Blog do Ato

O Blog do Ato Freudiano destina-se a veicular textos e estudos que comparecem e são consultados no decorrer das diversas atividades que visam o ensino na Escola. Em geral são contribuições de pesquisa, traduções de autores estrangeiros, adendos e pontuações que dão apoio no transcurso das leituras de Freud e Lacan. Também são considerados matéria viva deste blog apresentações de atividades abertas, introduções e textos produzidos para jornadas e eventos que, no entanto, não foram publicados por opção do autor, e isso não implica que devam permanecer nas estantes. Assim, compete a este espaço virtual, acolher produções que estimulem a leitura dos textos originais a que remetem.

A publicação dos textos e trabalhos é regulada pela autorização de seus autores.


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2 de junho de 2017by Ato Freudiano0

Pontuações sobre libido e pulsão e auto-erotismo e narcisismo¹

Jorge Lossano Villaça²

Freud admite dificuldades que o leva a formular duas questões:

Primeira – Qual a relação do narcisismo com o auto-erotismo?

Segunda – Qual a diferença entre uma libido sexual e uma energia não-sexual pertencente às pulsões do Eu? Toda a dificuldade está na distinção entre a energia das pulsões do Eu e libido do Eu, e entre a libido do Eu e a libido objetal. Essa segunda questão já foi tratada quando abordamos em nossa leitura a proposição freudiana de uma classificação para as pulsões originais diferenciando-as em: Pulsões do Eu (auto-conservação) e pulsões sexuais.

 

Libido – força quantitativamente que permite medir os processos e transformações da excitação sexual. É distinta de outras formas de energia psíquica, o que permite atribuir também um caráter qualitativo.

 

Pulsão – nunca aparece como uma força momentânea de impacto é sempre uma força constante.

 

A pulsão é diferente de estímulo. É o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam o psiquismo – Representante psíquico das forças orgânicas. Tem origem no organismo e atuam no psiquismo, ou seja, o estímulo ou excitação endógena atua como uma força geradora de um impacto isolado, que num primeiro momento origina-se nas células do corpo, produzindo as necessidades principais ou básicas: fome, sede, respiração e sexualidade.

 

Narcisismo – fase intermediária entre auto-erotismo e amor objetal.

 

Narcisismo secundário – se constitui a partir do retorno dos investimentos anteriormente feito nos objetos e redirecionado ao Eu, superposto ao narcisismo primário (auto-erotismo).

 

Auto-erotismo – descrito como estado inicial da libido, onde as pulsões, presentes desde o início, buscam satisfação no próprio corpo. Freud supõe que uma unidade comparável ao Eu não esteja presente no individuo desde o início – Narcisismo primário.

 

No segundo ensaio sobre a teoria da sexualidade aborda o chuchar (sugar como deleite) como uma manifestação sexual infantil que consiste na repetição rítmica de um contato de sucção com a boca do qual está excluído qualquer propósito de nutrição. Embora partes do corpo sejam tomadas como objeto, o que Freud tem em mente são as representações psíquicas dos objetos e não os objetos do mundo exterior. O chuchar – traço da prática sexual infantil onde a pulsão não esta dirigida à outra pessoa, satisfazendo-se no próprio corpo é auto-erótica (narcisismo primário).

A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida-satisfação erógena associada à necessidade de nutrição- e só depois se torna independente dela.

Portanto, a criança toma seus objetos sexuais a parir de suas experiências de satisfação. O auto-erotismo nasce do apoio das funções somáticas vitais sem nenhum objeto sexual.

 


 

¹ Trabalho apresentado no Seminário de Leitura de Sigmund Freud, em 18 de Abril de 2012.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano Escola de Psicanálise de Juiz de Fora.

 


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2 de junho de 2017by Ato Freudiano0

Vamos correr por que o lobo está vindo?¹

Lilian Freire²

Esta comunicação alinhava um trabalho realizado ao longo de 2004, ano em que muito se falou sobre a formação de analistas e a necessidade de um posicionamento ético de todos aqueles que são afetados pelo saber inconsciente e acolhem seus efeitos. A intenção é deixar em aberto essas questões para novas e futuras indagações.

Fazer com que a hiância permaneça aberta foi o trabalho de Freud, que asseverou serem inconciliáveis o saber inconsciente e o modelo acadêmico. Esta questão está nos primórdios do movimento psicanalítico, momento inaugural em que a prática médica encontrou seu limite. Freud propôs algo distinto e radical: falar, construir um saber singular, romper com as regulamentações que normatizavam o desejo. Em 1900, o cenário era esse, mas parece não ter mudado: a ordem médica ainda se orienta a partir de um saber fechado e mecânico sobre o corpo. Em outro extremo – visando reintroduzir em seu campo a dimensão de sujeito que a ciência faz calar – está a psicanálise, situada em um cenário de burocratização das instituições, regressão à ordem biologizante, conformismo à normatização da práxis psicanalítica, estabelecimento de um comércio próprio.

Os cenários que constituem os séculos XIX e XX são, então, os mesmos? A expansão do capitalismo comanda as relações humanas e favorece o mercado de fármacos; o desenvolvimento tecnológico seduz e fala de uma organização planetária que vende a ilusão de totalidade e unidade, o que leva o sujeito a renunciar a si mesmo. Ficamos aí reduzidos à mídia, que precisa de um mercado consumidor em expansão e propõe políticas de universalização, sujeitos que se igualem em suas reivindicações. A ciência, com seu prestígio ampliado por sua aplicabilidade técnica, critica e explica os fundamentos da vida social. Questionando as tradições, a ciência tornou-se a religião do século XX, mas não colocou nada no lugar daquilo que destituiu e que tinha seu sustentáculo na história, na cultura, na religião e nos mitos.

Na prática analítica encontram-se a proliferação do acting-out e o consumo do corpo e de gadgets variados que satisfaçam a pulsão escópica. Com tantas ofertas, o sujeito se perde continuamente, o que é um paradoxo, já que visa justamente se localizar. Acting-out e consumo (de seja o que for) são respostas a essa declinação da função do Nome do Pai como intervenção que faz corte no gozo do Outro materno. Mas são respostas falaciosas, pois, como efeito desta declinação, escutamos o chamado: “vamos brincar na floresta enquanto o Sr. Lobo não vem”. Viva o gozo! Assim, o mundo repete monotonamente seus espaços, propondo ao sujeito que qualquer lugar pode ser seu mundo. O problema é que o sujeito não consegue se encontrar em lugar nenhum.

Certamente não foi este o propósito de Freud, que propôs uma abertura ao inconsciente, restaurando o lugar do sujeito: ele tem o que dizer. Para a psicanálise, que faz um contraponto e caminha na contra-mão deste chamado, ainda vale a ética cética que se encontra na proposta freudiana: uma ética que não dá certeza sobre os resultados, não promete a cura ou a salvação, uma ética que não garante a garantia. É a ética centrada no ato e que dá a liberdade para intervenções diferentes que o paciente reclama. Em suma: é a ética da invenção. Mas invenção de quê?

O que está no cerne da invenção é o ato de seu autor que aposta no ineditismo para romper com a reprodução automática. É à invenção que Freud e Lacan recorrem quando avistam os impasses que comprometeram a psicanálise. Mas cada impasse é um novo impasse e é preciso que se faça uma subversão do sujeito, desalojando-o de sua posição sintomática frente ao discurso do mestre, proferido na universidade e pela ciência. O novo é um desconcerto que fura o instituído, o habitual. Talvez a proposta feita pela psicanálise seja uma explicação possível para a mais recente evocação que parte do poder público e que atinge a todas as dimensões produtivas: regulamentar.

Ao verificar uma confusão entre os termos regulação e regulamentação, me propus fazer uma distinção. A regulação faz parte da lei simbólica desde sua constituição e é necessária. Ser regulado é estrutural do sujeito, assujeitado às leis do inconsciente, o que não implica que a invenção seja inibida. Já a regulamentação é de outra ordem, visa criar a ilusão de avanço pela via de um controle; é regra, um resumo de um conhecimento explicativo que diz como inventar. A invenção, como produto singular e inédito de seu autor, não viceja nas regras e normatizações. A regulamentação é a tentativa de calar o inconsciente, de velar o que suas formações revelam; é a penúltima cartada da cultura para conseguir esse efeito de obturar a fenda que o desejo abre e que se abre para o desejo. Depois disso, só há, como último recurso, a “caça às bruxas”.

Todas as tentativas de responder ao desconhecido e estranho, falharam. E ainda assim persiste nas ruas a duradoura oferta de uma rápida certeza.

Diplomada pela União Umbandista dos Cultos Afro-Brasileiros, Orientadora Espiritual, convida para uma consulta. Com a certeza de resolver seu problema.

SIGILO ABSOLUTO

Seus trabalhos são rápidos e garantidos, com os búzios ou as cartas você terá a resposta para suas dúvidas no Amor, no Trabalho, na Saúde e nas Finanças, Problemas Espirituais e Familiares.

Dê uma oportunidade a sua felicidade e faça hoje mesmo uma consulta…”

O acesso a esse preciosismo é indiscriminado, as filipetas são distribuídas nas ruas, revelando, pela enorme variedade de nomes de videntes e pela quantidade de propaganda acessível, o que o povo anseia. A prática do Oráculo é mais ancestral que o logos, pois os homens sempre buscaram respostas e garantias de vida, de riqueza, de fartura, de vitórias, de bem-estar. Mas, se no século VII a. C., o dom divino da Pitonisa exigia o trabalho de elaboração e interpretação daquele que buscava conhecer (a verdade, o futuro, a ascendência), hoje o oráculo tem outra função: não diz mais a verdade do sujeito, já que ninguém a quer. O oráculo de hoje, como a ciência, vende a ilusão de que há uma garantia de sucesso, pois há necessidade de resposta, da certeza de que a felicidade não é um conceito idealizado e de que poderemos driblar o desconforto e a morte.

A astrologia, a religião, a ciência, a tecnologia, o mercado, a pedagogia da felicidade, tentam oferecer o conforto físico e espiritual. Conforto que a psicanálise, ao apostar na hipótese do inconsciente, sabe ser impossível em sua totalidade e, para que ela não denuncie essa impostura, é necessário que silencie. Por isso também ela é posta em todo lugar, falada e aplicada aos mais diversos psicologismos e práticas de higiene mental. Mas, no tempo do “time is money” sua práxis é por demais lenta e, por isso, inaceitável. É preciso adaptá-la à brevidade das psicoterapias.

Se o “Freud explica” retornou como chiste, devido ao amplo acesso a Freud e à psicanálise, veiculado pela TV e na literatura de jornal, o que vemos retornar a partir de Lacan? Desconhecido pelo grande público, Lacan não é matéria para chistes. Circunscrito a uma comunidade bastante restrita de psicanalistas e intelectuais, o texto de Lacan pode favorecer o exercício de vaidade: permite que os jargões circulem depressa e banalmente, sem nenhum esforço de produção. Todas as expressões que custam muito trabalho para serem situadas no discurso analítico são esvaziadas.

No mito de Narciso, Eco, ninfa do bosque, se apaixona por sua beleza. Durante uma caçada, o jovem herói se perde de seus companheiros e chama por eles. Ao entrar em uma caverna é seguido por Eco que responde ao chamado de Narciso com uma proposta de amor. Mas não é Narciso quem responde e sim as palavras de Eco que se desdobram nas paredes de pedra. Para ela, no entanto, o som de sua voz lhe soa como se fossem palavras proferidas por Narciso, que, na verdade a rejeita. Eco fixa-se em suas próprias palavras, fascinada pela possibilidade de que fossem as respostas queridas vindas do outro amado. Abandonada, Eco definha e torna-se pura voz, desaparecendo no ar. Subsiste como a última palavra de um dito seu, sem embaraços, pois não há efeitos, visto que não há uma cadeia de significantes que os sustente.

As palavras portam um quê de sedução e podem nos lançar na armadilha da maldição de Eco. Ao ouvirmos apenas as palavras, ficamos presos numa teia de aparências, onde tais expressões são encontradas, castigadas e presas fáceis para o equívoco e para o desvio. É em função de equívocos e desvios inevitáveis, que a psicanálise deve escutar-se, verificando incansavelmente se os nomes de Freud e Lacan estão, ou não, atendendo à demanda por um messias, deste reformador do corpo social que tem por função preencher os hiatos. Se nos propomos a tal mitificação, nos propomos também a nos desviar da causa psicanalítica e nos entregamos à regulamentação do dia que nos permite brincar no bosque enquanto o Sr. Lobo não vem.

É mais fácil nos submetermos aos ditos dos líderes? É mais garantido quando a clínica segue os mesmos feitos de Freud ou os de Lacan? É mais confortável quando não temos que inventar nossa ação? É mais seguro quando nos atemos a uma “tecnocracia da cura”? Produz menos sofrimento quando o saber de manual consegue suplantar o saber inconsciente? Se as respostas a todas essas perguntas é sim, também será para o título deste trabalho: realmente, vamos correr, afinal, o Sr. Lobo está vindo! Um lobo que designa muitas coisas: desejo, angústia, falta, castração, causa, invenção, singularidade, mal-estar… E, para aqueles que responderem positivamente, ainda resta a ciência, a religião, a universidade, o mercado, a astrologia e o sintoma como companheiros de percurso. Mas é somente o que resta.

Retomo as palavras de Freud em seu pós-escrito ao texto A Questão da Análise Leiga. É preciso antes pontuar que este pequeno adendo é uma reconquista do que Jones e Eitington fizeram perder na tentativa de conciliarem as posições de Americanos e Europeus quanto a esta questão. Se a promessa que Eitington faz a Freud foi de suprimir apenas linhas, notamos sua conformidade implícita na supressão de duas páginas e meia. Ambos – Jones e Eitington – correram do lobo, com certeza. Mas Freud não o fez, recusando-se “à evidente tendência norte-americana de transformar a psicanálise numa simples empregada da psiquiatria”³. E não só da medicina, mas também do mercado, da mídia, da religião, do academicismo e do sucesso.

“(…) Certo, time (is) money, mas não se compreende porque deve converter-se em dinheiro com tanta pressa. Também conservaria seu valor de dinheiro se andasse mais devagar (…). Nas nossas regiões dos Alpes, diz-se habitualmente quando dois conhecidos se encontram ou se despedem: deixa o tempo. Nós já fizemos muita gozação sobre esta fórmula, mas frente à precipitação americana, aprendemos a discernir quanta sabedoria de vida se encontra nela”⁴.

 


 

¹ Trabalho inédito apresentado na Jornada de Encerramento do Ato Freudiano, em 11 de dezembro 2004. O título, e sua referência ao lobo, remete à história dos três porquinhos.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano.

³ Este fragmento da carta de Freud a Schmier de 5 de julho de 1938, foi destacado do texto “A análise leiga, uma questão crucial para a psicanálise”, In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32.

⁴ Pós escrito a “A questão da psicanálise leiga”. In: A Análise é Leiga, Da formação do analista. Revista da Escola Letra Freudiana, 2003, nº 32, pp. 15.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000

FREUD, Sigmund. Psicanálise e Medicina (Análise Profana). Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 141-221

VEGH, Isidoro. Por que ainda a psicanálise no tempo do DSM IV e as Psicoterapias e Terapias Alternartivas. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VEGH, Isidoro. A psicanálise e seus interrogantes para o final do século. Escuela Freudiana de Buenos Aires, 2001. www. efbaires.com.ar

VIDAL, Eduardo. Pós-escrito a “A questão da análise leiga”. Rio de Janeiro, Publicação da Escola Letra Freudiana, Ano XXII, nº 32, 2003, p. 12-17


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2 de junho de 2017by Ato Freudiano0

Pontuação de “Motivos do crime paranóico: o crime das Irmãs Papin”¹

Lilian Freire²

Em 1933, os jornais noticiaram o Crime das Irmãs Papin como “O Massacre de Mans”. Christine (28 anos) e Léa (21 anos) Papin trabalhavam há vários anos na casa de uma família burguesa. Eram consideradas criadas-modelo e também criadas-mistério devido à indiferença que demonstravam. O que chamou a atenção da opinião pública foi a falta de motivos para o crime e isso provocou comoção e inquietação.

 

O Crime

Na noite do dia 2 de fevereiro, as irmãs, inábeis, provocaram um curto-circuito elétrico, o que resultou em uma provável cena de mau humor e censura das patroas – mãe e filha – que retornavam de um passeio. Por coisas menos importantes, elas já se mostravam indispostas em relação às irmãs. As declarações de Christine sobre a reação das patroas variavam. O ataque das irmãs foi súbito, simultâneo, levado ao paroxismo do furor: cada uma delas subjugou uma das patroas; arrancou-lhe os olhos das órbitas e as espancou. Com as patroas ainda vivas, esmagaram suas faces com qualquer instrumento que tinham à mão. Deixando à mostra o sexo delas, cortaram as coxas e nádegas de uma para ensanguentar as da outra. Em seguida, lavaram os instrumentos, a si mesmas e deitaram-se na mesma cama, com a conclusão “Agora tudo está limpo!”³, fórmula que parecia ter o tom da desilusão, sem qualquer emoção após a “orgia sangrenta”.

 

O Inquérito

No julgamento, não fizeram queixa, não declararam ódio ou motivo para o crime. A única preocupação era a de partilhar a responsabilidade pelo crime. Três médicos peritos não apontaram sinal de delírio, demência ou de distúrbio atual psíquico ou físico. Nenhum dado preciso deu alguma indicação, ouvia-se apenas impressões: uma tentativa atrapalhada de emancipar Léa, junto ao Prefeito; a opinião do secretário-geral, que as achou “meio piradas”; o testemunho de um delegado que as considerava “perseguidas”; eram unidas por uma afeição singular; eram imunes a qualquer outro interesse; passavam os dias de folga juntas e dentro do quarto; tinham um pai alcoólatra e brutal que, segundo diziam, violentou uma das filhas, negligenciando a educação delas. Nenhum destes dados foi levado em consideração.

Na prisão, Christine e Léa foram separadas e após cinco meses, Christine teve uma crise de agitação violenta, com alucinações aterradoras. Numa segunda crise, tentou arrancar os próprios olhos, ficou apenas com algumas lesões e foi preciso contê-la com camisa-de-força. Ela fazia exibições eróticas e surgiram sintomas melancólicos: depressão, inapetência, auto-acusação com atos expiatórios repugnantes e frases delirantes. Christine declarou que simulara estes estados, mas Lacan adverte: esta declaração não pode ser considerada a chave real de sua natureza, pois o sentimento de jogo que o sujeito sente não explica nem exclui seu comportamento mórbido.

Em 30 de setembro, o júri condenou as irmãs Papin e ao compreender que seria decapitada na praça de Mans, Christine recebeu a notícia de joelhos. Mas as características do crime, bem como os problemas de Christine na prisão, a estranha vida que as irmãs levavam, convenceram os psiquiatras que eram irresponsáveis por seus atos. Dr. Logre ao ver a recusa de que um contralaudo fosse feito, assumiu uma posição de defesa e construiu hipóteses sobre a presumível anomalia mental das irmãs: ideias de perseguição, perversão sexual, epilepsia ou histero-epilepsia.

 

A Discussão teórica de Lacan

Para Lacan, a indiferença que marcava as irmãs não era uma resposta à perda de simpatia dos patrões. Havia entre patrões e empregadas um silêncio que não podia ser vazio, mesmo que fosse obscuro para os dois lados. Lacan explora a paranoia como entidade mórbida que, apesar da revisão feita pela psiquiatria, apresenta três traços clássicos:

  1. Delírio intelectual que varia de ideias de grandeza às ideias de perseguição;
  2. Reações agressivas, com frequência, homicidas;
  3. Evolução crônica.

 

No que concerne à estrutura desta psicose, há duas concepções que se opõem:

  1. Considera a paranoia como o desenvolvimento de uma “constituição” mórbida, de um vício congênito do caráter;
  2. Considera seus fenômenos elementares como distúrbios momentâneos da percepção qualificados de interpretativos devido à sua analogia aparente com a interpretação normal: o delírio seria um esforço racional do sujeito para explicar essas experiências; o ato criminoso seria uma reação passional motivada pela convicção delirante.

 

Para Lacan, essas duas concepções são insuficientes. Em sua leitura destaca a importância vital das relações sociais que incidem sobre cada uma das três ordens de fenômenos. A noção dinâmica de tensões sociais é, para ele, um fator que explica os fatos da psicose, na medida em que o estado de equilíbrio ou ruptura destas tensões define a personalidade no indivíduo. Lacan eleva a pulsão agressiva que se resolve no assassinato a fator fundamental por aparecer como afecção que serve de base à psicose. A pulsão é inconsciente e seu conteúdo intencional só pode se manifestar mediante compromisso com as exigências sociais integradas pelo sujeito, exigências que se traduzem como camuflagem dos motivos, que é precisamente todo o delírio. Em si mesma, esta pulsão é marcada pela relatividade social e tem sempre a intenção de um crime, seja por vingança ou por punição, procedendo dos ideais sociais e se identificando, muitas vezes, com ato de moralidade com o alcance de expiação (autopunição). Eleição da vítima, sua eficiência mortal, os modos de desencadeamento e de execução são as características objetivas do crime que variam com os graus de significação humana da pulsão fundamental. São esses graus que comandam a reação da sociedade em relação ao crime paranoico: é uma reação ambivalente que leva ao contágio emocional do crime e às exigências punitivas da opinião pública.

O horror que despertou deu, ao crime, o valor de imagem atroz, mas simbólica nos seus mais hediondos detalhes, incluindo nas metáforas do ódio mais usadas, como “eu lhe arrancarei os olhos”. Tais metáforas recebem sua execução literal. Ao aplicar o máximo da pena, a consciência popular revela o sentido que dá a este ódio e talvez se engane quanto ao sentido real da aplicação da pena máxima. O provérbio “compreender é perdoar” se submete aos limites de cada comunidade humana. Fora deles, compreender, ou acreditar compreender, é condenar.

O conteúdo intelectual do delírio se apresenta como superestrutura que, ao mesmo tempo, justifica e nega a pulsão criminosa. Para Lacan, ele se submetido às variações desta pulsão, à queda que resulta de sua satisfação. No Caso Aimée, o delírio se desvanece assim que o ato foi cometido. As insuficiências das descrições e explicações clássicas afirmaram a estabilidade dos delírios paranoicos, quando há, apenas, constância da estrutura, e levaram ao desconhecimento da existência destas variações. Com isso, os peritos se equivocam em suas conclusões, o que explica o embaraço diante dos crimes paranoicos, produzindo mais incertezas.

O delegado foi o único que deu uma pista de formulação de ideias delirantes antes do crime. A imprecisão de seu depoimento, no entanto, não poderia ser motivo de sua rejeição no tribunal, visto que qualquer psiquiatra sabe que a indefinida esteriotipia das afirmações dos paranoicos, antes que se explicitem em fórmulas delirantes, produzem um estranhamento que não pode ser desconsiderado. Além disso, as funções de triagem dos centros da polícia forneciam o hábito desta experiência.

Na prisão, Christine manifestou vários temas delirantes, a partir dos quais Lacan qualifica os sintomas típicos do delírio: desconhecimento sistemático da realidade, com a crença de que as patroas haviam voltado em outro corpo e as crenças ambíguas expressas em frases como “Creio mesmo que numa outra vida eu devia ser o marido de minha irmã”. Lacan aponta que há uma certa ambivalência constante nas crenças delirantes, desde as formas afirmativas dos delírios fantásticos (nas quais o sujeito reconhece uma “dupla realidade”) até as formas interrogativas dos delírios de suposição (nas quais a afirmação da realidade lhe parece suspeita).

A análise dos conteúdos e das formas, permitiu a Lacan retirar as duas irmãs da classificação geral limitada de paranoia, e ele considera que as formas da psicose nas duas irmãs são, senão idênticas, pelo menos correlativas. No decorrer das investigações, considerou-se impossível que a mesma loucura fosse compartilhada por duas pessoas, ou que a revelassem simultaneamente. Lacan aponta que tal afirmação é falsa. Os delírios a dois estão entre as formas das psicoses reconhecidas e se produzem eletivamente entre parentes próximos (pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs). Seu mecanismo dependeria, em certos casos, da sugestão exercida por um sujeito delirante ativo sobre um sujeito débil passivo

Lacan oferece outra concepção da paranoia que explica mais satisfatoriamente o paralelismo criminal das irmãs. A pulsão assassina que ele entende ser a base da paranoia seria apenas uma abstração insatisfatória, se não estivesse controlada por uma série de anomalias correlativas dos instintos socializados e se não se pudesse considerar essas anomalias pulsionais como contemporâneas em sua gênese. Homossexualidade, perversão sado-masoquista, são os distúrbios instintivos que somente a psicanálise soube desvelar. A partir de suas experiências com a escuta de paranoicos, Lacan hesitou diante da afirmação da existência de relações sexuais entre as irmãs, e aponta a precisão do Dr. Logre ao usar o termo sutil “casal psicológico”. Os psicanalistas, quando derivam a paranoia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de “larvar”: “Essa tendência homossexual só se expressaria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor”⁴.

Lacan retoma Freud, no artigo “Sobre alguns mecanismos neuróticos no crime, na paranoia e na homossexualidade”, em que ele não fornece a chave do paradoxo, mas os elementos para encontra-la: nos primeiros estádios da sexualidade infantil, há uma redução forçada da hostilidade primitiva entre os irmãos. Freud aponta que uma inversão anormal (de hostilidade em desejo) pode se produzir. Esse mecanismo gera um tipo especial de homossexuais entre os quais predominam os instintos e as atividades sociais. Lacan reconhece esse mecanismo como constante. A fixação amorosa é a condição primordial da primeira integração nas tendências instintivas do que se chama as tensões sociais. É uma integração dolorosa, na medida em que a civilização exige o sacrifício pulsional de seus membros: este é o vínculo com a intencionalidade pessoal do sofrimento infligido que constitui o sadismo. Esta integração se faz segundo a lei da menor resistência por uma fixação afetiva narcísica ainda muito próxima do eu solipsista⁵, em que o objeto escolhido é o mais semelhante ao sujeito: esta é a razão de seu caráter homossexual. Esta fixação deve ser ultrapassada para chegar a uma moralidade socialmente eficaz.

Nos paranoicos, esta evolução não vai além do primeiro estádio e sabe-se que sua ação estava presente na vida das irmãs. A observação dos casos múltiplos de paranoia associada à sondagem social levou Lacan a considerar a estrutura das paranoias e dos delírios vizinhos como tributários deste tipo de complexo fraterno. O mesmo ele observou no caso Aimée, em que a ambivalência afetiva para com a irmã mais velha dirigiu o comportamento autopunitivo da paciente. No curso de seu delírio, Aimée incorporou em outras personagens as acusações de seu ódio amoroso, num esforço de se libertar de sua fixação primeira. Mas cada uma das perseguidoras era apenas uma nova imagem, prisioneira do narcisismo de Aimée, da irmã da qual ela fez seu ideal. Por serem apenas imagens, Aimée amou todas as perseguidoras.

O “mal de ser dois” de que sofrem os paranoicos, não os liberta do narcisismo. Aimée atinge aquela que ela odeia justamente por representar o ideal que ela tem de si mesma. A necessidade de autopunição, o sentimento de culpa, também estão presentes nas Irmãs Papin, nem que seja no ato final de Christine em ajoelhar-se. Mas parece que, entre elas, não podiam instaurar a distância necessária para se matar, pois, siamesas, formavam um mundo fechado. Dr. Logre, aos ler seus depoimentos após o crime, comenta: “tem-se a impressão de estar lendo duplo”. Com os únicos meios de seu isolamento, elas devem resolver seu enigma: o enigma humano do sexo. Os paranoicos podem arquitetar loucuras sobre o enigma do falo e da castração feminina. É, portanto, possível reconhecer, nas confissões tímidas do sujeito dito normal, as crenças que ele cala e que acredita calar porque as considera pueris, quando, de fato, ele se cala porque sem o saber ainda adere a elas.

Na tarde do crime, que gerou a ansiedade de uma punição iminente, as irmãs associaram à imagem das patroas, a miragem de seu mal. O que elas detestavam nas vítimas, era a própria aflição. Elas arrancaram os olhos como num ato de castração e a curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as mais antigas eras, foi o que as animou quando desejaram suas vítimas, quando elas perseguiram, em suas feridas o que Christine, mais tarde, chamou de “o mistério da vida”.

 


 

¹ Este texto é a pontuação do capítulo “Motivos do crime paranoico: o crime das Irmãs Papin”, da tese de Jacques Lacan (1932), Da psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade, como contribuição à atividade Núcleo de Investigação de Psicoses, do Ato Freudiano.

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano.

³ LACAN, p. 382.

⁴ LACAN, p. 388

⁵ SOLIPSISMO: doutrina que defende que a única realidade no mundo é o eu.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, Jacques. Motivos do crime paranoico: o Crime das Irmãs Papin. In: ____. Da Psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987, p. 381-390.


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1 de junho de 2017by Ato Freudiano0

A biblioteca e seus ritmos: produção ou estagnação¹

Lilian Freire²

Uma biblioteca pode responder por dois efeitos: produção quando é lugar de oferta e procura, gerando movimento. Estagnação quando se burocratiza, fechando-se para o leitor.

Em A questão da Análise Leiga, Freud explica ao “locutor imparcial” que não basta o estudo teórico, é preciso análise pessoal. Ler é importante³: são poucos os objetos que encontram no sonho uma representação, embora suas relações simbólicas sejam vastas⁴. A linguagem usual⁵ fornece pequena parte delas; o mesmo simbolismo é matéria de mitos, contos, provérbios, canções populares, da linguagem corrente, da imaginação poética, e dos sonhos. Freud e Lacan exigem que o analista seja letrado: ele não pode se recusar a esta imersão na cultura⁶. O adjetivo “culto” é apenas consequência do trabalho e a Escola é, neste contexto, fundamental.

Letrado e Iletrado não devem ser usados como qualificativos, mas apontam para a posição do leitor diante do texto. C.S. Lewis dá ênfase ao “como” se lê e não ao “o que” se lê. Não faz uma teoria comportamentalista, pois é o desejo que está na base da leitura. Lewis não fala com os leitores, fala para a crítica literária⁷.

Letrado é a posição do leitor que insiste, aberto para o que pode receber do livro e, para isso, se abstém de pensamentos, juízo prévio e objetivos pré-programados, pondo-se fora do caminho ao entregar-se à invenção do autor. O letrado é aquele que fecha o livro, sem se fechar para os seus efeitos. Mas estar limpo diante de um texto é uma condição ideal, pois a própria experiência da leitura contamina o leitor que tem expectativas de encontrar algo, seja da ordem de uma resposta, de um prazer, de uma fuga, de uma comoção qualquer.

Iletrado é a posição do leitor que repete, descartando o livro assim que é lido: fecha-se ao que o livro pode fazer por ele,transformando o texto em diretriz de vida, matéria de repetição pela via da citação, eximindo-se de fazer a leitura própria. Lewis conclui: todos são iletrados em determinado momento da vida, quando crianças. A aposta é que se possa crescer e abdicar do narcisismo, a marca do infantil. Como Letrado e Iletrado são posições, pode-se passar de uma a outra, o que não implica em um julgamento de valor, seja da obra ou do leitor⁸.

Lewis faz do mito a fronteira que delimita estas duas posições: o iletrado pergunta: “O herói vai escapar?”. O letrado sente: “Nunca escaparei disto. Isto nunca escapará de mim.” Os textos de Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues geram resistência e embaraço para atores, críticos e leitores: estes efeitos derivam do fato de que tais textos têm a estrutura do mito, sem se prestar a identificações imaginárias? Não colocariam o leitor diante da posição que ocupa, ao desalojar o sentido e a compreensão? Também diante da poesia, não há letrado que se garanta: pura letra, a invenção é dada pela palavra e pelo ritmo que circula, arrastando o leitor para o campo da fala. Ler em voz alta, seja a poesia em verso ou em prosa, leva o leitor a experimentar o que é da ordem significante.

Mas Lacan adverte: “ler” não é o mesmo que “ler a letra”, revelando que não há relação entre literatura e psicanálise. Apenas um ponto, em uma zona de intercessão, permite este encontro, onde “algo” tem a face de “umbigo”, por ser insondável: um texto escapa; a letra lida, esta que é o suporte do sonho, não se pode dizê-la. O irrepresentável que persegue o autor é o mesmo irrepresentável que persegue o sonhador, e não porque possa se forçar uma equivalência entre ambos, mas porque esta é a lógica do inconsciente. Talvez, ao garimpar⁹ livros, o leitor busque a representação deste irrepresentável, para se aproximar disso que o determina e que ele não sabe dizer.

Lacan, em entrevista a Granzotto, define a psicanálise como uma prática em que um fala e outro escuta. O analista dá “somente as respostas que incita seu desejo”. Esta fórmula lacaniana inspira à reflexão: “Como pegar o vivo do texto? O que um texto nos ensina?” Seja analista ou não, o leitor deve estar aberto para sofrer os efeitos decorrentes da leitura e um deles pode ser o silêncio. Lacan produziu um saber sobre o “como ler” e o “ensino que vem deste campo” ao ler e construir um saber próprio, a partir daquilo em que foi tocado.

Jean-Guy Godin enfatiza o “analista letrado”, para perguntar: “Como produzir um saber que também toca no campo da psicanálise?” No encontro com a literatura, o analista é efeito daquilo que o causa. A psicanálise pode responder à literatura ao produzir um saber novo, é a resposta de Godin, que aponta para o fazer de Lacan em sua leitura de “Hamlet”: Hamlet é um personagem, mas não de caso clínico, não interessa se é histérico ou obsessivo. A peça discorre sobre o lugar do desejo. Se a leitura produz gozo e o analista, diante da literatura deve-se deixar afetar, como produzir um saber novo? Será que não se trata, justamente, de ser enlaçado a este campo pela via da insistência e não da repetição sintomática? Insistência que levaria a uma passagem do dito ao dizer: o “Ser ou não ser…” deixa de ser a citação erudita; torna-se o espaço onde se pode ler sobre a covardia que leva o sujeito a abrir mão de seu desejo, até que só reste a morte como escapatória. O que isso nos ensina?

Se a idéia de um analista leitor é arrogante, a idéia de um analista autor é indispensável. A produção do saber novo exige o público, um esmerar-se com a palavra, a passagem do signo ao significante. O escrito é o produto que instaura a interlocução quando o saber textual está em campo. Assim se acede interminavelmente à posição de letrado, onde se pode suprimir os clichês, os bordões esvaziados e os jargões.

A proibição do acesso aos livros é o recurso elementar do autoritarismo. “Farenheit 451” descreve um cenário em que o sujeito perde a condição de escolher, onde individualismo, drogas legítimas, sexo e conforto dão conta do mal estar. Um grupo faz resistência com bibliotecas clandestinas, que, ao serem descobertas, são destinadas ao fogo: este grupo, em fuga, cria uma sociedade composta de “pessoas-livro”, recurso utilizado para manterem vivas a história e a literatura.Também ali, o destino dos livros, após serem memorizados, é a fogueira. O mesmo Farenheit? Então, quando a pessoa-A República estiver próxima da morte, deverá passar para outro, o que decorou. As pessoas-livro padecem do mesmo congelamento? Esta herança pode ser recusada? Segundo Borges,

Os antigos não professavam nosso culto ao livro – algo que me surpreende – pois nele viam apenas um substituto da palavra oral. Aquela frase sempre citada – scriptamanent, verba volant¹⁰ – não significa que a palavra oral seja efêmera, mas, sim, que a palavra escrita é algo duradouro e morto. Por outro lado, a palavra oral tem alguma coisa de fugaz, de inconstante. Fugaz e sagrado, como disse Platão. Todos os grandes mestres da humanidade foram, curiosamente, grandes mestres da oratória.

… deliberadamente, Pitágoras nada escreveu. Não escreveu porque não quis tornar-se prisioneiro da palavra escrita. Sentiu, sem dúvida, que a letra mata e o espírito vivifica – o que, mais tarde, viria a ser citado na Bíblia.

De que ditadura se trata: daquela instaurada por nossa realidade psíquica ou da ditadura da lei? Bradbury¹¹ declarou que quis apenas mostrar o quanto amava os livros, denunciando que a TV usurpa o lugar da literatura e leva as pessoas a um conformismo acrítico. No engajamento a uma obra, pode-se apreender algo que tocaria no ponto preciso em que o leitor está ancorado à sua própria questão fantasmática? Esta leitura pode ser feita ou seria torcer o texto para caber na teoria? Godin indica que uma leitura a mais pode ser feita, mas o que realmente interessa à psicanálise é que se faça uma leitura que instaure um saber novo.

Farenheit ilustra a covardia, o desejo, a coragem e também a biblioteca viva: espaço onde o saber textual e o saber referencial se contêm, em movimento. A biblioteca, particular ou pública, tem que ser viva: possibilita o acesso ao saber próprio. Para um analista a biblioteca é inevitável, por ser lugar de trabalho, e representa mais do que o fazer burocrático por vetorizar o ensino e/ou a transmissão como suporte e baliza de um percurso de formação. Novamente é Borges a fonte:

 

Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

… a memória da humanidade. Isso é o livro. …

Microscópio e telescópio apontam para a pulsão escópica. O engajamento à leitura responderia à pulsão, visto que olhar e voz são objetos pulsionais (por isso ler em voz alta é um trabalho de valor ao analista)? Ler é ato, na medida em que deixa, como lastro, um resto. Mas para que tal projeto seja viável, é necessário que este instrumento, portátil e possível, o livro, esteja disponível. O olhar que a biblioteca exige é, portanto, democrático, na medida (e somente nesta perspectiva) em que possibilita o acesso, por qualquer um, a este instrumento. Exige uma posição ética e decidida: decidida porque requer esforço além da tarefa; ética porque revela, no manejo da regra, o ato de manter o significante em circulação. Não é escolha da vontade, é convocação do desejo.

 


 

¹ Trabalho inédito apresentado na Jornada de encerramento do ato Freudiano, em 2013

² Psicanalista, membro do Ato Freudiano, Escola de Psicanálise de Juiz de Fora.

³ Freud põe em relevo a mitologia: “Também aqui o ajudará a Mitologia a acreditar na psicanálise. O mesmo Cronos, que devora seus filhos, castrou antes a seu pai Urano e foi, por sua vez, castrado por seu filho Zeus, a quem a astúcia da mãe salvou de morrer com seus irmãos” (pag. 174)

⁴ Conferência X, O Simbolismo no Sonho.

⁵Em “História do Movimento Psicanalítico”, Freud afirma que a Associação Livre é pobre no que diz respeito ao simbolismo.

⁶ O ensino psicanalítico compreenderia também matérias estranhas ao médico e a que não recorre na sua atividade profissional: História da Civilização, Mitologia, Psicologia das Religiões e Literatura. Sem uma boa orientação nesses campos não pode chegar o analista a uma perfeita compreensão de grande parte de seu material. (pag 216).

⁷ (…) Para pessoas assim, ler torna-se, com frequência, mero trabalho. (…) Lembro-me bem da reprimenda de que fui alvo da parte de um homem para quem, quando nós saímos de uma sessão de exames, tive a falta de tato de mencionar um grande poeta sobre o qual muitos candidatos haviam escrito. Sua atitude (esqueci as palavras exatas) poderia ser expressa da seguinte maneira: “Bom Deus, você ainda quer continuar com isso depois do expediente? Você não ouviu o sinal tocar?” Só consigo sentir pena por aqueles que são reduzidos a essa condição por necessidade econômica e excesso de trabalho. Infelizmente, ambição e tendência ao antagonismo também produzem o mesmo resultado. LEWIS, C.S. Um experimento na crítica literária. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 12-13.

⁸ Para um, uma obra pode capitalizar além do que texto ensina ou transmite, e não pode ser qualificada como uma boa obra, no universal. Se para outro, a mesma obra não produz tais efeitos, não é da ordem da verdade paranoica que ela seja ruim.

⁹ “O artista, como o garimpeiro, vive de procurar aquilo que não perdeu”. Cildo Meireles.

¹⁰ NOTA DO AUTOR: Tradução “textos permanecem, as palavras voam”.

¹¹ Ray Bradbury é autor do livro Farenheit 451, adaptado para o cinema, e que foi dirigido por François Truffaut, em 1966.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORGES, Jorge Luís. O livro. IN: BORGES, Jorge Luis. Cinco visões pessoais. Brasília, UnB, 1996, p. 5-11.

FREUD, Sigmund. Psicanálise e Medicina (Análise Profana). Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 141-221

FREUD, Sigmund. História do Movimento Psicanalítico. Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume XVIII, p. 5-72

FREUD, Sigmund. Conferência X: O Simbolismo no Sonho. Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro, Editora Delta, Volume, p. 165-189

GODIN, Jean-Guy. Notas acerca da leitura de um texto literário no discurso analítico. Rio de Janeiro. Publicação da Escola Letra Freudiana, Ano XVII, nº 26, 2000. p. 93-100. Tradução: Olga Maria Carlos de Souza.

LACAN, Jacques. Entrevista a Granzotto Não pode haver crise da psicanálise. Juiz de Fora, Revista do Ato Freudiano, ano 1, nº 0, p. 39-50. Tradução: Orris Ricardo Canedo de Almeida

LEWIS, C. S. Um experimento na crítica literária. São Paulo, Editora UNESP, 2009.

SCOVINO, Felipe. Cildo Meirelles. Coleção Encontros. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009