Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

Uma Escola fora do comum

Silvânia Marques Motta

O presente trabalho é efeito da leitura dos seguintes textos institucionais, a Ata de Fundação da Escola Freudiana de Paris e a Proposição de outubro de 1967, bem como da leitura da Terceira, coordenada pelo Orris, e dos textos do seminário “O inconsciente é a política”, coordenado pela Zú, que acontecem na quinta à noite.

Inicio com uma citação da Proposição de outubro de 67: “…Escola, ela não o é apenas no sentido de distribuir um ensinamento, mas de instaurar entre seus membros uma comunidade de experiência, cujo cerne é dado pela experiência dos praticantes” (1ª versão; p. 7).

O título deste trabalho traz o significante “fora”, pensado em referência ao lugar da Escola de psicanálise em relação ao mal-estar na civilização e também à especificidade do saber aí produzido.

O discurso analítico é o único que permite sustentar uma pergunta frente a esse mal-estar, ao fazer um contraponto aos discursos capitalista e da ciência. Tal refúgio é propiciado pela possibilidade de questionamento, de manter aberto o lugar da hiância, em resistência às tentativas de tentar recobri-la com os objetos comuns – leia-se imaginários e condensadores de gozo – oferecidos pelo mercado e viabilizados pela ciência, na contemporaneidade. Contudo, refúgio não implica em um abrigo, como numa “casa de repouso para veteranos”, mas no que Lacan indicou ser uma “base de operação contra o mal-estar”, num diferente estilo de vida, a partir de uma modalidade inédita de funcionamento.

(Por “objeto comum” entenda-se aquele não próprio do desejo. E se é de gozo, pode ser qualquer um, e tomado em substituição infinita. A felicidade não é permanente, é preciso perder o gozo para aceder a ele de um outro jeito, no seu valor de uso, posto que efêmero.)

O saber psicanalítico é um saber que se faz com o próprio inconsciente, que está na outra via que não a da acumulação de conhecimento. O significante “fora” remete ao Real como pano de fundo nessa produção. A Escola fundada por Laca se distingue das Sociedades da época como uma comunidade de experiência que leva em conta o Real na formação.

Segundo Moustapha Safouan, Lacan tem razão quando dá a entender nos seus Escritos que “um ensino que responde à demanda de aprender, no sentido de aprender conhecimentos comuns, é um ensino que engana a ignorância, em vez de dela se servir” (Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas; p. 43).

O ensino que a Escola visa é aquele que advenha na junção da psicanálise com os saberes afins e que possa passar alguns significantes cuja escuta cause efeitos de trabalho, fundando, assim, a possibilidade de transmissão.

A entrada na Escola constitui um endereçamento à psicanálise, é dirigir-se a um laço de trabalho comum, seja enquanto responsável pelo avanço da Escola, seja pela posição que nela se ocupa (o que se refere às categorias de nominação de membro e de participante da Escola, conforme a Ata de 2010, do Ato Freudiano).

Estar na Escola não significa estar em formação. Na Proposição, há também uma passagem importante, na qual fica estabelecido que a Escola garante a relação do analista com a formação, e não que a formação mesma esteja garantida.

Ao basear sua formação no Cartel, dispositivo de transmissão sustentado na transferência de trabalho, e ao eleger o gradus como princípio de funcionamento, a Escola considera que o que está em questão na formação é o desejo do analista. (O gradus é à medida dos passos dados pelo analista, que deu suas provas na extensão. Subverte o desejo de reconhecimento em reconhecimento de desejo).

Que cada um tomará a Escola na medida do seu desejo, é o que atesta a formulação de que não há relação sexual. Desejo esse que será posto à prova, para que o Real não conduza ao seu próprio desconhecimento, mas possa haver uma chance à articulação da falha no saber, desde a causa do desejo – objeto ª

Na Terceira, Lacan diz que “…é somente pela psicanálise, é nisso que esse objeto constitui o cerne elaborável do gozo, mas ele só se sustenta da existência do nó” (p.8).

A exposição e crítica do trabalho e a função mais-um no Cartel constituem provas ao desejo na extensão. Referem-se ao corte, que permite a exclusão no sentido e coloca em campo a ex-sistência, condição de nodulação e seus efeitos de enxugamento. As provas ao desejo promovem um descompletamento imaginário e colocam em perspectiva o Sujeito diante do engano, e a ele só resta simbolizar algo diante da falta. Não nos esqueçamos de algo que Lacan formulou na fundação da Escola, sobre o ponto em que o problema do desejo não pode ser escamoteado, que é quando se trata do próprio psicanalista (Preâmbulo da Ata de Fundação da E.F.P).


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

50 anos dos Escritos

                    XXI jornada do Ato Freudiano – Escola de psicanálise de JF,  10/12/2016

“Os Escritos, uma obra de umas novecentas páginas, estavam para serem lançados. Lacan, se encontrando com Derrida, manifesta sua inquietação. Evocando a encadernação do volume, declarava: Você verá, isso não vai resistir.”

(Vous verrez, ça ne vas pas venir)

 

O que dizer dos 50 anos dos Escritos ou Escritos – 50 anos depois? É uma pergunta que abre para muitas possibilidades de leitura.

           Em primeiro lugar, é importante destacar que a publicação dos Escritos em 15 de novembro de 1966 é um marco na história da psicanálise. Além de ter ocorrido em um cenário de extrema efervescência cultural, se deve também à decisão e autorização do próprio Lacan diante do seu lugar na psicanálise e na cultura que não o deixava outra alternativa. A Escola Freudiana de Paris tinha sido fundada em 1964 como efeito de um percurso longo de trabalho implacável de retorno a uma leitura textual de Freud. Assim, os Escritos são o resto da elaboração de sua experiência clínica e produto de seu ensino oral que ressoavam naquele momento singular de Paris nos anos 60.  Momento de ideais  utópicos, ingênuos e libertários, tendo como um de seus slogans: É proibido proibir! Mas, o obscurantismo das falsas evidências já se anunciava, e a clínica já prenunciava outras perspectivas, sinalizando para uma simples margem de liberdade a partir de um irrepresentável que diz da dimensão do real.

           Os Escritos nos apresenta um conjunto de textos e conferências dispersos durante a sua trajetória até aquele momento, sendo tarefa impossível demarcar o estatuto de cada artigo, na medida que cada um deles nos traz contribuições fundamentais para uma leitura apurada da subversão radical empreendida por Freud. É uma escrita também que abre para a formulação dos matemas, que se dará um tempo depois. Então, a inquietação de Lacan na época da publicação dos Escritos: “ Isso não vai resistir” não se confirmou. Para surpresa do próprio Lacan, os Escritos foram um êxito de venda. Fato surpreendente tratando-se da obra de um autor que tinha fama de ilegível.  Mas, “isso resiste, insiste”, e confirma a inscrição na cultura do imperativo freudiano – “Onde isso era, devo advir – Wo Es war, soll ich werden.”

           É interessante também ressaltar a insistência do editor dos Escritos – François Wahl- que foi seu analisando e o instigou a essa publicação. Isso nos diz de um fora/dentro, que implica em uma posição que tem uma estreita relação com a prática clínica que nos coloca diante de uma experiência de leitura que consiste em experimentar uma certa ilegibilidade, um esvaziamento do sentido do imaginário e de um tempo para compreender.

           E, em se tratando dos Escritos, é sempre bom retomar as palavras do próprio Lacan:  “O escrito distingue-se, com efeito, por uma prevalência do texto, no sentido que veremos ser assumido aqui por esse fator do discurso –  o que permite a concisão que, a meu ver, não deve deixar ao leitor outra saída senão a entrada nele, que prefiro difícil. Este, pois, não será um escrito, como o entendo. … Pois a urgência de que agora extraio como pretexto para deixar de lado esse propósito só faz encobrir a dificuldade de que, ao sustentá-lo na escala em que devo aqui apresentar meu ensino, ele não se distancie demais da fala, cujas medidas diferentes são essenciais para o efeito de formação que procuro.”

( Lacan, A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud – Escritos, p.496)

           Se o estilo, a clínica e o ensino oral de Lacan já o colocavam em um certo lugar, a publicação dos Escritos o inscreve definitivamente em um lugar certo – em um lugar que não deixa ao leitor outra saída senão sua entrada na lógica do significante e da letra, ou seja, no próprio lugar do saber inconsciente. É um texto vivo que ao tensionar o leitor com suas equivocidades potentes, nos apresenta uma massa textual significante que faz surgir para quem o lê a pergunta insistente: é ilegível Lacan? O próprio Lacan chegou a dizer que sua escrita mantinha um significante em reserva, o que não deixa de ter certa relação com um objeto que em sua radical ausência vetoriza a direção da experiência analítica.  Certos textos, e a clínica nos diz isso no nosso dia a dia, só podem ser lidos uma vez que se assume sua ilegibilidade. Nesse sentido, os Escritos adquiriram o status de um clássico, cuja obra nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer.

           Retorno a pergunta que abre este trabalho: o que dizer dos Escritos – 50 anos depois? Qual a sua atualidade? Além de nos remeter a um ponto de solidão extrema, nos convoca a uma leitura apurada dos pontos obscuros das falsas evidências que perpassam a contemporaneidade. É uma experiência de leitura que chama pelo desejo do leitor e que o desaloja da paixão pela ignorância e do imediatismo de qualquer resposta pronta. Conseguir fazer um certo atravessamento em algum dos escritos não é sem consequências.

         É uma escrita que põe o leitor na terceira margem do rio: “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.”   (Guimarães Rosa – A terceira margem do rio/ Primeiras Estórias p. 33)

        Recorro também a um poema de uma paciente, que de um outro lugar, procura se localizar diante da imparidade, estranhamento e estarrecimento da palavra experimentada em uma análise: de um real ilegível e irrepresentável.

À margem de um leito… ímpar de amor

À margem das palavras  e… idas e vindas desse leito,

a busca de um dizer que seja leito,

em uma procura ímpar de amor.

Estar à margem

Acreditar na margem…

É buscar o fio tênue da própria convicção.

        Guimarães Rosa e a paciente sintetizam de uma maneira exemplar o que os Escritos nos ensina. Então, 50 anos depois, dado os rumos da civilização, mais do nunca se torna imperativo colocar em ato esse ensinamento porque é um escrito que põe em questão a atualidade. Estamos em um momento da história também ímpar, em uma conjuntura clínica e política que exige uma leitura que não se reduza ao campo dos enunciados que em seu fechamento, mantém uma via repetitiva e uma leitura ancorada em corrimões já desgastados pelo tempo.  Sabemos que todo texto tem uma dimensão sintomática e pede um deciframento. Se estamos vivendo em um tempo de estranhamento, de polarizações desmedidas, segregação e exclusão, ancorados por um ideal do tudo saber da ciência e de um empalidecimento da dimensão política, talvez possamos nos apoiar na formulação de Lacan: “O inconsciente é a política.”  Porque a psicanálise é o único discurso que estabeleceu um confronto de modo irredutível com o real. O que se inscreveu desde Freud fez corte e trouxe efeitos no mundo. Essa formulação de Lacan: “O inconsciente é a política” produz o enodamento necessário de um laço inédito que questiona radicalmente as ditas relações entre os seres falantes. O inconsciente exige que se rejeite qualquer benefício que provenha da ‘realidade’ para um sujeito ou uma comunidade e que se indague o laço de satisfação com o real… O Inconsciente implica, então, a articulação lógica da posição do sujeito para que se saiba o que ele procura.” ( E.V.  O inconsciente é a política – in Política e psicanálise/ RLF n. 44 p.17)

        Assim como os Escritos nos deixa em um certo compasso de espera e também em uma certa zona de silêncio que pode ser assim formulado: Eu sei que é impossível de ler, mas mesmo assim… e isso nos traz uma sensação de desamparo, mas também uma certa satisfação e até momentos de uma alegria fugaz, a civilização atual nos deixa esse legado: Eu sei que está impossível de ler, mas mesmo assim…

          

      


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

O efêmero: esse Outro lugar…

Maria do Carmo Motta Salles

Resumo: A psicanálise desvela o valor lógico do efêmero como condição de verdade. É apenas isso que a faz perdurar – dar um lugar ao efêmero que pode ou não ter um efeito de raridade no tempo – ou seja, o efêmero não é esse Outro lugar com reticências, é o que por excelência, possibilita instantes decisivos de corte à astúcia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Palavras-chave: efêmero, real, impossível, obra, ato analítico.

“O espelho é o também de você nunca”

(Millôr Fernandes)

  

O encontro inesperado com essa frase de Millôr Fernandes me impulsionou a escrever este texto. De um título já pensado antecipadamente, que se enlaçava ao tema do Colóquio, mas ainda como um indício de uma convicção tênue, à decisão de escrever algo nessa direção. Porém, não sabia por onde ir. Um indício velado é, portanto, suficiente para indicar um caminho, mas muitas vezes se perde numa zona de sombra espessa. No entanto, ao me deparar com a frase, efêmera, vinda desse Outro lugar, de fora, da intrusão do real, uma certa possibilidade se abriu para a escrita deste texto. Um alhures se fez causa, presentificando o que não se sabe e ecoando o insabido do desejo do Outro.

A frase de Millôr nos apresenta, de uma forma extremamente condensada, o que Lacan abordou no estádio do espelho, apontando-nos uma operação de soma (também) e subtração (nunca), ou seja, afirmação e expulsão, em um golpe só, que indica o lugar vazio de onde o sujeito emerge. Porque a imagem só se mantém momentaneamente e, em um piscar de olhos, já se terá transformado. A imagem é como uma coisa continuamente flutuante. Então, a idéia de totalidade de um corpo é efêmera e instantânea e se perde no instante seguinte.  É de um lugar vazio que o sujeito é lançado e se lança à procura de um sentido, e só no limite do nonsense se impõe uma invenção diante da impossibilidade do real. Mas, em sua constituição e em seu caminhar pela vida, o sujeito tenta desesperadamente se agarrar a uma totalidade e, nas suas idas e vindas pelo simbólico, engessa o imaginário e busca empalidecer o que do real comparece, fazendo sintoma. A psicanálise, ao ler esse movimento da estrutura do ser falante, se sustenta em uma aposta: o essencial é que, tocando o ponto limite entre o real e o simbólico,  isso se diga, continue a se dizer, porque há certamente o inexprimível que se mostra.  A esse respeito, Lacan (1973) nos diz:

Esta função do impossível não deve ser abordada sem prudência, como toda função que se apresenta em forma negativa. Eu quereria simplesmente sugerir-lhes que a melhor maneira de abordar essas noções não é tomá-las pela negação. Este método nos levaria aqui à questão sobre o possível, e o impossível não é forçosamente o contrário do possível, ou bem ainda, porque o oposto do possível é seguramente o real. (LACAN, 1973, p. 159)

Wajcman (2012, p. 62) afirma que “o artista, o escritor, o poeta e o psicanalista possibilitam mostrar e dizer o que não pode ser visto, nem dito – visam o impossível enquanto impossível”. Ao se situarem, portanto, na mesma curva que é aquela da estrutura, encontram sua razão na própria obra e no próprio ato analítico. E, em decorrência disso, produzem ondas em cada sujeito para que algo novo possa emergir. O que virá a partir dessas ondas incide sobre o coletivo e poderá provocar um efeito discursivo inovador.

O real se distingue porque, em sua economia e imposição, exige algo novo, que é justamente o impossível. Há uma imposta facticidade do real e, também, uma imposta facticidade do efêmero, que é um dizer sobre o real – que se presentifica insistentemente, forçando-nos a cavar alguma saída não prevista no ponto de partida. O efêmero é um dos nomes do não todo: é um espanto benvindo que se impõe impedindo a pura dispersão do real, possibilitando o caminhar da civilização. É, portanto, esse Outro lugar que, ao circunscrever o real, reenvia o vai e vem da pulsão, envolvendo as zonas de superfície do corpo e as aberturas erógenas. O real força as aberturas como pontos de evanescência onde o interno encontra o externo. O efêmero é o nome do sujeito pontual e evanescente, como efeito da abertura e do fechamento do inconsciente.

Se considerarmos que “o inconsciente é a soma dos efeitos da fala sobre um sujeito” e que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante, não se pode admitir o corpo falante a partir de qualquer espécie de substância. O sujeito é evanescente e aparece no momento em que a dúvida se reconhece como certeza, e não a partir de um logos que se encarnaria em alguma parte. A abordagem freudiana afirma, no entanto, que “as bases desse sujeito se revelam bem mais largas, mas ao mesmo tempo bem mais servas quanto à certeza que ele rateia. É isto que é o inconsciente” (LACAN, 1973, p. 122). O inconsciente está fora – nesse Outro lugar – como aquilo que insiste e revela um impossível sobre o qual se funda uma certeza. Mas o inconsciente não se encontra em todo lugar: ex-siste e se instaura em ato a partir do desejo do analista.

Quero ressaltar bases bem mais largas e ao mesmo tempo bem mais servas porque nos indicam justamente a estrutura escandida do batimento da fenda em que o sujeito se afirma e onde o desejo pode emergir. Como nos diz Lacan: “Ora, se o desejo não faz mais do que veicular para um futuro sempre curto e limitado o que ele sustenta de uma imagem do passado, Freud o diz, no entanto, indestrutível” (LACAN, 1973, p. 35).  Então, podemos dizer que o desejo se apresenta de uma forma efêmera e pontual, mas traz algo novo e alarga o que anteriormente era apenas uma imagem – o também e nunca – de um passado. Abre para que as bases do sujeito possam se relançar diante da certeza efêmera que é veiculada para um futuro sempre curto e limitado.

Considero importante pensarmos sobre o significado do termo ratear: 1) distribuir ou dividir segundo a proporção que, por justiça, toca a cada um, ou seja, divisão proporcional de bens; 2) não funcionar, falhar, perder a força, tornar-se debilitado. É, portanto, através da falha que uma nova proporção pode se colocar. Mas, ao mesmo tempo, é através da mesma falha que o desejo pode se debilitar. O que Lacan nos aponta é que a função do ratear está no centro da repetição analítica, indicando-nos que a posição de cada um vai se revelando à medida que o trabalho de uma análise vai seguindo seu curso. E o que Freud nos diz é justamente que existem duas posições distintas em relação ao efêmero: uma revolta diante da facticidade do efêmero ou o reconhecimento de um valor de raridade no tempo.  A psicanálise desvela, portanto, o valor lógico do efêmero como condição de verdade.  E é exatamente esse Outro lugar, obscuro, opaco e pontual que move o artista ao ser reconhecido como valor e pode se tornar um valor de corte, abertura e novidade no campo da cultura, mantendo a pulsação necessária à sua sustentação. É também esse Outro lugar indizível e efêmero que, ao ser nomeado por Lacan como objeto a, se inscreve definitivamente no discurso do século XX, possibilitando uma certa apreensão de elementos estruturais que revelam, de uma maneira inexorável, a condição efêmera e despossuída de todo paraíso perdurável que sintetiza o homem contemporâneo.

Diante do exposto, considero importante pensarmos o lugar do passe na escola como a aposta de Lacan em um instante revelador da estrutura do ser falante.  O discurso analítico pode chegar a um resto que afirme a radicalidade do efêmero como um dizer que apreendeu algo do real – “onde o real alcance o real”.

Como nos diz Françoise Samson, “O passe é um instrumento que serve para manter aberta uma questão: como e com quê um ser falante é fabricado?” (SAMSON, 2010, p. 27).  O passe, tal como o segundo tempo do trauma, pode capturar algum elemento estrutural e ser transmitido à comunidade de analistas. Diante da impossibilidade do real, pode-se enunciar algo novo – um saber inédito.

E se o sujeito, em um primeiro tempo, se depara, no final de sua análise, com o real que comparece em toda a sua potência, pode, em um segundo tempo, formular um dizer sobre isso. É apenas isso que faz a psicanálise perdurar – dar um lugar ao efêmero, que pode ou não ter um valor de raridade no tempo. O efêmero não é esse Outro lugar com reticências. É o que, por excelência, possibilita instantes decisivos de um certo contraponto à astúcia, trama e tramóia do discurso capitalista que comanda os rumos do mal-estar contemporâneo.

Então, nesse momento da história em que estamos, há a necessidade de analistas. Essa necessidade está ligada a alguma coisa que se tornou impossível na vida cotidiana dos seres falantes. Alguma coisa tornou-se impossível como efeito de uma certa invasão do real. O real, para a ciência, pôs-se a pulular: ele se tornou uma presença, de uma insistência que não tinha até então. Essa presença, que nos estorva, nos faz considerar que a psicanálise, assim como as artes, ao darem um lugar lógico ao efêmero, são os únicos respiradouros que podem nos permitir sobreviver ao real.

 

Referências bibliográficas:

FREUD, S. Efêmero. Tradução de Eduardo Vidal. In: Da Experiência Psicanalítica, Publicação – Escola Letra Freudiana, nº. 41, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2009.

LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

SAMSON, F. Conferência: Analista da Escola (A.E.). O a posteriori. Tradução de Ana Lucia Teixeira Ribeiro. In: Documentos para uma Escola V, Publicação – Escola Letra Freudiana, ano 29, nº. 0’’’’, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2010.

WAJCMAN, G. A arte, a psicanálise, o século. In: AUBERT, J. Lacan: O escrito, a imagem. Tradução de Yolanda Vilela. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.


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24 de agosto de 2017by Ato Freudiano0

Carta Aberta

Na edição especial do mês de agosto de 2016 da revista Cult, um dossiê veio a público. Contém trabalhos minuciosos sobre questões relativas aos descaminhos da psicanálise na contemporaneidade, que podem fazer obstáculo a virulência do saber fundado por Freud. Verificamos, com inquietação, os riscos de uma certa padronização, insistência na repetição de jargões e engessamento do discurso lacaniano agravados pela zoeira sem limites da internet, que não só redimensiona a noção de tempo e espaço como amplia o mal-estar do sujeito contemporâneo.

O dossiê inicia com a seguinte afirmação: “Porque hoje o discurso dos analistas lacanianos já está instituído. De certo modo, ele nem mais precisa de uma sociedade de psicanalistas, já anda sozinho. Melhor seria dizer que fala sozinho, nem precisa mais de mim, nem de você: tornou-se um discurso anônimo.” Em seguida, abre a série de artigos com a seguinte pergunta: “qual a melhor posição dos psicanalistas para estarmos, como diz o outro, à altura das questões do nosso tempo?” A psicanálise é um dos grandes acontecimentos da nossa época, como diz seu fundador, a terceira ferida narcísica.

Questão extremamente pertinente que nos faz retomar uma indicação muito precisa de Alain Badiou: o acontecimento é uma categoria não articulável que instaura uma verdade e deixa um resto, embora possa ausentar-se da memória explícita. Por isso é preciso uma intervenção, uma interpretação para dar consistência a essa singularidade. As dificuldades de ser fiel a esse acontecimento expressas na história da psicanálise exigiram uma intervenção e foi preciso que Lacan, num determinado momento, empreendesse um retorno a Freud.

Nesse sentido, o inédito da descoberta introduzida por Freud exige um percurso próprio na formação do analista baseado em dispositivos específicos. Assim, Lacan ao fundar a Escola em 1964 cria um dispositivo de trabalho – o cartel – como a forma privilegiada de produção de um saber ao sustentar o não todo em seu funcionamento. Não há um todo saber que responda ao mal-estar do ser falante – é isso que funda o saber psicanalítico a partir do que a clínica do nosso dia a dia nos ensina. Em 1967, Lacan lança a Proposição de 09 de outubro e acrescenta o passe como a possibilidade de verificação da passagem de analisante a analista. Abre assim para a comunidade de analistas uma possibilidade de trabalho ao convocá-la a uma verificação que deve estar bem distante de uma deontologia.

A Escola é, portanto, um coletivo de trabalho que deve estar atenta ao vivo da descoberta freudiana e aos riscos constantes de uma certa obscenidade que invade a sua institucionalização. Os conceitos psicanalíticos já se incorporaram ao acervo simbólico do nosso tempo às custas de uma imensa banalização. E é por isso imprescindível que os analistas retornem, com afinco, aos seus fundamentos para dar consistência a essa singularidade, porque os impasses e descaminhos assentados em um ideal são elementos estruturais que insistentemente se repetirão buscando abafar o inédito desse acontecimento. Se ater com entusiasmo a novidade que a nossa clínica cotidiana nos apresenta nos leva necessariamente a um espanto benvindo  que sempre comparece quando se lê e relê Freud e Lacan.

O conceito de contemporâneo de Agamben é também uma indicação que se articula com o que nos interessa nesses tempos sombrios: “A contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este, e ao mesmo tempo, dele toma distância … e ainda, contemporâneo é o que mantém fixo o olhar no seu tempo para nele perceber não as luzes, mas o escuro … é também aquele que recebe em pleno rosto o facho das trevas que provém de seu tempo.” A partir do que Agamben nos traz, é bom retomar também a maneira como Lacan encerra o seu Escrito A psicanálise, razão de um fracasso:

“Quando a psicanálise houver deposto as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização ( mal-estar que Freud pressentia) é que serão retomadas – por quem? – as indicações de meus Escritos.”

 

Maria do Carmo Motta Salles

Membro do Ato Freudiano Escola de Psicanálise de Juiz de Fora