação da função do Nome do Pai como intervenção que faz corte no gozo do Outro materno. Mas são respostas falaciosas, pois, como efeito desta declinação, escutamos o chamado: “vamos brincar na floresta enquanto o Sr. Lobo não vem”. Viva o gozo! Assim, o mundo repete monotonamente seus espaços, propondo ao sujeito que qualquer lugar pode ser seu mundo. O problema é que o sujeito não consegue se encontrar em lugar nenhum.

Certamente não foi este o propósito de Freud, que propôs uma abertura ao inconsciente, restaurando o lugar do sujeito: ele tem o que dizer. Para a psicanálise, que faz um contraponto e caminha na contra-mão deste chamado, ainda vale a ética cética que se encontra na proposta freudiana: uma ética que não dá certeza sobre os resultados, não promete a cura ou a salvação, uma ética que não garante a garantia. É a ética centrada no ato e que dá a liberdade para intervenções diferentes que o paciente reclama. Em suma: é a ética da invenção. Mas invenção de quê?

O que está no cerne da invenção é o ato de seu autor que aposta no ineditismo para romper com a reprodução automática. É à invenção que Freud e Lacan recorrem quando avistam os impasses que comprometeram a psicanálise. Mas cada impasse é um novo impasse e é preciso que se faça uma subversão do sujeito, desalojando-o de sua posição sintomática frente ao discurso do mestre, proferido na universidade e pela ciência. O novo é um desconcerto que fura o instituído, o habitual. Talvez a proposta feita pela psicanálise seja uma explicação possível para a mais recente evocação que parte do poder público e que atinge a todas as dimensões produtivas: regulamentar.

Ao verificar uma confusão entre os termos regulação e regulamentação, me propus fazer uma distinção. A regulação faz parte da lei simbólica desde sua constituição e é necessária. Ser regulado é estrutural do sujeito, assujeitado às leis do inconsciente, o que não implica que a invenção seja inibida. Já a regulamentação é de outra ordem, visa criar a ilusão de avanço pela via de um controle; é regra, um resumo de um conhecimento explicativo que diz como inventar. A invenção, como produto singular e inédito de seu autor, não viceja nas regras e normatizações. A regulamentação é a tentativa de calar o inconsciente, de velar o que suas formações revelam; é a penúltima cartada da cultura para conseguir esse efeito de obturar a fenda que o desejo abre e que se abre para o desejo. Depois disso, só há, como último recurso, a “caça às bruxas”.

Todas as tentativas de responder ao desconhecido e estranho, falharam. E ainda assim persiste nas ruas a duradoura oferta de uma rápida certeza.

Diplomada pela União Umbandista dos Cultos Afro-Brasileiros, Orientadora Espiritual, convida para uma consulta. Com a certeza de resolver seu problema.

SIGILO ABSOLUTO

Seus trabalhos são rápidos e garantidos, com os búzios ou as cartas você terá a resposta para suas dúvidas no Amor, no Trabalho, na Saúde e nas Finanças, Problemas Espirituais e Familiares.

Dê uma oportunidade a sua felicidade e faça hoje mesmo uma consulta…”

O acesso a esse preciosismo é indiscriminado, as filipetas são distribuídas nas ruas, revelando, pela enorme variedade de nomes de videntes e pela quantidade de propaganda acessível, o que o povo anseia. A prática do Oráculo é mais ancestral que o logos, pois os homens sempre buscaram respostas e garantias de vida, de riqueza, de fartura, de vitórias, de bem-estar. Mas, se no século VII a. C., o dom divino da Pitonisa exigia o trabalho de elaboração e interpretação daquele que buscava conhecer (a verdade, o futuro, a ascendência), hoje o oráculo tem outra função: não diz mais a verdade do sujeito, já que ninguém a quer. O oráculo de hoje, como a ciência, vende a ilusão de que há uma garantia de sucesso, pois há necessidade de resposta, da certeza de que a felicidade não é um conceito idealizado e de que poderemos driblar o desconforto e a morte.

A astrologia, a religião, a ciência, a tecnologia, o mercado, a pedagogia da felicidade, tentam oferecer o conforto físico e espiritual. Conforto que a psicanálise, ao apostar na hipótese do inconsciente, sabe ser impossível em sua totalidade e, para que ela não denuncie essa impostura, é necessário que silencie. Por isso também ela é posta em todo lugar, falada e aplicada aos mais diversos psicologismos e práticas de higiene mental. Mas, no tempo do “time is money” sua práxis é por demais lenta e, por isso, inaceitável. É preciso adaptá-la à brevidade das psicoterapias.

Se o “Freud explica” retornou como chiste, devido ao amplo acesso a Freud e à psicanálise, veiculado pela TV e na literatura de jornal, o que vemos retornar a partir de Lacan? Desconhecido pelo grande público, Lacan não é matéria para chistes. Circunscrito a uma comunidade bastante restrita de psicanalistas e intelectuais, o texto de Lacan pode favorecer o exercício de vaidade: permite que os jargões circulem depressa e banalmente, sem nenhum esforço de produção. Todas as expressões que custam muito trabalho para serem situadas no discurso analítico são esvaziadas.

No mito de Narciso, Eco, ninfa do bosque, se apaixona por sua beleza. Durante uma caçada, o jovem herói se perde de seus companheiros e chama por eles. Ao entrar em uma caverna é seguido por Eco que responde ao chamado de Narciso com uma proposta de amor. Mas não é Narciso quem responde e sim as palavras de Eco que se desdobram nas paredes de pedra. Para ela, no entanto, o som de sua voz lhe soa como se fossem palavras proferidas por Narciso, que, na verdade a rejeita. Eco fixa-se em suas próprias palavras, fascinada pela possibilidade de que fossem as respostas queridas vindas do outro amado. Abandonada, Eco definha e torna-se pura voz, desaparecendo no ar. Subsiste como a última palavra de um dito seu, sem embaraços, pois não há efeitos, visto que não há uma cadeia de significantes que os sustente.

As palavras portam um quê de sedução e podem nos lançar na armadilha da maldição de Eco. Ao ouvirmos apenas as palavras, ficamos presos numa teia de aparências, onde tais expressões são encontradas, castigadas e presas fáceis para o equívoco e para o desvio. É em função de equívocos e desvios inevitáveis, que a psicanálise deve escutar-se, verificando incansavelmente se os nomes de Freud e Lacan estão, ou não, atendendo à demanda por um messias, deste reformador do corpo social que tem por função preencher os hiatos. Se nos propomos a tal mitificação, nos propomos também a nos desviar da causa psicanalítica e nos entregamos à regulamentação do dia que nos permite brincar no bosque enquanto o Sr. Lobo não vem.

É mais fácil nos submetermos aos ditos dos líderes? É mais garantido quando a clínica segue os mesmos feitos de Freud ou os de Lacan? É mais confortável quando não temos que inventar nossa ação? É mais seguro quando nos atemos a uma “tecnocracia da cura”? Produz menos sofrimento quando o saber de manual consegue suplantar o saber inconsciente? Se as respostas a todas essas perguntas é sim, também será para o título deste trabalho: realmente, vamos correr, afinal, o Sr. Lobo está vindo! Um lobo que designa muitas coisas: desejo, angústia, falta, castração, causa, invenção, singularidade, mal-estar… E, para aqueles que responderem positivamente, ainda resta a ciência, a religião, a universidade, o mercado, a astrologia e o sintoma como companheiros de percurso. Mas é somente o que resta.

Retomo as palavras de Freud em seu pós-escrito ao texto A Questão da Análise Leiga. É preciso antes pontuar que este pequeno adendo é uma reconquista do que Jones e Eitington fizeram perder na tentativa de conciliarem as posições de Americanos e Europeus quanto a esta questão. Se a promessa que Eitington faz a Freud foi de suprimir apenas linhas, notamos sua conformidade implícita na supressão de duas páginas e meia. Ambos – Jones e Eitington – correram do lobo, com certeza. Mas Freud não o fez, recusando-se “à evidente tendência norte-americana de transformar a psicanálise numa simples empregada da psiquiatria”³. E não só da medicina, mas também do mercado, da mídia, da religião, do academicismo e do sucesso.

“(…) Certo, time (is) money, mas não se compreende porque deve converter-se em dinheiro com tanta pressa. Também conservaria seu valor de dinheiro se andasse mais devagar (…). Nas nossas regiões dos Alpes, diz-se habitualmente quando dois conhecidos se encontram ou se despedem: deixa o tempo. Nós já fizemos muita gozação sobre esta fórmula, mas frente à precipitação americana, aprendemos a discernir quanta sabedoria de vida se encontra nela”⁴.

 


 

¹ Trabalho inédito apresentado na Jornada de Encerramento do Ato Freudiano, em 11 de dezembro 2004. O título, e sua referência ao lobo, remete à história dos três porquinhos.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano.

³ Este fragmento da carta de Freud a Schmier de 5 de julho de 1938, foi destacado do texto “A análise leiga, uma questão crucial para a psicanálise”, In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32.

⁴ Pós escrito a “A questão da psicanálise leiga”. In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32, pp. 15.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000

FREUD, Sigmund. Psicanálise e Medicina (Análise Profana). Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 141-221

VEGH, Isidoro. Por que ainda a psicanálise no tempo do DSM IV e as Psicoterapias e Terapias Alternartivas. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VEGH, Isidoro. A psicanálise e seus interrogantes para o final do século. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VIDAL, Eduardo. Pós-escrito a “A questão da análise leiga”. Rio de Janeiro, Publicação da Escola Letra Freudiana, Ano XXII, nº 32, 2003, p. 12-17