Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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14 de outubro de 2018by Ato Freudiano0

O mal-estar nas eleições de 2018

Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora

        

Estamos acompanhando, passo a passo, e vendo hoje estarrecidos e horrorizados, a situação do nosso país. E, curiosamente, observamos que quanto mais complexos se tornam os dilemas da sociedade, mais há e haverá quem queira respostas fáceis. Se vivemos hoje um instante limite da civilidade em que a polarização atingiu o grau máximo da obscenidade, é também o momento de fazermos uma interrogação: o que fizemos para chegar a este ponto? Pergunta necessária nesses tempos tão sombrios. É nessa direção que podemos nos deter um pouco no legado de Freud porque se esta pergunta permite que um sujeito possa encontrar uma possibilidade inédita para a sua vida que não estava dada no ponto de partida, é a mesma pergunta que pode orientar alguma saída para os rumos da civilização.

Freud apresenta a psicanálise como uma prática de leitura e escrita cujo eixo é a conjunção entre curar e pesquisar. Nesse caminho impasses e dificuldades emergem criando resistências à investigação, que não se sustenta em respostas imediatistas e simplistas. Assim, cabe ao trabalho analítico se manter em uma dimensão ética, em que o objetivo de saber visa menos lutar contra as resistências do que desconcertá-las. A luta atinge um tom bélico e exacerba o ódio, impedindo qualquer possibilidade de retificação. Trabalho árduo que exige um tempo de elaboração. Qualquer saída por atalhos terá um retorno de escapes por dimensões cada vez mais extremadas.

Se vemos hoje a construção da democracia no Brasil ser atravessada por fenômenos de massa ensurdecedores, tal como Freud apontou na Psicologia das massas, torna-se prudente retirar o véu do senso comum e abrir alguma via que permita o surgimento de algo novo que recoloque alguma possibilidade nos laços sociais. O que nos distingue como seres falantes é o uso da palavra e da possibilidade de uma prática, que para além da falação e do ódio exacerbado, permita que acordos e pactos sejam estabelecidos, apesar das diferenças.

Sabemos que a democracia está sempre febril quando ela está viva porque implica em uma aceitação da divisão da verdade e em um confronto constante com o fator mais difícil e penoso do mal-estar: o relacionamento com os outros. E, se há a voracidade de uma força pulsional, fora da apreensão, cabe a civilização criar semblantes simbólicos que contenham sua força e abra a chance de uma conversa que possa indicar novos caminhos.

Diante dessa fratura social que se impõe “goela abaixo” de milhões de brasileiros e, dos poucos deslocamentos que ainda poderão advir neste momento, o que já é muito, cabe-nos sustentar uma pergunta – o que fizemos para chegar a este ponto? – para tentarmos, a partir deste ponto limite e traumático, reconstituir os restos de um Brasil, náufrago, mas que ainda pode navegar em ondas menos violentas. Talvez caiba nesse momento retomar o que Lacan nos diz em seu texto sobre a agressividade, em 1948: “Nossa tarefa cotidiana consiste em reabrir o caminho de seu sentido, numa fraternidade discreta em relação à qual sempre somos por demais desiguais.” Como consta na carta aberta do Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras: “Com a democracia, teremos chances de reparar os erros que hoje nos trouxeram essa polaridade política que cega os olhos, ensurdece os ouvidos e promete a extinção do paladar que permitiria trazer dignidade para um cidadão.” E, para terminar, é importante apelarmos para a decisão de cada um, ou seja, para o juízo mais íntimo que, em silêncio e em profunda reflexão, saberá distinguir, digamos, a ameaça maior à convivência civilizada.


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10 de outubro de 2018by Ato Freudiano0

“Alguma coisa está fora da ordem”?  – sobre o mal-estar na cultura

                                        Wania de Almeida Barbosa –  2016

Atualmente os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade, seu medo. Cabe agora esperar que a outra das duas “potências celestiais”, o eterno Eros, empreenda um esforço para afirmar-se na luta contra o adversário igualmente imortal. Mas quem pode prever o sucesso e o desenlace? (Freud, O mal-estar na civilização)

A questão da felicidade orienta Freud em sua pergunta sobre o mal-estar na cultura e sua resposta refere-se à constituição do sujeito, à impossibilidade de satisfazer o princípio do prazer, tendo em vista a questão pulsional, que por um lado revela ser parcial a satisfação e, por  outro, aponta o mais-além aí implicado. Se se insiste na busca da felicidade, ela, enquanto ideal, torna-se muitas vezes campo de angústia, e pra que algo relativo a ela seja experimentado é necessário um saber-fazer com o impossível que lhe concerne. Assim, desde 1920, Freud convoca  cada um a descobrir sua maneira de se salvar e revela que os objetos e avanços tecnológicos operam como substitutos, como próteses frente às perdas que são efeitos do progresso promovido pela cultura.

Desde então muitas coisas mudaram, mas permanece o que é da estrutura. Levando isso em conta, o discurso capitalista associa-se à ciência e, atendendo a uma demanda estrutural, lança os produtos por ela produzidos como passíveis de obturar a falta constitutiva do falante. Mas, se o capitalismo reconhece essa falta como motor que o retroalimenta, desconhece que é impossível obturá-la, pois ela é relativa, em termos  individuais, à perda do objeto quando da fundação do sujeito; e, em termos coletivos, à renúncia pulsional exigida para manutenção do laço social. Assim, ao passo que  se acirra cada vez mais a oferta de felicidades adquiridas por vias as mais diversas, vemos um sujeito cada vez mais engolfado por uma pergunta que não se faz, uma pergunta sobre seu desejo…

A ciência, em seu surgimento, separa sujeito e objeto, separa sujeito e saber e, nesse ato, lança objeto e o saber como algo a ser recuperado. Algo em busca do que esse sujeito se envereda, mas buscando-o sempre fora, sempre no Outro. Ao não se reconhecer constítuido por eles – saber e objeto – mesmo que alhures, o sujeito não reconhece a divisão que o constitui, nem se implica nela. Se desresponsabiza sobre o que lhe diz respeito e sobre seu modo de estar no mundo. Segundo Brigitte Lemérer, a ciência produz um real que invade nossa vida cotidiana com uma inumerável e múltipla quantidade de objetos e regulações, e transforma os sujeitos em não mais que um simples número. Trata-se, entretanto, de um real que é estranho ao sujeito, que lhe suscita angústia, mas não lhe permite saber “o que ele é como vivo e como falante”. Assim, o mal-estar, que não é passível de ser contornado pela palavra, revigora-se de forma insidiosa.

Freud evidencia em seus textos (Malestar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Eu) que a vida em sociedade faz com que o homem troque um tanto de felicidade por um tanto de segurança, que ele abdique da liberdade individual em proveito da justiça. E, após o estabelecimento desses novos critérios, faz deles novas bandeiras de reivindicações. Constata-se isso, por exemplo, na luta que se trava, há séculos, por  igualdade e por justiça. E, se muitas conquistas se alcançaram quanto ao direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, entre outros, esses avanços convivem e, possivelmente, sempre conviverão, como um rechaço a eles. Parece não ser em vão que os movimentos se nomeiem “luta”, pois reconhecem a exigência de trabalho continuo para a manutenção do que pretendem garantir.

Igualdade e diferença são elementos fundamentais em torno dos quais se mobilizam os grupamentos humanos. Freud mostra-nos, em Psicologia das Massas, como o amor e ódio se colocam como o laço de sustentação dos grupos, seja interna ou externamente, nas relações de cooperação ou rivalidade que estabelecem entre si. Trata-se do que ele chama narcisismo das pequenas diferenças, como fato relativo àquilo que permite que os membros de um grupo se identifiquem entre si e reconheçam o diverso, o diferente como passível de exclusão, quando não, de eliminação. A partir dessa formulação, pode-se ler diversas querelas e até mesmo guerras de grandes proporções que ocorreram ao longo da história.

Se nos detivermos na questão dos grupamentos humanos, especialmente, a dos grupos liderados, a identificação é o eixo fundamental para a sua coesão e seu funcionamento. Trata-se, nessa formulação, de que o eu de cada membro introjete o ideal do eu do líder. Sendo assim, um traço comum e ideal é o que é constitutivo do grupo. Não podemos deixar de considerar que, nesse texto, Freud mostra-nos não só a psicologia das massas, mas a análise do eu, de sua fundação à sua constituição, a referência ao outro e o lugar da identificação, bem como os efeitos desta. Dessa forma, revela o lugar do ideal do eu para o sujeito e sua origem no supereu, como resto da operação do Édipo, ou seja,  como devedor da função paterna. O ideal do eu tem uma função essencial ao estar referida à questão do desejo, por um lado, e da lei, por outro, colocando-se para o sujeito, talvez, como vetor na sua relação com o desejo e o gozo.

Diante do lugar fundamental do ideal do eu para o sujeito, e consequentemente, na cultura, como pensá-lo em tempos em que a função da qual deriva, a função paterna, parece opaca, se não esmorecida? Lebrun, no livro Um mundo sem limites, destaca os efeitos da passagem de uma organização social marcada pela religião para uma organização social marcada pela ciência. Sua articulação evidencia, ao longo de todo o livro, o lugar que é dado ao pai nessa passagem e como a função paterna, a partir da entrada do discurso da ciência, é deslocada ou mesmo invalidada, o que tem efeitos sobre a questão simbólica.

É o pai ou que seria sua função que intervém, instaurando interditos necessários à constituição do campo do desejo, fazendo contraponto ao gozo presente na relação complementar e imaginária entre mãe e filho.  Lebrun reafirma a importância do pai para introdução e validação do simbólico, na medida em que este introduz a dimensão de uma alteridade radical, quando de sua entrada no Édipo. A intervenção paterna, portanto, faz prevalecer a ordem simbólica, cujas premissas já estavam colocadas, mas vêm estabelecer-se definitivamente.

Revela-se, assim, a importância de situar o pai e seu lugar para se pensar as questões que nos circundam e a dimensão social em que estamos imersos, pois a efetividade ou não de sua função permitirá uma leitura da consideração que se tem pela lei, sua validade e as formas de aboli-la. Lembrando que a lei do incesto traz em si uma interdição a um gozo mortífero e, ao introduzir, a dimensão da castração, lança o sujeito ao campo do desejo, talvez se tenha chance de avaliar o que excede de gozo no campo social, inclusive na política, a cada vez que a dimensão do desejo é sempre mais desconsiderada.

E, diante do que se nos apresenta hoje – Trump, Al-Qaeda, Brexit, Mariana, 22 mil neonazistas declarados na Alemanha, Paris, Bolsonaro – da letra de Caetano, faz-se pergunta: “alguma coisa está fora da ordem”?, “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”? Retrocesso? Um movimento cíclico no qual aos avancos e conquistas sobrevêm ameaças e conservadorismo? Parece que está tudo dentro da nova ordem mundial! A ordem definida e mantida pelo discurso capitalista, de mãos dadas com sua parceira, a ciência, e cujo casamento tem formado uma geração da qual Black Mirror é mesmo um espelho, no qual não se reflete nada além de angústia e mal-estar.

Mas, quando se pensa em avanços e retrocessos, quando se pensa em movimento cíclico faz-se necessário retomar, a partir da perspectiva da psicanálise, a questão dos ideais, afinal é em torno deles que a sociedade se organiza e encaminha suas demandas. Freud afirma no texto O Recalque, revelando um elemento estrutural, que “os objetos favoritos dos homens, seus ideais, provém das mesma percepções e vivências que os mais execrados por eles, e que originalmente eles se diferenciem uns dos outros apenas por mudanças míninas”. O que nas palavras de Eduardo Vidal e Paulo Becker pode-se ler assim: “cada ideal que se oferece para a alienação corresponde a seu avesso obsceno”. Retomando a questão do parrícidio, como fundador da cultura, esses autores consideram que “por trás do ideal, continua vigente o canibalismo do crime primordial”.

Portanto, diante disso que é do sujeito e do que é, também, matéria que permeia a cultura, o texto  O ideal, o ao-bjeto e o real traz elementos necessários pra se pensar o que resta  da constituição do sujeito e da cultura, e que, ao retornar, pode trazer espanto e horror. Segundo Vidal e Becker, os sacrifícios mortificantes sempre exigidos para a integração à sociedade, deixa

o sadomasoquismo como marca indelével da inscrição na cultura, é sua base pulsional constitutiva, está na raiz do que é propriamente humano. E é no ponto de falha inerente à lei simbólica, no ponto de ruptura eventual da lei simbólica que surge como aparição o “ao-bejto”.

O ao-bjeto deriva da incorporação de um traço do pai, a partir do parricídio. Nesse sentido, comporta o objeto introjetado, o pai, mas, também, o ato abjeto que lhe originou. Da citação dos autores acima, poderíamos dizer que quando a função simbólica, introduzida pelo pai, falha, é a dimensão do gozo que mostra sua face de horror, trazendo a campo o ao-bjeto? Ou de outra forma: se há uma falha na função paterna, com efeitos sobre a inscrição ou validação do simbólico, não se abre o campo para um retorno pregnante do abjeto? Banalização da vida, terrorismo, corrupção, misoginia, refugiados – são alguns dos nomes do horror que nos acerca, atualmente.

Poderíamos ler, também, na política essa dimensão do ao-bejto? No caso brasileiro, um fato que chama a atenção na atitude dos políticos é desconsideração pela lei, pela coisa pública, e por aqueles que representam. Se se retoma o ato originário, parecem querer colocar-se no lugar do pai morto, daquele que goza de todos. Parecem não reconhecer a lei que se estabelece a partir dessa morte, e que, no máximo, os permitiria estar como representantes, mas não no lugar dele. Retomando a questão do ao-bjeto, dois elementos devem ser destacados quando se pensa nos descaminhos da política no Brasil: o primeiro é relativo ao traço; o segundo, referido à própria constituição do sistema político. Por um lado tem-se como traço do povo brasileiro algo relativo a um crime, por ter sido constituído, em suas origens, por degredados de Portugal. Por outro, verifica-se, mediante as coligações partidárias exigidas para ascender ao poder, um embotamento ou mesmo uma perda dos ideias, sejam eles quais forem. Quando esses dois elementos se conjugam, o que resta senão apenas o abjeto?!

Para se pensar outras questões relativas à política, um elemento importante a ser considerado é a problemática do serviço dos bens, tal como Lacan propõe. Nesse sentido, considera-se que “o âmbito do bem é o nascimento do poder”, pois é em torno de um bem, um bem coletivo que se estabelecem as ideologias partidárias ou políticas como um todo. Lacan, a partir do Seminário 7 e do texto Kant com Sade, articulando a questão do bem, contrapõe moral e ética. A questão da moral, geralmente sustentada pela ideia de assegurar um bem, se opõem enquanto impeditiva ao campo da ética, na medida em que “a dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo” (sem 7, p. 280). Segundo Lacan:

        uma parte do mundo orientou-se resolutamente no servico dos bens, rejeitando tudo o que concerne a relação do homem com o desejo – continuemos trabalhando e, quanto ao desejo, vocês podem ficar esperando sentados […| ao formular as coisas desse modo, só fazem perpetuar a tradição eterna do poder. ….(pode-se supor que) o campo dos bens, no serviço dos quais temos que nos colocar, possa num certo momento englobar todo o universo. (Sem, 7, p. 381)

Confirmando a previsão de Lacan, a lógica dos bens, compartilhada e desejada por todos, assumiu uma proporção tão globalizante e desmedida que tem dado ao capital, enquanto tal, a função de governar. É o que afirma Boaventura de Souza Santos: “neste momento, estamos em uma fase do neoliberalismo, que o neoliberalismo não confia mais nos políticos de direita. Ela quer empresários, quer os seus a governar”.  E esse pode ser um dos elementos que justifica alguns resultados recentes, como a eleição de Dória, para prefeito de São Paulo, e de Trump para presidente dos EUA, que confirmando o lugar do capital, convocou alguns bilionários para compor seu governo.

Nesse contexto, deve-se, ainda, considerar as diversas propostas políticas que surgem ou ressurgem nesse momento no mundo, quando avançam as possibilidades de governos de extrema direita. Parecem pretender restaurar um estado anterior, mas nem por isso deixam de se orientar pela lógica do serviço dos bens. É isso, por exemplo, o que ecoa no Brasil com a pretensão de reinstaurar “ordem e progresso”. O cunho saneador, conservador e, na maioria das vezes, moralista dessas propostas revela o ressurgimento de ideais muitas vezes assustadores que, no caso brasileiro, se exprimem, em seu extremo, num pedido de retorno dos militares ao poder. E isso tudo a mote de uma retomada do crescimento econômico e de uma luta contra a corrupção!

A relação da política com a perversão parece poder ser antevista quando se situa o perverso como aquele que quer fazer crer a existência do Outro, aquele cuja relação com a lei é de desmenti-la. Isso fica escancarando no atual momento político pelo qual passamos no Brasil, quando os mais diversos representantes do povo chegam mesmo a perverter aquilo é relativo ao serviço dos bens. Os políticos brasileiros, em sua maioria, governam em causa própria, visando não “um bem” mas seu bem, ou mais explicitamente, seus bens. Congresso e Senado brasileiros, de forma ardilosa, sustentam suas falcatruas e se protegem um ao outro, projetando seus membros para fora das possibilidades da lei. Estamos num campo onde a lei é desmentida e chegamos, talvez, a um ponto que revela um outro posicionamento frente a lei, no qual ela é recusada. Essa recusa dá-se a ver, por exemplo, no caso do projeto anti-corrupção, que corre o risco de ser escrito parcialmente, ou nem ser escrito…. E, como já alertou Lacan, os efeitos do que não se inscreve no simbólico, retorna desde o real!

Diante do cenário esboçado aqui, sob um certa perspectiva, concluo com a abordagem que Brigitte Lémerer traz em seu texto, L’encobriment du real. A partir do que Lacan propõe no Seminário 8, ela faz referência ao que retorna à sociedade, a cada tempo, como sua père-version, a versão do pai. De certa forma, refere-se à maneira como a neurose é acolhida, a cada tempo da cultura, e é trabalhada a partir do laço social, no sentido de uma possível sublimação. Teríamos como efeito dessa sublimação o amor cortês, na sociedade medieval, e a homossexualidade, em Atenas. Cabe, aqui, uma pergunta: diante do lugar do pai na sociedade atual, ou do que parece comparecer como uma falha em sua função, o que poderia se propor como père-version em nossa sociedade? Se nessa formulação de Lacan algo de uma sublimação é produzida a partir do laço social, qual a chance de que algo dessa ordem se produza na tentativa de um contorno ao mal-estar contemporâneo, numa sociedade na qual o discurso que prevalece não faz laço?

E se a poesia tem como possibilidade contornar algo do real, termino com Caetano, que mesmo quando diz que algo esta fora do ordem, não deixa escapar a dimensão do feminino e traz do impossível o efeito que interessa:

Eu não espero pelo dia

Em que todos

Os homens concordem

Apenas sei de diversas

Harmonias bonitas

Possíveis sem juízo final…