Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

A práxis psicanalítica*

Silvânia Marques Motta**

RESUMO: A obra de Arte remete ao trabalho da verdade, ao contorno dado pelo artista àquilo a que se reduz o sujeito suposto saber. Já o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato – objeto a – onde o meio de produção da verdade é o discurso analítico e o semblant é o faz-de-conta que implica o saber-se dejeto. A renovação constante do desejo do analista viabiliza a permanência da psicanálise na cultura, que tem a ver com a sustentação do seu discurso no mundo.

 

PALAVRAS-CHAVE: ARTE; VERDADE; PRODUÇÃO; PSICANÁLISE.

Lacan, no seminário Mais, ainda (1973), diz que há saber no Outro, a ser tomado. O ICS é-feito de linguagem: é o que chega ao Sujeito do campo do Outro como determinação, relação de dependência. É nos efeitos de linguagem que a verdade se semidiz. Diante da castração, fato de estrutura, o saber-fazer aí exige um atravessamento.

O saber produz objeto a. Na psicanálise, a produção do saber como saber é um meio de produção da verdade, em que o analista encarna a produção ocasionada pelo seu ato: “é o próprio psicanalista que encarna, que encarna essa produção”.  Tem a ver com o agir do analista, dimensão do ato. Assim, o semblant é o faz-de-conta implicado no saber-se dejeto. E o meio de produção da verdade é o discurso analítico. O analista se vale do engano estrutural, que é o sujeito suposto saber, joga com o que devolve ao paciente, a falta. O que pensar quanto à sua presença real e a suspensão de sentido na análise?

A práxis de um analista tem um alcance muito além de uma prática clínica. Implica intensão, extensão e se funda sobre uma ética. Sua política é ligada à ética do desejo, não assimilável a qualquer barganha, emprego comum da política.  A prudência do analista requer um certo disfarce, ser discreto, ficar em silêncio.

Em contraposição à práxis, a poiesis – criação poética – se refere a um meio de trabalho da verdade, à capacidade de produzir na qual, segundo Aristóteles, algo é produzido por alguém.  Em que medida o produto é, então, distinto do produtor? Evoca uma questão a respeito do dentro-fora.

Lacan referiu-se à sublimação como “…própria daquele que sabe contornar aquilo a que se reduz o sujeito suposto saber”. Fazer borda remete ao trabalho da pulsão, a pulsão contorna a. Contorna remete a turn, volta, borda em torno da qual se dá a volta, e a trick, volta de uma escamoteação, um truque.

A sublimação, um dos seus destinos, envolve uma relação com a pulsão de afinação à causa de desejo, na medida em que o artista se guia pelo não-saber.  A elevação do objeto à dignidade de Coisa suscita a causa, mas essa sempre relançada, adiada, contudo, enquanto operação radical de subtração, de ratificação da perda.

Poderíamos pensar a psicanálise como a experiência que implica em uma solução, no viés de um circuito pulsional mais “curto”, enxuto pelo desprendimento do gozo paralisante, uma ação menos submetida ao Outro, visto a liberação de pontos de fixação, a partir de um saber sobre o Édipo.

O que temos diante de nós, em análise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu tipo próprio de satisfação. Se nós nos metemos com isto, é na medida em que pensamos que há outras vias, mais curtas por exemplo…se nos referimos à pulsão, é na medida em que é no nível da pulsão que o estado de satisfação deve ser retificado.

Lacan disse que “toda criação artística situa-se nessa demarcação do que resta de irredutível no saber, como distinto do gozo”. A obra de arte viabiliza a suspensão de sentido, a partir da demarcação da falha no saber, onde vem se alojar a invenção. Segundo o artista plástico Cildo Meireles, o ápice da obra é atingido no limite entre ficção e realidade. Assim, antes que seja feito qualquer juízo, algo do Real pode ser tocado, a partir da subversão de espaço e tempo.

O documentário Cildo (2009) ressalta a obra de Cildo Meireles e, nas falas do artista, elementos precisos do que a arte pode ensinar, a nós analistas.

Marcado por duas experiências, a passagem de um andarilho pela cidade, na infância, e a chegada do homem à lua, Cildo toma como referências o astronauta Michael Collins e o andarilho. Esse último, deixara entre os restos do acampamento de uma noite, um artesanato confeccionado na madrugada. O astronauta fora o único ser humano orbitando entre terra e lua, nem lá nem cá, no momento em que as atenções da humanidade se voltavam para os astronautas que pisavam a lua. Cildo identifica-se com o astronauta como o terceiro, solitário. E talvez com a posição daquele garantido apenas no próprio desejo, sem busca de reconhecimento, e que destina um legado ao Outro.

Cildo fala da pretensão do seu trabalho como um seqüestro que retira o espectador daquele lugar e momento, “mesmo que por um átimo de segundo”. Fala das artes plásticas como uma linguagem não limitada em sua estruturação, de fronteira vaga, que não se sabe onde ela começa ou termina, o que justifica que não dependa do tempo para estabelecer uma relação com um objeto. Ela existe de forma que o espectador se depara, tem uma “relação física” e, “a partir daí o trabalho tem que capturar esse incerto”.

A memória é, para ele, o melhor lugar para uma obra de arte, por lidar com a possibilidade material da prova temporal. Ela é catalisadora, tem a função de deflagração, papel proeminente na obra de Cildo, que vem da memória oblíqua da infância. Parece implicar um trabalho de escrita do artista da própria trajetória.

O trabalho da verdade não visa a produção de um saber como verdade. O artista faz da obra sua destinação significante ao campo do Outro, vinculada ao fazer-se reconhecer como desejante.

Outro ponto de relevo é quando evoca o significante lejos, demarcando o limiar de sua obra a partir da introdução dessa “coisa exterior ao seu mundo, seu real”. A exterioridade nos remete à questão da ex-sistência.

Os seminários borromeanos de Lacan colocam o Imaginário na mesma gradação, junto a Real e Simbólico. O mínimo de três é o fato de consistência entre os registros, necessário à sua nodulação, em torno do buraco. A partir disso, não se pode pensar em tratar o Real apenas pelo Simbólico e o Imaginário como o que faria obstáculo na cura. O Real indica a ex-sistência no nó, ponto de exclusão no sentidoum fora que não é um não-dentro. O nó borromeano é a escritura do que opera numa cura, suas consistências de buraco onde o corte faz nó, visando a redução do sentido. A suspensão de sentido, a partir da análise, é algo como escreveu F. Samson: “a interpretação deve ter o gozo como alvo e, portanto, se situar na fronteira do real e do simbólico, aí onde a letra fixa o referido gozo”. Nessa via, temos a proposição: a interpretação é o seu efeito. Ela isola, no sujeito, um coração de non-sense. A partir da escuta da enunciação.

“A interpretação é uma significação que não é não importa qual…ela “reverte a relação que faz com que o significante tenha por efeito, na linguagem, o significado. Ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível…” que para o advento do sujeito o “essencial é que ele veja, para além dessa significação, a qual significante – não-senso, irredutível, traumático –ele está, como sujeito, assujeitado” .

O corte da psicanálise em relação à psicologia do ego diz da identificação ao objeto a separador, veiculado pelo discurso analítico. O objeto a causa o fechamento inconsciente, que comporta a transferência. A função desejo do analista é o suporte da práxis e implica manejar a transferência, para sustentar a abertura ao saber inconsciente.  O suporte da transferência é o sujeito suposto saber. Ao mesmo tempo que em alguns momentos um fechamento é necessário, tornando a análise suportável para o Sujeito, a transferência é atualização desejante, na qual o desejo do paciente se enlaça ao desejo do analista.

“Sustento que é o nível da análise… que se deve revelar o que é desse ponto nodal pelo qual a pulsação do inconsciente está ligada à realidade sexual. Este ponto nodal se chama desejo…A função do desejo é resíduo último do efeito do significante no sujeito”

Qual a especificidade da psicanálise face às práticas da letra? Sustentar o discurso analítico.

Sendo assim, um não-analista pode ter feito um passe? Não, se no sentido conceitual, em psicanálise, no passe é escutado algo da passagem ao desejo do analista. Quem terminou sua análise ou fez uma obra pode ter feito sim uma passagem pelo discurso do analista, e na vida daquele Sujeito o Real vai estar incluído naquilo que ele produz, e até transmite, mas sem que para isso tenha escolhido sustentá-lo. Fazer-se representante desse discurso no mundo, isso inclui ocupar o lugar de analista.

A Escola só garante a relação do analista com a formação. Submeter-se à experiência da psicanálise, em intensão e extensão, não garante o tornar-se analista. Isso supõe uma decisão, escolha radical, necessária a um atravessamento.

O sujeito que escolheu não dar esse passo, pode dar sua contribuição à psicanálise, ou ter uma afinação discursiva, mas ele não vai além de um certo limite. Não se coloca nesse ponto de Real. A.E são letras, indicam a escritura a partir da qual é possível produzir teoricamente sobre o passe, que é o que interessa à psicanálise, visto que a renovação constante do desejo do analista viabiliza sua permanência na cultura, que tem a ver com a sustentação do discurso da psicanálise no mundo.

O Sujeito escolheu não ir além desse limite do horror ao saber. O que implica considerar a posição de cada um, pois o contrário seria supor que o desejo do analista produz-se como mágica, ideia falsa, ligada aos significantes aparecimento e surgimento.

 

BIBLIOGRAFIA

LACAN, Jacques. (1964). O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008.

______. (1968-69). O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2008.

______. (1973). O Seminário: Livro 20: mais, ainda. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MEIRELES, Cildo. Série Retratos contemporâneos da arte. Direção: Gustavo Rosa de Moura. Roteiro: Gustavo Moura e Sergio Mekler. Fotografia: Alberto Bellezia. Produção: Ana Murgel e Mariana Ferraz. Brasil: MATIZAR Filmes, 2009. Documentário. 1 DVD (78 min.).

SAMSON, Françoise. A Interpretação. Texto de orientação ao Colóquio 2013: O quê é uma psicanálise? Tradução de Silvia Myssior para o Aleph Escola de Psicanálise. Circulação Interna.

* Trabalho apresentado durante a X Jornada de Cartéis do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora, 2012

**Psicanalista, membro do Ato Freudiano – Escola de Psicanálise de Juiz de Fora

LACAN. O Seminário: Livro 20: mais, ainda

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 337

Idem, p. 341

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 164

LACAN. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, p. 341

Cildo Meireles, In: Documentário: Cildo, de Gustavo Rosa de Moura

SAMSON. A  interpretação. p. 4.

LACAN. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 242.

Idem, p.243.

Idem, p. 152.


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2 de abril de 2018by Ato Freudiano0

Práticas da Letra e psicanálise 03/03/2018

David Lynch – A vida de um artista – Arte e vida 

 

Bom, em 2011 inauguramos este espaço de trabalho: Práticas da letra e psicanálise. Desde então, temos buscado garimpar na fala de artistas, poetas e escritores o ponto de tensão que se impõe a eles e os empurra a uma posição decidida, sem concessões. Passamos por vários autores e hoje estamos aqui com o sobre filme David Lynch, em que vida e arte se confundem… se entrelaçam, ou seja, estão no mesmo lugar.

Começo meu comentário com uma frase do próprio David Lynch: “eu decidi ser pintor naquele instante”. Um instante que adivinho do real, não apenas como negação, como aquilo que resiste à simbolização, mas que opera como passagem, como atravessamento… o leva a um modo de estar no mundo.

Portanto, é de uma contingência singular que retorna ao artista, como um não-sentido enigmático, como um saber desde o real, que um traçado vai se fazendo estilo. Algo lhe é imposto de fora e exige um trabalho árduo e paciente do irrepresentável que o acossa.

Clarice Lispector vai nos dizer: “escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva”. (Lispector, C – em A descoberta do mundo)

E, Marguerite Duras, também afirma: “escrever é encontrar-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escritura a salvará”.

“É isso a escritura. É o trem do escrito que passa pelo seu corpo, o atravessa. É daí que se parte para falar dessas emoções difíceis de dizer tão estranhas e que no entanto, repentinamente, se apossam de nós”. (Duras, M – em Escrever)

Essas palavras também afirmam que há uma decisão de se deixar levar por esse inominável que se impõe. Por isso, uma decisão que não permite recuos.

Cito agora outras afirmações de David Lynch: “Eu só estava interessado em meu mundo”. “Vivia com medo, mas tudo o que eu queria era pintar”.

E acrescento o que Kandinsky nos ensina: “Através da mão do artista, uma força exterior se precipita sobre o ponto fixo no plano, arranca-o e empurra-o numa direção qualquer, sua tensão concêntrica é destruída, o ponto desaparece e se torna um ser novo, com vida autônoma e submetido a outras leis, eis a linha”.

A obra se destaca, ganha vida própria… o sujeito se apaga em prol de uma economia pulsional. É um caminho, que na contramão do lugar comum, transmite algo desse estranhamento, desse indizível que o move. E, o medo, como nos diz Lynch, (o medo é um dos nomes da angústia) não o impede de ir em frente porque se submete ao desejo – “tudo o que eu queria era pintar” e o impulsiona a se endereçar ao campo do Outro, fazendo laço social.

David Lynch nos diz ainda: “Eu precisava me divertir, encontrar o meu estilo”.

Então, se há uma maldição, nas palavras de Clarice Lispector, há também um certo divertimento em ser empurrado em uma direção qualquer, sem saber o que virá.

Esse desejo decidido se aproxima do desejo de Freud, que em uma carta a Fliess (07/07/1898) quando redigia a interpretação dos sonhos, e preocupado em escrever uma obra científica, escreve:

“Eis aqui alguns resíduos de minha última investida. Eu só consigo compor os detalhes no processo de escrever. Esse processo segue completamente os ditames do inconsciente, seguindo o bem conhecido princípio de Itzig, o cavalheiro de domingo. “Itzig, aonde você vai? “E, eu sei? Pergunte ao cavalo”. Eu nunca comecei um único parágrafo sabendo de antemão onde terminaria.”

Há portanto, um desejo decidido no artista e no analista em relação à transmissão desse ponto indizível, mas há também um ponto que os distingue. Enquanto o artista tem uma via aberta que faz com que a obra – o objeto – se destaque e faça laço, o analista precisa se inserir em um laço de trabalho para  que um saber fazer se constitua. Para que um estilo possa se depurar, para que a maldição se faça com algum divertimento. Porque no campo artístico tensão e extensão se enlaçam no próprio ato do saber – fazer a obra. Para o psicanalista para que o ponto fixo se mova, faz-se necessário uma articulação entre intensão e extensão.

A Escola fundada por Lacan é o lugar que abre essa possibilidade.

“Estamos conscientes de que os resultados da psicanálise, mesmo em seu estado de duvidosa verdade, têm aspecto mais digno do que as flutuações da moda ou as premissas cegas nas quais se fiam tantas terapêuticas no domínio em que a medicina não terminou de se delimitar quanto aos critérios (os da recuperação social, não isomorfos aos da cura?) e parece até atrasada quanto à nosografia: dizemos a psiquiatria, transformada numa questão para todos.”

“É até muito curioso ver como a psicanálise serve aqui para-raios. Como, sem ela, se levaria a sério aquilo que se orgulha de opor-se-lhe? Daí um statu quo no qual a psicanálise fica a vontade mesmo que se saiba de sua insuficiência.”

“Se nos limitarmos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar seu campo não somente a um trabalho de crítica: à abertura do fundamento da experiência, ao questionamento do estilo de vida no qual ela desemboca.” (Lacan, Preâmbulo da Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris)

Então, em uma direção aposta às tendências totalizantes atreladas a ideais de visibilidade, representatividade e estatísticas plenas de sentido – a escola é um lugar que aposta que na falha do significante – algo novo possa advir e, nesse sentido, um estilo próprio e um estilo de vida se enlaçam.

Abrimos o nosso tema do ano: “O que emerge do real: angústia, sintoma e objeto”, com a contribuição decisiva de David Lynch.

Vamos também tentar dar um outro passo da política e psicanálise, que fizemos um caminho no ano passado, para a política da psicanálise.

Acho que podemos ficar animados porque tenho certeza que maldição e divertimento na direção do desejo é uma via muito mais interessante do que um outro tipo de maldição e divertimento que se instalou no campo da política.

 

Maria do Carmo Motta Salles